08 de julho de 2026
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Otimismo e queda de juros


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O otimismo voltou com força total nas análises de economistas, governo e empresários. De fato, alguns indicadores divulgados nas duas últimas semanas dão margem para previsões mais favoráveis. A Associação de Comércio Exterior atualizou sua previsão de saldo comercial para US$ 31 bilhões em 2004, com exportações chegando a US$ 90,7 bilhões, um crescimento de 24% em relação ao ano passado. Além disso, os produtos manufaturados, neste primeiro semestre, recuperaram participação relativa na pauta de exportações, diferentemente do que ocorreu nos últimos três anos. Este desempenho recorde do comércio exterior é o principal responsável pela alta da produção industrial brasileira, que cresceu 6,9% nos primeiros cinco meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado.

Mas alguns indicadores revelam uma retomada também nos segmentos ligados ao mercado interno, conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que mostra um crescimento de 10% nas vendas no varejo em maio, em relação ao mesmo mês de 2003. Maio foi o sexto mês seguido de crescimento, acumulando alta de 8,48% no ano.

Essa incipiente reação do mercado interno aparece também nos dados do emprego formal divulgados na semana passada, pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. Foram gerados, no primeiro semestre do ano, 1,03 milhão de postos de trabalho, o melhor resultado para o período em toda a série histórica da pesquisa, realizada desde 1992.

O otimismo é fundamental, pois as ações que dele decorrem ajudam a construir um futuro melhor - é a chamada profecia auto-realizada. Mas ele não nos deve cegar. Problemas brasileiros fundamentais permanecem e suas soluções demandam tempo e atenção. Se o mercado de trabalho formal continuar gerando empregos no mesmo ritmo, no segundo semestre de 2004, o número de novos postos deve chegar ao que é considerado suficiente para absorver os jovens que ingressam no mercado de trabalho a cada ano (cerca de 1,8 milhão).

Mas para que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), signifique a geração continuada de empregos, ele tem que ter sustentação ao longo dos anos, como o próprio governo vem lembrando. Esta certamente não é uma questão trivial, pois nos últimos cinco anos, o crescimento anual do PIB brasileiro foi de 1,6%, contra 8% da China, 5,7% da Índia, 6,7% da Coréia do Sul e 2,4% do México. A sustentação da atual retomada da economia requer o aumento de investimentos públicos e privados na infra-estrutura e na produção, sob pena do País continuar alternando períodos curtos de crescimento e de estagnação. O problema é que a atual taxa de juros reais, de 10% ao ano, ao inibir uma elevação da taxa de investimentos, praticamente afasta a possibilidade de um crescimento significativo e sustentado da economia nos próximos anos.

O autor, José Álvaro de Lima Cardoso, é economista e supervisor técnico do Dieese/SC.