10 de julho de 2026
Articulistas

Nas asas do pequeno príncipe


| Tempo de leitura: 3 min

Foi a segunda vez que dona Lourdes ligou para me cumprimentar, agora pela crônica publicada na segunda-feira. Fico envaidecido, mesmo porque as manifestações são raríssimas, na mesma proporção das leituras que os meus textos despertam. Essa bondosa senhora, que não conheço pessoalmente, informa ter 75 anos e ainda ser leitora de Saint-Exupéry, embora nunca tenha se candidato a concurso de “miss”. Referia-se ao fato de eu ter ironizado, “en passant”, o hábito das misses dos anos 60 declararem-se leitoras de “O Pequeno Príncipe”. Por coincidência alguém também citou o mesmo autor na Tribuna do Leitor - conforme observou no diálogo -, mais uma prova da atualidade da obra.

Concordo. Ler Saint-Exupéry continua nos dando satisfação e motivos para reflexões. É um livro para criança, mas também de adulto, pois todo o homem traz dentro de si o menino que foi. Milhões de pessoas dos cinco continentes continuam lendo-o em 80 línguas diferentes. Outra coincidência: depois de falar com dona Lourdes recebi da Editora Agir a edição de O Pequeno Príncipe comemorativa dos 50 anos da primeira impressão desse livro mágico no Brasil (...)

Dona Lourdes tem muito a ver com o principezinho. Transformou a praça defronte a casa em que mora, no Jardim Marambá, no asteróide B 612. Cuida daquela rotatória da Duque de Caxias, como se fosse o seu próprio jardim. Embora viva em Bauru há apenas quatro anos, quer ser boa cidadã e, munícipe consciente precisa colaborar para tornar a cidade “cada vez mais bonita”. Não sei se ela plantou rosas, como o pequeno príncipe. Contou ter trazido de sua Jaú-natal uma muda de pau-brasil, a árvore que abundava na Mata Atlântica.

O pau-brasil é o baobá de dona Lourdes. Pena que as vacas, neste período seco de estiagem, teimem em fugir dos seus currais para pastar naquele asteróide-jardim. Conta a senhora que faz tudo para espantar o gado, ora brandindo a bengala, ora fazendo da mangueira uma arma para atirar água no focinho das ruminantes personagens.

Quem sabe alguma alma bondosa (seria uma raposa?) da Secretaria do Meio Ambiente concorde em providenciar uma proteção para a árvore que só quer crescer e servir de modelo às crianças. “Meninos e meninas! Sou um legítimo exemplar de milhões de outras árvores que existiam no Brasil há 500 anos e que foram vitimadas pela ganância dos homens.”

O pequeno príncipe também sofreu a invasão de um carneiro no seu jardim. Há milhões de anos, os carneiros comem rosas e, há milhões de anos, as flores fabricam espinhos inúteis. Diante da ameaça à sua rosa pede ao narrador para desenhar uma mordaça para impedir a ação do predador. Só no último capítulo o narrador se lembra de ter esquecido de desenhar também uma correia de couro para garantir que o carneiro não faça estrago mesmo livre da mordaça. O planeta é muito pequeno. A grande vantagem é que o seu habitante pode ver o pôr-do-sol quantas vezes quiser. Basta recuar um pouco a cadeira e estará em outro hemisfério, onde o espetáculo de luzes e cores se repete. Nós introduzimos vacas e carneiros levianamente no planeta dos outros e sempre nos esquecemos de como torná-los inofensivos de maneira a não causar estragos a terceiros.

Piloto de guerra, Saint-Exupéry escreveu o livro depois de profundas reflexões durante os cinco dias que ficou perdido quando seu avião caiu no deserto. Sobreviveu para desaparecer em outro vôo, em 31 de julho de 1944. Partiu para a oitava missão sobre a França e não mais retornou. Recentemente, o aparelho foi localizado no fundo do Canal da Mancha, onde ainda permanece.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC.