08 de julho de 2026
Bairros

Saúde exige planejamento e prioridade

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

Fazer um levantamento das necessidades, planejar as formas de execução das ações e priorizar a realização das propostas. Esta é a receita ideal para se gerir saúde pública, na opinião do médico Luiz Fernando Ribeiro, especialista em administração hospitalar. Ex-secretário municipal de Saúde de Bauru, ele compara a saúde a um doente: é preciso diagnosticar a doença, administrar a terapêutica e prevenir recaídas.

Em entrevista ao JC nos Bairros, ele comenta a crise atual da saúde pública de Bauru. Recusa-se a dar conselhos, mas opina sobre possíveis caminhos a se seguir. Confira trechos da conversa.

JC nos Bairros: O que o senhor acha que está acontecendo com a saúde pública municipal?

Luiz Fernando Ribeiro - Saúde você não fez sem um planejamento inicial. Antes de desenvolver qualquer projeto, você primeiro tem que fazer um levantamento. Saber a população local, a demanda, quais as alternativas de atendimento daquela população, vias de acesso a outras unidades e muitos outros dados. Até 1996, quando eu fui secretário, tínhamos isso como meta (...)

Daí para a frente, o que parece ter ocorrido - estou falando à distância - é que esse planejamento foi abandonado. Se você abandona o planejamento, você tem, evidentemente, uma deterioração dos serviços de saúde. E isso é irreversível.

Eu diria que é como você não se cuidar. Se você tem uma dor pequena hoje e não dá muita atenção, amanhã a dor aumenta. No terceiro dia, ela está mais forte e você não se cuida. Aquilo pode se transformar em algo crônico. E aí o tratamento é sempre mais difícil e complicado. Eu tenho a nítida impressão de que não há mais um planejamento efetivo das necessidades do município.

JC - Um dos projetos realizados em sua gestão foi a descentralização do pronto-socorro. Qual era o objetivo inicial desta proposta?

Ribeiro - É bom esclarecer que só quem pode julgar se uma doença é urgência ou não é o médico. Uma febre para o leigo é uma urgência. Ele quer saber rapidamente qual é a causa dessa febre. Numa unidade descentralizada, você tem recursos para dar um pronto-atendimento, medicá-lo e explicar para o paciente que o caso dele pode ser acompanhado pelo núcleo de saúde, ali ao lado.

Era esse o sentido do que nós chamávamos Unidades Integradas de Atendimento Ambulatorial e de Urgência. Construímos áreas para atendimento de urgência e emergência, mas mantendo uma área para atendimento ambulatorial.

Esses prontos-socorros descentralizados seriam de média referência. Situações que exigissem atendimento de alta complexidade seriam encaminhadas ao Pronto-Socorro Central (PSC). Desta forma, você reduziria a demanda do PSC.

(...) Hoje, por exemplo, você tem um PSC superlotado. E num pronto-socorro superlotado, é evidente que você vai ter problemas de resolutividade. E o profissional pode ter de responder, mais tarde, por um processo de imperícia, imprudência ou negligência. Não porque ele cometeu irregularidades, mas porque era uma situação em que ele tinha de atender um monte de gente ao mesmo tempo.

JC - Então, já naquela época, a proposta era mesmo que essas unidades encaminhassem os casos mais graves para o PSC?

Ribeiro - Sim, porque nós não podíamos manter investimentos super elevados, como exige uma unidade de referência, em todas as unidades. Então, foram disponibilizados equipamentos para que essas unidades dessem uma solução. Diante de um trauma (fratura), a unidade era capaz de dar um primeiro atendimento, colocar o paciente na ambulância e encaminhar para uma cirurgia de urgência, por exemplo.

E se você me perguntar por que foram escolhidos esses bairros (Núcleo Mary Dota, Jardim Bela Vista e Vila Ipiranga), é em função desse conceito de planejamento. Identificamos serem unidades que atendem regiões de grande demanda.

JC - O senhor acha que a rede municipal de saúde de Bauru encolheu nos últimos anos?

Ribeiro - Se houve aumento de população e não houve aumento proporcional de recursos humanos e de recursos físicos, seguramente está encolhendo. Isso é transparente.

JC - O senhor tem acompanhado essa nova crise na saúde pública municipal?

Ribeiro - Detalhadamente não. Mas estamos enfrentando um surto de leishmaniose. Você tem que direcionar recursos diretamente para combater isso aí. É bastante preocupante você ver óbitos por leishmaniose em Bauru. Estamos voltando aos tempos da construção da ferrovia, quando os trabalhadores estavam desbravando as matas e tiveram contato com a doença?

Temos que ter um programa que ataque frontalmente o problema (...) Torna-se preocupante termos hoje o ressurgimento de uma doença do século passado.

JC - A morte de um estudante em 2000 desencadeou uma grave crise no setor. Na época, foi feito um levantamento de inúmeros problemas, mas muitos continuam sem solução. O que o senhor acha que está acontecendo?

Ribeiro - Tudo na saúde requer um diagnóstico. Qual é o problema da saúde? Se já existe o diagnóstico (o relatório), por que não se aplica a terapêutica? Não sei. O que não pode é se fazer o diagnóstico, saber-se qual é a terapêutica e não aplicá-la. Isso vai deixar o doente - no caso a saúde pública - cada vez mais enfermo. Se isso ocorre, é lamentável, porque saúde é algo com o que não se admite brincar. Se o problema é a falta de recursos, o município deve recorrer a outras esferas.

JC - Isso foi feito, mas o que se conseguiu foi a reforma das estruturas.

Ribeiro - Mas investiu-se em recursos humanos?

JC - Tentou-se, mas poucos se interessaram pelos concursos.

Ribeiro - Nós temos no Brasil um médico para cada 640 habitantes, quando o ideal, segundo a Organização Mundial de Saúde, seria um para cada 1.000 pessoas. Ora, se sobram profissionais, onde eles se concentram? Onde eles têm um retorno que lhes garanta a sobrevivência. Se há concursos e não aparecem candidatos ou os aprovados não querem assumir vagas, temos que fazer um diagnóstico e instalar a terapêutica.

Eu não concordo com o discurso de que saúde no Brasil não tem solução. Pelo contrário, eu acho que tem sim. Só que você tem que aplicar a terapêutica (solução dos problemas) e dar continuidade ao tratamento.

Saúde não permite que vaidades pessoais estejam acima das necessidades da população. Saúde não é só o médico, os enfermeiros, dentistas e nutricionistas. Saúde envolve todo mundo, envolve a área de saneamento básico, a vigilância sanitária. Então, a solução é complexa, mas não se trata de uma equação que só Einstein (gênio da ciência) seria capaz de resolver. É uma equação com muitas variáveis, mas existe uma solução.

JC - E qual seria o caminho inicial?

Ribeiro - Viver a realidade. Você tem toda a liberdade de dizer que isso é possível, isso não. Para isso tem dinheiro, para aquilo não. Você tem que definir prioridades, como em tudo na vida da gente. Você planeja comprar um sapato neste mês, uma camisa no outro, viajar no terceiro mês. Eu volto ao ponto inicial: planejamento, definição de prioridades, levantamento epidemiológico, condições de acesso, recursos humanos e físicos. Tendo tudo isso bem definido, fica mais fácil sanar os problemas.