10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Imigração causa desemprego no Japão

Diego Molina
| Tempo de leitura: 9 min

Com a alta migração de trabalhadores da Ásia e da América do Sul para o Japão nos últimos anos e as conseqüências da globalização, o mercado de trabalho japonês sofreu um inchaço de grandes proporções e o desemprego no país chegou a níveis nunca imaginados pela população. Por conta disso, muitos jovens japoneses têm procurado deixar sua terra natal em busca de melhores empregos, tanto em economias crescentes como a China, como em países onde os migrantes vislumbram a possibilidade de uma vida melhor, como o Brasil.

Esta é a análise de Yoshikazu Yamochi, professor do curso de língua portuguesa brasileira da Faculdade de Estudos de Cultura Americana e Européia da Universidade de Tenri, no Japão. Na última semana, ele esteve em Bauru acompanhando um grupo de alunos do curso, em uma viagem cultural que faz parte do currículo da faculdade. Há pelo menos dez anos, os professores da universidade trazem os alunos para o Brasil, em uma parceria com a Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Entre os jovens japoneses, o estudante Soushi Kajihara, 22 anos, confirma a análise do professor. Ele conta, em português, que já passou um ano no Brasil em um programa de intercâmbio e pretende se aprimorar no estudo da língua e da cultura para mudar-se para o País no futuro. “O brasileiro é muito gente boa, tem um grande coração, tenho vontade de morar aqui. Eu quero trabalhar aqui. Meu pai tem uma rede de restaurantes e tenho vontade de abrir um aqui também, em Bauru”, planeja.

Nesta entrevista, além da análise do mercado de trabalho, o professor Yamochi também fala sobre as perspectivas para os alunos do curso de português, a situação dos dekasseguis (brasileiros descendentes de japoneses que foram trabalhar no Japão) e dos problemas que a sociedade japonesa vem enfrentando nos últimos anos.

Jornal da Cidade – Para começar, gostaria que o senhor explicasse o que é o curso de língua portuguesa brasileira da Universidade de Tenri.

Yoshikazu Yamochi - O objetivo do curso é ensinar a língua portuguesa, nos dois primeiros anos, e no terceiro e no quarto ano, o curso se divide em três: língua e cultura, sociedade e cultura, e história e cultura. Os alunos escolhem um dos três seminários e complementam sua formação. Dos estudantes que vieram para o Brasil, temos alunos de língua, de história e os que optaram pela sociologia do Brasil.

A fundação do nosso curso ocorreu devido ao acordo entre as cidades de Bauru e Tenri, há mais de 30 anos. A igreja Tenrikyo, que é a sede da nossa universidade, tem sua sede latino-americana aqui em Bauru. Isso facilitou a criação de um curso de cultura brasileira. O próximo grupo que virá para cá, no ano que vem, já terá passado por uma mudança na universidade. O curso agora é do Departamento de Estudo de Línguas das Américas e da Europa. Até então era de culturas internacionais. Quer dizer, ficou declarado que o objetivo do curso é realmente estudar a cultura e a língua do Brasil, a brasilidade.

JC – O curso tem muita procura?

Yamochi - Sim. Dentro da faculdade, temos 11 línguas. A procura maior é pelo inglês, sem dúvida, e o chinês. Mas a língua portuguesa também tem uma grande procura, na média com outras línguas bem procuradas. Há algumas línguas, como tailandês, russo, indonésio, que não conseguimos completar o número de alunos porque o interesse é pequeno. Mas principalmente espanhol e português, ligados com a cultura européia e latino-americana, a procura é bem grande.

JC – A intenção dos alunos que fazem o curso é apenas conhecer a cultura ou sair do Japão e se instalar em outros países?

Yamochi - Temos alunos que terminaram o curso e vieram prosseguir seus estudos aqui. Temos uma aluna que terminou um mestrado aqui na Unesp e outro que acabou de terminar em Araraquara. Tem alguns que foram para Portugal e até abriram as portas para que fizéssemos um convênio com a Universidade de Coimbra. São todos ex-alunos de Tenri. Muitos vão para o exterior e muitos vieram para o Brasil, trabalhando na escola de japonês. Alguns também vem para lecionar japonês para descendentes de japoneses e para brasileiros. O interesse deles é conhecer melhor a cultura brasileira, mas muitos têm o intuito de fazer trabalho voluntário, como na escola japonesa. A remuneração é pouca, mas eles acabam querendo ficar. Este é apenas o primeiro contato de alguns com a cultura do Brasil.

JC – E a viagem faz parte do currículo, certo? O que ela pode enriquecer no conteúdo dos alunos?

Yamochi – Percebemos a modificação dos alunos depois dessa viagem cultural. Alguns vêm para o Brasil com o objetivo de ficar algum tempo aqui com uma família brasileira e depois deixam o curso, quando voltam para o Japão. Outros percebem que não conseguiram se comunicar e se esforçam para aprender melhor a língua, se dedicam mais e até encontram seu objetivo. Eles querem ter mais conhecimentos sobre o Brasil, então tentam fazer uma pós-graduação ou procuram uma empresa que tenha filial aqui para manter esse relacionamento com o Brasil.

JC – Como é o mercado de trabalho para os jovens formados em língua portuguesa e cultura brasileira?

Yamochi – É muito resumido. Apesar da grande comunidade nikey brasileira no Japão, os alunos têm de buscar municípios que tenham brasileiros e onde há trabalho de orientação para alunos filhos de brasileiros, que têm dificuldade em acompanhar as escolas japonesas. Há trabalho em serviços que oferecem orientação a brasileiros para se adaptarem à vida cotidiana no Japão. Também existe campo com os brasileiros que conseguiram se fixar no Japão e montar uma microempresa. Eles precisam de alguém que domine bem as línguas portuguesa e japonesa e que compreenda o sistema do mercado japonês.

