08 de julho de 2026
Geral

Ética é ameaçada pela globalização

Diego Molina
| Tempo de leitura: 9 min

No atual mundo globalizado cultural, política e - principalmente - economicamente, a ética nas relações humanas está ameaçada pela manipulação das informações e pelas futilidades que seduzem os homens. Essa é a opinião do professor, escritor e padre francês Patrick de Laubier, que participou na última semana do Seminário Globalização e Ética, na Universidade do Sagrado Coração (USC).

Para Laubier, a enorme quantidade de informações à qual as pessoas estão expostas, especialmente por conta da velocidade na transmissão de dados pela TV e pela Internet, e o grande desenvolvimento tecnológico da sociedade são fatores que causam a inversão ou deturpação dos valores éticos e a conseqüente desumanização dos homens.

“A escala de valores deveria trazer a religião e a cultura dos povos em primeiro lugar, acima das questões econômicas e políticas, mas não é isso que ocorre. Nesse processo, a desumanização das pessoas é o primeiro e o pior resultado”, diz Laubier, que foi ordenado padre aos 66 anos. Além de advogado, ele é doutorado em ciências políticas e foi pesquisador do Departamento de Economia da Universidade de Harvard (EUA). Atualmente, Laubier é professor honorário de sociologia na Universidade de Genebra (Suíça).

Jornal da Cidade - Os seminários que o senhor apresentou em Bauru tratam de globalização e ética. Como o senhor vê a ética atualmente?

Patrick de Laubier - A ética se apresenta de uma maneira moderadamente encenada. Existe uma ética fictícia, que não é a maneira mais clássica a qual estamos acostumados. Somos tentados a utilizar a ética e de fazê-la um instrumento, e não de se colocar sob a luz das exigências éticas. É um fenômeno da ideologia, ou seja, tentamos teorizar um projeto, um desejo, uma paixão, mais do que procurar uma verdade tal como ela é. Estamos num mundo onde a manipulação tem instrumentos prodigiosos, através da comunicação e da mídia. A ética está ameaçada de ser instrumentalizada, mas ela é indissociável da verdade. A verdade não é alguma coisa que se inventa, é algo que existe. Com a ideologia e a manipulação, a realidade é manipulada para finalidades de desejos e paixões pessoais.

Há 25 anos, o maior debate era sobre o imperialismo. Na época das grandes ideologias - especialmente do comunismo e depois o liberalismo - era normal haver uma acusação mútua entre elas. Hoje a situação mudou, especialmente com a queda do comunismo na Rússia, e o encontro de dois mundos, duas ideologias depois da Guerra Fria e da Revolução Russa, caracterizou a vida política do planeta. Agora, nos encontramos num mundo onde as fronteiras ideológicas são menos visíveis e vemos uma comunicação cada vez maior entre os homens e os países. Temos, sobretudo, a aparição de uma opinião pública mundial. Mas acontece que se a economia encontrou um campo global de ação, não temos o equivalente no campo político.

JC - Por que o senhor diz que não há essa equivalência na política?

Laubier - Na política, acabou ocorrendo o monopólio das nações. Se aplicássemos a ética na economia, esse processo deveria passar pela política. Existe uma escala de valores que poderíamos simplificar da seguinte maneira: primeiro as idéias religiosas, a crença, a cultura, a política, a economia e por último a tecnologia. Esta hierarquia nem sempre é respeitada e freqüentemente é a técnica que vem em primeiro lugar, seguida da economia, da política e, por último, a religião. Esta inversão da ordem de valores provoca um efeito de desumanização, que é contrária à ética. Quando existe a desnaturalização, a verdade já não é mais respeitada.

JC - Atualmente ficamos sabendo de tudo o que ocorre ao redor do mundo instantaneamente ou em questão de minutos. Para isso, a informação acaba se tornando mais importante do que a ética?

Laubier - Nós estamos sofrendo um dilúvio de informações e imagens, e se os editores - aqueles que recebem essa torrente de informações e repassam - não estiverem equipados e preparados para estabelecer essa hierarquia de valores ao passar as informações para a população, serão levados a um verdadeiro estado de confusão que será muito negativo na sua vida pessoal. A pessoa deve corresponder a um certo número de exigências éticas que fazem parte do seu florescimento e da sua felicidade. Nós devemos seguir nossa consciência, mesmo que ela esteja errada, e é mais importante formar e preparar nossa consciência para que ela possa responder de maneira humana a essas informações que chegam. Não inventamos o mundo, então, temos de compreendê-lo e participar de sua formação, evitando a ficção e sendo realistas. Para o cristão, a realidade repousa sob uma revelação que nos diz que o mundo foi criado por Deus, que é bom, e que o ser humano foi criado à imagem de Deus, o que é melhor ainda.

JC - E qual é a posição da Igreja Católica em relação ao mundo globalizado?

Laubier - O primeiro teórico da Igreja sobre a globalização foi são Paulo. Isso começa já há muitos séculos, pois São Paulo e Barnabé passeavam pelo Império Romano e já invocavam, pelos textos que vemos de São Paulo na Bíblia, o anúncio do Evangelho em toda a Terra. Não era um projeto como o hinduísmo na Índia. O hinduísmo é fixado em uma região e em uma cultura única, não se espalhou pelo mundo. Já o cristianismo envolve toda a família humana com sua mensagem. O anúncio dessa mensagem é ao mesmo tempo facilitado e ameaçado pelos meios de comunicação. É ameaçado pelos parasitas, os vírus teológicos e filosóficos que são abundantes.

