24 de maio de 2026
Articulistas

Doenças econômicas


| Tempo de leitura: 3 min

Ter saúde é meta de todos nós, para que possamos ser felizes. Basta uma dor de garganta para que o bom humor fuja pela porta e para também ficarmos desesperados com a quantidade de saliva que temos! A situação econômica brasileira, por estar adoentada, nestes últimos anos experimentou uma enorme quantidade de medicamentos, uns até parecendo que iriam matar o paciente para eliminar a doença. Nossa economia parece cobertor curto: quando cobre a cabeça descobre o pé. Quando tem atividade econômica, portanto, empregos, vem junto o monstro da inflação. Quando não tem inflação, não tem dinheiro nem emprego. É uma gangorra sem graça. Este estado de coisas gera doenças comparadas àquelas clássicas devido à grande semelhança entre elas.

Vejam o caso do “bolso perfurado”, que como uma úlcera que rompe o estômago, deixa esvair todo o dinheiro, porque o gasto é sempre maior do que aquilo que ganhamos. Muitas vezes, precisamos de um empréstimo para aliviar os juros escorchantes do cheque especial, e aí vem a “arteriosclerose das linhas de crédito”, que nada mais é do que um entupimento das vias que poderiam nos arranjar algum numerário a taxas menores. A exemplo da hérnia, pode haver um “estrangulamento de filhos e de funcionários”, que, à guisa da Internet ou disque-erótico, fazem com que a conta telefônica fique mais cara que a própria linha. Os rins produzem cálculos e pedrinhas que doem uma enormidade quando se movimentam, mas o que é mais dolorido é o “cálculo malfeito”, ao se comprar uma mercadoria em “trocentas” prestações, que parecem financiamento do SFH, quando notamos que com o dinheiro gasto dava para comprar três aparelhos daquele. Era só dar uma economizadinha.

O “infarto da conta corrente” é a doença econômica que mais mata. O miocárdio do extrato explode, o juro derrama e somente com um pronto-atendimento se salva o paciente. A pressão arterial alta necessita de tratamento e de uma dieta especial, mas também existe a “pressão alta para gastar”, que dá também dor na nuca e formigamentos, quando somos “pressionados” a gastar em tênis de marca, cursos de inglês, informática, conserto de carro, natação e etc. Esta pressão, se não for bem tratada, pode desembocar num infarto, arteriosclerose e quase todas as enfermidades aqui descritas. Além disso, mensalmente pode aparecer, dependendo do caso, “o mênstro do aluguel” , que teima, todo mês, em causar aquele sangramento que não volta nunca mais em nossa carteira. Esta dismenorréia não é doença (porque não há nada mais fisiológico do que termos que morar em algum lugar), mas pode gerar a TPM, que é a Tensão Pré-Mensalidade (aluguel), que é um estado de nervos causado pelo fato de ter que jogar um dinheirinho sagrado numa vala perdida.

Outra lesão que pode causar sequelas irreversíveis é o AVC (que não é o acidente-vásculo-cerebral). É o “Acidente-Via-Consórcio”, uma epidemia que lesa a pessoa na maior cara-de-pau, sendo que o governo é o próprio agente mórbido, por ser ele o responsável pela vacinação em massa que sanearia estas verdadeiras arapucas avalizadas pelo Banco Central, para que esta epidemia não se alastre.

Estas doenças atacam e podem matar o ser humano como pessoa física: as armadilhas estão todas aí. Talvez você leitor, possa, com sua imaginação, definir quem é que hoje na sociedade faz o papel de duas das principais doenças de nossa época: o câncer e a aids. Acho que não precisa muita criatividade para descobrir quem são aqueles que se instalam como um câncer no organismo de um país, vivendo da desgraça de um povo, minando suas energias pouco a pouco e diminuindo sua capacidade de reação. Só que a aids dá para evitar e o câncer tem cura se descoberto no começo. Somos os responsáveis pela erradicação destes males do meio das nossas vidas. A democracia nos permite isto.

O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e escritor.