Apesar das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, o número de cirurgias cesarianas realizadas em Bauru chega a ser 18 vezes maior do que o de partos normais, em hospitais que atendem a rede particular e convênios médicos. A situação é comum em todo o País e as principais razões apontadas tanto por médicos quanto por mulheres que optam pela cirurgia são a questão cultural, a comodidade e o medo da dor do parto.
De acordo com dados OMS, o Brasil é campeão no número de cesáreas, com um índice de aproximadamente 32% de todos os partos realizados no País. O órgão recomenda que esta taxa não ultrapasse os 17% e ainda indica que os médicos devam incentivar a escolha pelo parto normal, nos casos em que não há necessidade da cirurgia. Em Bauru, cerca de 44% das gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) dão à luz através da cirurgia. Ou seja, são dois partos normais para uma cesariana.
Na Maternidade Santa Izabel, que atende pacientes pelo SUS, a diferença entre partos normais e cesáreas entre os pacientes da rede privada chega a 1 para cada 17. Até junho deste ano, de acordo com a administração do hospital, haviam sido realizados 18 partos normais e 312 cirurgias. No Hospital Prontocor, a diferença na média de partos também é alta. São cerca de 22 cesárias e três partos normais por mês.
No Hospital Unimed, até o mês de junho deste ano, foram 496 cesarianas e 27 partos naturais. No ano passado, o total também impressiona: 940 cirurgias e 57 partos normais. O assessor de especialidades para ginecologia e obstetrícia da Unimed, o obstetra Alberto Braud Sanches, indica que a escolha sobre o tipo de parto deve partir da paciente em acordo com seu médico.
“A mãe deve fazer sua opção, se há condições de ter o parto normal, e o médico apresenta os riscos para ela e para a criança em cada procedimento. É importante que ambos cheguem a um consenso sobre o que é mais conveniente”, diz.
Na opinião de Sanches, os principais motivos para o grande número de cirurgias cesarianas na rede particular de saúde são a comodidade e o medo da dor. “Em muitos casos, a cesárea é mais conveniente tanto para o médico quanto para a paciente, pois a cirurgia já pode ficar agendada”, afirma. O obstetra completa que a questão cultural sobre a dor no parto ainda é muito forte, e o medo da gestante é ampliado pela ansiedade da gravidez.
Vera Therezinha Medeiros Borges, docente da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp), também considera o grande número de cesáreas realizadas no Brasil um problema cultural dos médicos e das pacientes.
“O parto normal paga menos para o médico. Pela própria estrutura dos hospitais, a cesárea acaba sendo mais fácil, já é marcada com antecedência. Em países de primeiro mundo, a incidência de partos normais é mais de 80%”, ressalta.
Exatamente por medo da dor, a secretária Renata Solange do Carmo optou desde o começo da gravidez pela cesariana. “Minha mãe conta que sofreu muito no meu parto e eu não queria passar por isso de jeito nenhum”, declara. Ela diz não se arrepender da decisão, após dar à luz seu filho Luccas, de 7 meses.
“Eu achei que sofreria com a cicatriz da cirurgia, mas foi bem rápido para cicatrizar. Tive de ficar em repouso e sem fazer esforço por várias semanas, mas estou feliz porque correu tudo bem”, argumenta Renata.
Sanches reitera que é papel do profissional da saúde orientar a mãe durante o pré-natal para não haja dúvidas e para que a melhor opção seja escolhida. “A paciente tem medo de que a dor seja muito intensa. Ela já vem ansiosa e acaba exacerbando esse medo no trabalho de parto”, aponta.
Decisão natural
Do outro lado da polêmica, a jornalista Joelma Marino Rosa estava decidida, desde o planejamento da gravidez, a ter parto normal. “Minha mãe sempre defendeu o parto normal e falava com muito carinho sobre o momento em que estourou a bolsa e como se sentiu bem depois.” Ela relata que procurou se informar sobre os tipos de parto e confirmou sua preferência pelo método natural.
“A recuperação no parto normal é muito mais rápida, a amamentação vem com mais facilidade. Meu médico, na época, só me incentivou a ter o parto normal”, comenta a mãe de Jaqueline, 7 meses.
A ginecologista e obstetra Simone Ramos Paulo esclarece que a paciente pode esperar pelo parto normal até o período entre a 40ª e a 42ª semana de gestação. “Eu não deixo chegar até a 42ª semana, porque começo a me preocupar com o bebê. A situação também cria uma ansiedade muito grande na mãe, até por conta das alterações hormonais do organismo, e ela acaba optando pela cesárea”, diz.
Na opinião de Simone, a cesariana é uma cirurgia de risco controlado, justamente pela freqüência com que é realizada pelos médicos. “Lógico que pode haver intercorrências, assim como no parto normal. Mas o risco é muito bem controlado atualmente”, completa.
A astróloga Josilene Sousa também desejava ter seu filho Enzo, 3 meses, por parto normal, mas algumas complicações tornaram a cirurgia necessária. “Em nenhum momento meu médico incentivou que eu escolhesse a cesárea, e disse que eu poderia ter o Enzo por parto natural, mesmo 15 anos depois de ter tido a Pérola por cesárea”, comenta.
Na opinião de Josilene, a escolha pela cirurgia no parto é equivocada e deve ser feita apenas quando não há outra opção. Ela comenta que muitos médicos, corretamente, preferem chegar o mais perto possível do nascimento do bebê para fazer a opção do parto. “Escolher a cesárea é uma burrice, a cirurgia não é cômoda porque você fica meses em recuperação. Ela é fácil na hora do parto, mas é terrível depois”, garante.