Temos uma situação crítica no Japão atualmente, por conta dos brasileiros que levam os filhos para lá e as crianças não conseguem se adaptar com facilidade à vida escolar. Com isso, o índice de criminalidade no Japão aumentou muito. A polícia local busca as pessoas que falem português para possibilitar o diálogo com os brasileiros. Alguns buscam um trabalho mais liberal. Muitos meninos que jogam futebol querem ser intérpretes dos profissionais brasileiros que vão para o Japão.

JC - E para o jovem japonês em geral, quais são as perspectivas atualmente?

Yamochi - A situação está muito difícil. Os jovens terminam a faculdade com 22 ou 23 anos e o índice de desemprego é muito alto, vem crescendo a cada ano. Antigamente, existia aquela lenda de que uma vez que um empregado se estabelecesse em uma empresa japonesa, ele estaria com a vida garantida, ao mesmo tempo em que deveria dedicar toda sua vida à empresa. Esse mito acabou. O setor está cada vez mais automatizado e racional, com isso, são selecionados apenas os profissionais mais capacitados. Uma vez que não são consideradas adequadas para a empresa, as pessoas recebem a demissão. Depois dos 45 anos, é muito difícil encontrar outro trabalho. O índice de desemprego no Japão aumentou surpreendentemente nos últimos cinco anos, chegou entre 6% e 7%. Recuperou um pouco nos últimos meses, mas ainda está alto.

JC - E por isso os jovens estão deixando o Japão à procura de trabalho?

Yamochi – Tem muitos jovens procurando trabalho na Ásia, principalmente na China. As empresas multinacionais estão entrando direto na China e o mercado de trabalho vem crescendo. Os japoneses que têm escolaridade levam vantagem em relação aos chineses. Também há empresas japonesas entrando no mercado chinês e elas exigem funcionários que falem as duas línguas. Justamente por isso, os cursos de chinês são muito procurados ultimamente.

JC - Na sua opinião, qual é a perspectiva de futuro para os dekasseguis que foram para o Japão nos últimos anos? Ainda há espaço no mercado para mais brasileiros?

Yamochi – Os japoneses em geral vêem os nikeys, brasileiros filhos de japoneses, ainda como estrangeiros. Pela primeira vez na história, o Japão é um país receptor de imigrantes, então vem chineses, vietnamitas, filipinos, uma salada de pessoas, e ainda peruanos, bolivianos e brasileiros descendentes de japoneses. Temos muitos clandestinos também. Isso prejudica a imagem dos imigrantes. Os que foram primeiro conseguiram se estabilizar no Japão e ainda conseguiram levar a família e os filhos. Mas muitos jovens não conseguem se adaptar às escolas, ficam sem estudo e acabam ficando nas ruas e cometendo crimes. Os índices de criminalidade vêm subindo cada vez mais e a imagem dos imigrantes só se deteriora. O sistema educacional japonês é muito recalcado, eles apresentam uma educação e criam um sistema protótipo de vida e de estudante, tem que ser aquilo e pronto. Muitos brasileiros não conseguem se adaptar.

O governo brasileiro já se preocupou com isso e instalou escolas que seguem o modelo brasileiro. Mas a mensalidade é cara, mesmo para os pais que trabalham, e, muitas vezes, as escolas são distantes da comunidade onde vivem. Isso nos preocupa muito e por isso a nossa escola está enviando um grupo para orientar essas crianças. Infelizmente, o número de voluntários ainda é pequeno. O ideal seria se a comunidade brasileira conseguisse formar uma unidade mais forte e enraizada no Japão, e que se preocupasse com a educação dos filhos. A primeira coisa é ver se vai ficar no Japão ou se quer voltar. Se vai se estabelecer, tem que se fixar e pensar no futuro, na educação dos filhos e numa qualidade de vida. Se quer voltar para o Brasil, então faça um plano de cinco anos e não leve as crianças, porque os pais vão ter de se dedicar ao trabalho. É duro ficar sem a família, mas quem vai sair perdendo são as crianças.

Como o Japão está recebendo pela primeira vez a mão-de-obra estrangeira, a legislação ainda não acompanha isso. Tem que haver muita modificação para que as leis sejam adaptadas aos estrangeiros.

JC - Quais tipos de modificações?

Yamochi – Por exemplo, filhos de brasileiros que nascem no Japão são brasileiros. Aqui no Brasil, o filho de um casal de turistas japoneses que nasce aqui vai ser brasileiro. No Japão, os coreanos de terceira geração ainda são coreanos. Ainda há muitos pontos da legislação que precisam ter mais flexibilidade. Outro exemplo: há uma série de brasileiros casados com japonesas e japoneses, mas não conseguem título de cidadão, não são considerados japoneses mesmo estando estabilizados no Japão e com filhos japoneses. Eles não têm os mesmos direitos e isso dificulta a vida das pessoas porque elas não têm direito a seguro hospitalar, não conseguem tirar título de eleitor e uma série de outras condições. O Japão ainda não se preparou a essa nova era, ainda não viu que essa situação vem causando uma série de problemas e o governo, como todo governo, demora para agir. Há futuro e há possibilidade de mudar as coisas, mas e isso exige uma responsabilidade muito grande das pessoas que estão indo trabalhar no Japão, assim como dos japoneses que vieram para o Brasil há muitos anos.