A morte do estudante Flávio Henrique Polaquini ocorrida em outubro de 2000 trouxe à tona uma das piores crises da rede pública municipal de saúde de Bauru. Na época, ficaram evidentes as precárias condições de funcionamento do Pronto-Socorro Central (PSC) e inúmeros outros problemas do setor. O PSC foi reformado e ampliado, mas boa parte das questões apontadas continua sem solução.
Uma delas é o déficit de pediatras na rede. Em 2001, a Secretaria Municipal de Saúde fez duas convocações em caráter emergencial para preencher cinco vagas abertas na pediatria e oito vagas em clínica geral. Na época, a administração encontrou dificuldades para contratar pediatras. Hoje, a escala da clínica médica está completa, mas na pediatria o déficit é de pelo menos dez profissionais.
A prefeitura já abriu concurso para repor esses profissionais, mas o número de candidatos inscritos tem sido insuficiente. Na opinião dos médicos que atuam na rede, esse desinteresse deve-se à situação precária em que os profissionais teriam que trabalhar.
“Criou-se um estigma e os profissionais têm medo de assumir essas vagas. Tanto já se noticiou sobre as condições de trabalho, sobre o excesso de atendimentos, que eles não se interessam. Eles preferem trabalhar em seus consultórios, com tranqüilidade, a assumir o rigor da jornada no serviço público”, comenta um pediatra da rede municipal, que pede para não ser identificado.
Ele defende que para quebrar esse estigma, é necessário começar tudo do zero, reformular a política de atendimento, reformular o sistema de plantão, reformular as unidades e rever a política salarial.
Para o especialista em administração hospitalar, Luiz Fernando Ribeiro, a falta de recursos humanos requer investimento imediato.
“Nós temos excesso de médicos no Brasil hoje. O ideal, segundo a Organização Mundial de Saúde, é um médico para cada 1.000 habitantes. O Brasil tem um para cada 640 habitantes. Sobram profissionais, mas eles estão mal distribuídos. O profissional vai trabalhar onde ele tem um retorno financeiro melhor. É preciso haver atrativo salarial (na rede pública)”, sugere.
Descentralização
Redefinir a função das Unidades Integradas de Atendimento Ambulatorial e Urgência (popularmente chamadas de prontos-socorros dos bairros) foi outra necessidade identificada em 2000 que permanece sem uma solução efetiva.
“As unidades descentralizadas (Jardim Bela Vista, Núcleo Mary Dota e Vila Ipiranga), embora sejam chamadas de prontos-socorros, não preenchem os requisitos para tal (área física, equipamentos e serviços), e a população reclama constantemente da precariedade e não resolutividade dos atendimentos”, informava a então secretária municipal de Saúde, Eliane Fetter Teles Nunes, em ofício datado de janeiro de 2001.
Quatro anos depois, o questionamento permanece. Fiscais do Conselho Regional de Medicina (CRM) apontam que os prédios não têm estrutura, pessoal, nem equipamentos adequados para funcionarem como prontos-socorros. Em matéria publicada pelo Jornal da Cidade há três semanas, o conselheiro Carlos Alberto Monte Gobbo sugeria a desativação dos serviços de urgência e emergência nessas unidades, que deveriam ser mantidas apenas como núcleos de saúde.
Na prática, eles têm funcionado apenas como pronto-atendimento e os casos de urgência e emergência são encaminhados ao PSC - única unidade municipal que dispõe de condições adequadas para oferecer esse tipo de atendimento, segundo o CRM.
Usuários das unidades confirmam a situação. “Eu precisei trazer meu filho ao pronto-socorro (Jardim Bela Vista) uma madrugada dessas e não tinha pediatra. Tive que arrumar dinheiro emprestado para pegar um ônibus e ir com ele ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI)”, conta Daniela Guiomar Araújo da Silva, 23 anos.
Auxiliar de enfermagem, ela afirma que o atendimento na unidade do bairro deixa muito a desejar. “Eles demoram para atender e, quando atendem, é correndo, Nem dá tempo da gente explicar direito para o médico o que a criança tem, eles nem olham direito para a criança”, reclama.
Comparando o relatório apresentado pela Secretaria Municipal de Saúde em 2001 com a situação da rede pública municipal atual, a reportagem apurou que boa parte das reformas estruturais solicitadas naquela época foram executadas, com exceção das unidades descentralizadas, que continuam reprovadas pelo CRM.
Por outro lado, um percentual considerável das reivindicações daquela época exigiria mudanças na postura administrativa para sua solução. A maioria delas está no rol das situações que mantêm-se inalteradas.