Li, não sei onde, escrito, não sei por quem: certa vez, uma grande onda avançava para a praia quando encontrou outra onda, já de volta. Perguntou-lhe, então: Pra onde vai? Para o mar, respondeu a outra. Mas, você é o mar...
Aprendemos no vai-e-vem das ondas. Nem sempre o desfazimento dela é suave; às vezes, quebra-se com violência para, em seguida, cumprir o seu destino: voltar para o mar... porque é mar. Nele, se refaz, reconforta-se, ganha forças e, de novo, avança.
A “consciência” de que é mar dá à onda a segurança, ainda que se quebre. Tem para “onde voltar”, porque é. Não importa o recomeço... Afinal, sete anos de pastor Jacó serviu Labão, pai de Raquel, serrana bela. Mas não servia o pai, servia a ela. A ela só, por prêmio pretendia... E, quantas vezes, também a nós, é dado
Lia... Que importa? Sete anos mais, havemos de servir...
No vai-e-vem da vida, visto à distância, há uma linha reta, ascensional. Não importa o vai-e-vem... Aprendeu-se. Avançou-se. E, esse, deve ser o destino do ser: aprender, avançar.
Também eu acreditei poder sentar-me à sombra da grande árvore imaginária, estender meus olhos na direção do horizonte, onde o sol já se põe; e, na espera, rememorar o tempo já vivido e antegozar a paz tão esperada... Tudo parece feito. Tudo parece pronto. Até nas coisas dolorosas houve bem, porque se aprendeu; até nas experiências incompreendidas houve o germe do acerto... porque há sempre a esperança de que outros delas se beneficiem. Agora, pensava eu, é só aguardar; e ser feliz. Doce ilusão!
Eis-me, no recomeço. De novo, pronto para avançar. Mais um pouco... Não é tempo de descanso. Não há tempo de descanso. Descansar não é próprio do universo de minha vida. De nenhuma vida. De toda e qualquer vida.
O que se pode é enfeitar a existência. Dar-lhe colorido. Contar as alegrias, porque existem! Relacionar o bem que se recebe. Agradecer.
... E avançar!
A autora, Maria Antônia Pires de Carvalho Figueiredo, é escritora e colaboradora do Ju Machado Escritório de Arte.