No meio de todas as discussões acerca dos problemas da rede pública municipal de saúde, a população que depende exclusivamente desses serviços para se tratar é a mais prejudicada. São usuários que passam a madrugada na fila para conseguir uma vaga, que dispõem de poucos minutos na sala do médico, que saem quase sempre sem entender direito que doença têm, que correm de um lado para outro para resolver seus problemas.
Durante a última semana, a reportagem passou algum tempo na porta de algumas unidades de saúde do município e flagrou dezenas de pacientes voltando para casa sem atendimento, seja por falta de médicos ou por falta de horários para o atendimento.
Questionados, alguns elogiam os serviços, mas a imensa maioria tem muito a reclamar. Como a jovem Tatiana Teixeira da Silva, 18 anos, que procurou o posto de saúde para fazer um exame de papanicolau (preventivo do câncer de colo de útero).
“O médico olhou para minha cara e perguntou ‘o que você quer’. Eu disse que queria fazer o exame e ele respondeu que eu não tenho idade para fazer. Ele me mandou para casa, mesmo eu tendo argumentado que sou mãe de duas crianças e que estava sentindo dores no útero”, conta.
A moça destaca que, há cerca de dois meses, correu com a filha para a unidade por causa de uma convulsão. “Me mandaram para o PSC. Graças a Deus ela já tinha voltado da convulsão, mas foi horrível”, lembra.
“E teve uma vez que vim com meu menino para o pronto-socorro porque ele estava com diarréia. O médico demorou uma eternidade para atender porque estava assistindo ao jogo do São Paulo. E quando atendeu, receitou um xarope para a garganta. Corri com ele para o PSC e foi só lá que deram o remédio certo”, afirma.
Outro exemplo ocorreu com Edilaine Aparecida Gomes da Silva, 17 anos, que levou a filha ao pronto-socorro do Jardim Bela Vista por causa de tosse forte, peito cheio e febre. “O médico disse que ela estava com pneumonia, mas que deveria fazer acompanhamento com o médico do posto. Procurei o posto e eles agendaram uma consulta para dois meses depois”, afirma.
As jovens mães contam que, quando estavam grávidas, tiveram de pagar R$ 40,00 para fazer o exame de ultrassonografia. “Meu parto estava marcado para julho e só tinha vaga na ultrassonografia para setembro. Fiz particular”, comenta Edilaine. “Tive ameaça de perder meu bebê no início da gravidez, fiquei três dias internada e tive que aguardar três meses para uma consulta com o ginecologista”, completa Tatiana.
Para o casal Avelino e Maria Angélica Lima, o atendimento melhorou, mas o déficit de profissionais ainda é muito grande. “É muito movimento para poucos funcionários. Esses poucos fazem até demais”, comenta o marido.
O ajudante geral Antônio da Silva Melo, 33 anos, salienta que já morou em diferentes bairros da cidade e que enfrentou os mesmos problemas em várias unidades pelas quais procurou.
“É geral isso. Eu acho que o médico do posto de saúde só deveria atender no posto de saúde. Para aqueles que atendem em consultório, a gente passa a ser joão-ninguém. As pessoas devem trabalhar com o que gostam e a medicina exige paciência, amor, dedicação para a gente se sentir apoiado. São pessoas carentes que vêm aqui e a gente depende desse atendimento”, desabafa.