08 de julho de 2026
Articulistas

Auto-estima


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O jornalista Luís Nassif, ao comentar a campanha da Associação Brasileira de Anunciantes sobre auto-estima, lembrou que um dos principais fatores para a determinação de nações em desenvolvimento é a solidariedade nacional. De fato, baixa auto-estima tende mais a precisar do que a prestar solidariedade. A propaganda aborda a proposta seguindo um viés bem objetivo: mostrar a determinação, superação e sucesso de brasileiros, quase todos de origem humilde, mostrando que é possível alcançar nossos sonhos e, portanto, devemos acreditar neles, ter orgulho de nossas origens e mudar o que não está bom.

Afora os desvios pontuais do ufanismo exagerado, esse tipo de campanha pode surtir efeitos positivos, se acompanhada de fatos que levem os brasileiros, não apenas a pensarem e buscarem o melhor, mas a sentirem fisicamente os efeitos benéficos dessa atitude. Iludir e induzir ao erro já provocou a queda de governos e impérios, reduzindo nações à miséria, mas a auto-estima as reconduziu ao caminho do sucesso, pela depuração de ideais e aprendizado. A presença do símbolo, herói ou mártir, pode ter servido para motivar, mas ninguém mantém sua motivação apenas com estímulos externos.

O Brasil, especificamente, herdou uma tradição de adotar como símbolos nativos personagens mal-sucedidos, atribuindo-lhes feitos e inspirações românticos e estóicos. Símbolo, de certa forma, é isso mesmo. A Inconfidência Mineira, por exemplo, foi um episódio isolado, frustrado e sem maior repercussão no vice-reino. Do pequeno grupo que participou da conjuração, apenas Tiradentes foi punido mais severamente. Mais tarde, ideólogos republicanos do império elevaram-no à condição mítica - quase messiânica - de Mártir da Independência.

Mas seu movimento foi, basicamente, mineiro - como a Revolução Constitucionalista foi paulista, embora com pretensões nacionais; como a Revolução Farroupilha foi sulista; como a Guerra de Canudos foi baiana, e assim por diante.

Em compensação, José Bonifácio e o Barão de Mauá - que deixou os poderosos ingleses vitorianos de cabelos em pé -, bem-sucedidos e, até provem em contrário, comprometidos com os interesses nacionais, não desfrutam dos mesmos status e reconhecimento nacionais. Será porque, em vez de mártires, eles souberam assimilar revezes e superar dificuldades contra inimigos poderosos, enfrentando-os diretamente e permanecendo vivos? É... Mártir não morre de velhice... Mesmo assim, eles - e muitos outros - também mereceriam uma data nacional que exaltasse a auto-estima dos brasileiros - individual ou coletivamente - por lutarem, sobreviverem, vencerem e assegurarem um futuro melhor para seus patrícios.

O que precisamos é de metas compensadoras para atingir, de sonhos realizáveis por nossos próprios méritos e de um país que valha, não a pena, mas a benção de se viver nele! Não devemos chorar, nem pelo leite, nem pelo sangue derramados. É preciso, sim, exaltar o suor dos que trabalham, a aplicação dos que se esmeram e a persistência dos que não se entregam; e dar-lhes oportunidades e recompensas, sem obstáculos artificiais e injustos!

A esperança e a felicidade de um povo não devem vir, apenas, do orgulho que sentem pelo sucesso que poucos conseguiram, sozinhos, ao contrariar o que destino lhe reservava: pobreza, mediocridade ou marginalidade. Quer motivar? Então, que o seja por infra-estrutura física, educação, saúde, segurança e trabalho de boa qualidade, resultados de governantes, legisladores e juízes laboriosos, honestos, competentes e comprometidos com o país e seu povo. O resto: deixa com a gente, que dedicação e solidariedade não vão faltar!

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro, professor universitário e articulista.