JC - A Igreja teve de se moldar para a globalização, mesmo que suas raízes já tenham proposto a disseminação do cristianismo por toda a Terra?

Laubier - Eu gostaria de destacar uma coisa. A Igreja, especialmente o Vaticano, utilizou de maneira sistemática as capacidades e invenções dos meios de informação. Agora, por exemplo, com a Internet, você pode fazer teologia à distância. Você tem informações de todos os tipos, atualizadas diariamente, e que mostram como a Internet é uma coisa única e especial. Parece que nós estamos como a Igreja dos primeiros tempos, onde todos se reuniam, pois os meios de comunicação nos reúnem, estamos sociologicamente e tecnologicamente religados. Religar é uma etimologia da palavra religião, porque a religião religa, reúne. A tecnologia, em sua forma, também reúne e religa os homens. Mas esperamos que, nesse religamento, a tecnologia seja usada sob a verdade, porque as mentiras e ideologias também unem as pessoas. Então, existem dois tipos de reunião, aquela baseada na verdade e outra na impostura e a mentira.

JC - Na sua opinião, a globalização tem efeitos negativos ou positivos na cultura de cada país e de cada povo?

Laubier - Os dois, assim como a tecnologia. Nós acabamos de visitar o Centro de Fisioterapia da USC e vemos as maravilhas que são realizadas pela tecnologia. Mas ela também permite a construção das bombas, que fazem com que pessoas se machuquem e precisem da fisioterapia. Existe um duplo senso desse progresso, que pode ser feito como instrumento de humanização ou de desumanização. Nada nos diz que, no plano moral, a evolução seja um progresso, mas no plano técnico, sim. Os carros de 1900 são menos perfeitos do que os fabricados hoje, mas no plano ético, podemos regredir. Civilizações menos desenvolvidas tecnicamente podem ter uma qualidade de vida superior. Por exemplo, nos países mais desenvolvidos o índice de suicídio é mais alto. Há muito menos suicídio na Índia do que em Genebra, na Suíça. Existe mais humanidade na Índia do que na Suíça. A humanidade pode ser muito maior onde não há crescimento da tecnologia. No plano religioso, vemos a secularização dos que não acompanham o enriquecimento e a tecnologia.

JC- Então, a humanidade de um povo está ligada à falta de tecnologia e à pobreza?

Laubier - Existe uma possibilidade de existir mais humanidade nos países pobres do que nos mais ricos. Mas isso não é uma coisa automática. Podemos ter também a desumanização através da pobreza e da miséria. Não existe uma correlação entre o desenvolvimento humanitário e o desenvolvimento econômico. A razão disso é a liberdade. Em países ricos, as pessoas demandam sua liberdade e você tem tempo livre, tem liberdade de escolha e tem opções. Com isso, você é mais ameaçado pelas futilidades. Vejo em Genebra regularmente os jornais que trazem como manchetes notícias sobre cachorros. Recentemente, a grande notícia do dia era que já estavam sendo vendidos óculos para cães. Isso corresponde a uma situação bastante real porque as pessoas quase não têm filhos e têm muitos cachorros, então uma notícia dessas tem muita importância na vida das pessoas. Os jornalistas sabem que se não falarem jamais de cães, as pessoas vão procurar outro jornal que fale. A mídia traz aquilo que a população deseja, mas isso não é o progresso, voltar o olhar da sociedade para os cães, ao invés dela própria. É muito mais difícil aos que têm muitas posses abandoná-las para ajudar os outros. No Brasil, quando a pobreza diminui, as pessoas são chamadas por um grande número de distrações, a atenção se volta para futilidades que se instalam na sociedade. Já dentro de uma pobreza grande, existe uma escala de valores que ainda pode ser protegida. Lógico que ninguém deve aceitar uma miséria imposta, mas a pobreza não é um mal absoluto. A miséria desumaniza, mas o Evangelho diz que bem-aventurado é o pobre. É preciso pensar nessa perspectiva.

Em países com desenvolvimento médio, como o Brasil, se houver uma melhor distribuição de renda, a liberdade será mais provada pela população. Quando isso ocorre, o egoísmo pode se converter em generosidade. O resultado desse discurso é que devemos combater a miséria mas não fazer da riqueza um ideal, porque o resultado da riqueza é a desumanização.

JC - Atualmente, as pessoas que têm acesso a informação, que foram afetadas pela globalização e que vivem em uma sociedade tecnológica, são mais voltadas para seu egoísmo e para as futilidades ou para sua humanização e para o próximo?

Laubier - Não posso dizer isso de maneira genérica, pois cada pessoa é um universo. Mas tudo depende da escolha de cada um. Se eu permito que a riqueza chegue a mim, não é para eu me perder. Estamos numa situação que não é mais a do Jardim do Éden, e se este mal foi permitido, é para tornar possível um bem superior. É preciso evitar a oposição sistemática de ricos e pobres, liberdade e miséria. Cada homem é um universo, que é chamado a responder misteriosamente a solicitação e necessidades da graça. Não podemos esquecer que somos humanos e que nosso destino espiritual se decide num plano mais complexo do que nosso corpo. É notável que em toda a bibliografia sobre a globalização, só há interesse sobre a economia e as finanças. É uma materialização da problemática, que é uma ideologia. Os cristãos devem ter uma outra concepção da globalização. É preciso lutar contra a miséria, mas sem idolatrar o dinheiro e a tecnologia. Precisamos sempre levar em consideração a hierarquia dos valores.