11 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Pilintra, o cavalo pescador


| Tempo de leitura: 4 min

“Esta é uma das histórias que não aconteceu comigo, porém acredito piamente na mesma, uma vez que me fora contada por Dona Benedita.

Dona Benedita, hoje é uma senhora setentona sacodida dentro de seus quase noventa quilos. Descendente de índios, negros e portugueses, nascida e criada durante muito tempo no interior de São Paulo, lá pras bandas de Itaquaquecetuba. Casada com o seu João Coutinho, caminhoneiro famoso da região, teve vários filhos e dentre eles uma especial, de nome Paula, que é a mãe dos meus filhos. Aconteceu no Sítio do Pinheirinho , de propriedade do João Coutinho, em Itaquá.

O sítio era famoso nas rodas de conversa fiada dos finais de tarde, não por sua grandeza, produção de leite ou qualquer beleza natural, mais principalmente pelo seu pequeno lago, ou melhor pelo grande peixe que vivia há muitos anos em suas águas e que jamais fora fisgado ou visto de corpo inteiro, porém muitos afirmavam que em finais de tardes de verão já tinham visto parte de sua calda batendo no espelho da água, que respingava até fora do lago.

Seu João nunca permitiu a pesca naquele lago, mais em algumas conversas em sua venda confessou para seus compadres mais próximos que já tinha visto o bicho na flor das águas em muitas ocasiões de noites de lua cheia.

Foi no verão, num mês de janeiro, bastante chuvoso, em que a água do lago trasbordou vindo a dar próximo a soleira da casinha onde ficava o tanque de lavar roupa da dona Benedita. O quarador (gramado onde a roupa ensaboada era estendida para quarar ) ficou submerso em mais ou menos um palmo de água e por sobre a lamina desta água estava brotando os tufos verdes da grama.

Pilintra, o cavalo do sítio, que não se sabe dizer ao certo se era um cavalo ou um daqueles superburros da região (mistura de éguas de grande porte com jumentos espanhóis) encontrara o lugar ideal para pastar. Com as patas refrescadas dentro da água saboreava os verdes brotos da grama que ali crescia.

Naquele dia dona Benedita estava no tanque batendo roupa com as costas viradas para o lago quando foi surpreendida por um estardalhaço na água e ao virar rapidamente a cabeça para verificar o motivo do barulho notou de relance um grande vulto, como um pedaço de tronco, atirado em sua direção. Com muito reflexo e agilidade ( na época ela não pesava os noventinhas de hoje) ela desviou a cabeça daquela tora que bateu na parede do rancho e caiu dentro do tanque.

Surpresa mesmo ficou quando a tora de imediato começou a debater-se jogando a água do tanque para todo lado. Ela gritou pelo seu João, que já veio de foice em punho ( ele tem esta foice até hoje embaixo de sua cama) e tascou a mesma dentro do tanque e aí foi só sangue e água de sabão. Não acreditando no que estava presenciando seu João pediu para a Dita confirmar o que ele estava vendo e ela confirmou. Era uma traíra-guaçu de aproximadamente uns 8 quilos, o bicho devia de ter mais de 10 anos. Pilintra não parava de correr e pular sem parar quando seu João conseguiu segurá-lo e naquele momento notou que muito sangue escorria do focinho do cavalo. Dona Dita limpou o beiço do Pilintra com o avental e ficou bastante claro que os cinco grande cortes profundos que expunham até os dentes do velho cavalo tinha sido feito pelos afiados dentes de sabre do trairão.

Embasbacado com o ocorrido, seu João procurou explicação junto ao Zé Gaiola, um renomado pescador do Tietê, que com ar de profundo conhecedor da matéria falou o que provavelmente havia acontecido.

Disse o Zé que a traíra é um peixe ovíparo que desova por época das cheias e em lugares rasos do lago. Após desovar a traíra fica protegendo os ovos do ataque dos lambaris ou de qualquer outro predador. Pois bem, o Pilintra meteu o bocão no ninho da bruta que não teve dúvidas e cravou os dentes afiados em seu beiço. Num ato de puro reflexo e de defesa o cavalo sacudiu a cabeça e arremessou a traíra para fora do lago. Todos em Itaquá aceitaram a explicação do Zé Gaiola e a partir deste fato o Pilintra passou a ser o único cavalo pescador .

Seu João Coutinho enjeitou muitos contos de réis pelo cavalo que morreu aos 17 anos de idade. Em sua sepultura lá no sítio do Pinheirinho, hoje recortado pela Rodovia dos Trabalhadores, tem uma cruz com os dizeres ‘aqui está enterrado uma lenda, Pilintra, único cavalo pescador do mundo, nascido e morto em Itaquá’.”

Marcos Antonio Falcon é pescador e contador de histórias.