08 de julho de 2026
Bairros

Demanda da saúde cresce 275% e rede pública é a mesma

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

A saúde pública municipal de Bauru voltou a ser notícia nas últimas semanas. Depois de alguns anos de calmaria (houve uma série de problemas em 2000), uma nova crise eclodiu no setor. Médicos contrariados, estruturas reprovadas, pacientes insatisfeitos. Não era para menos. Dados oficiais apontam que o número de atendimentos realizados nas unidades básicas dos bairros e nos prontos-socorros triplicou nos últimos seis anos.

O problema é que a ampliação dos serviços públicos oferecidos à população não acompanhou esse crescimento. Houve reformas e contratações, mas a expansão obtida com tais iniciativas mostra-se muito pequena em comparação ao aumento da procura. O resultado dessa equação é a perda da resolutividade da rede.

De acordo com o médico especialista em administração hospitalar, Luiz Fernando Ribeiro, a primeira causa deste aumento na demanda é o próprio crescimento demográfico. “A Organização Mundial de Saúde estabelece uma média de três consultas por ano por habitante. Se a população da cidade aumenta em 10 mil pessoas, a rede pública de saúde precisa oferecer pelo menos 30 mil consultas a mais por ano”, explica.

Tomando como base os censos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), observa-se que Bauru tinha 292 mil habitantes em 1996. No ano 2000, esse número já era de 316 mil pessoas, ou seja, 24 mil novos habitantes em quatro anos.

Outra razão para o aumento é a diminuição do poder aquisitivo da população. Nos últimos anos, a imensa maioria dos trabalhadores não obteve reajustes salariais compatíveis com o aumento real da inflação. Isso afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas.

Paralelamente, os planos de saúde privada sofreram diversos reajustes neste período, obrigando muitos usuários a abandoná-los. Sem outra alternativa, eles recorrem à saúde pública.

No início dos anos 90, a rede pública municipal de saúde de Bauru era considerada modelo para outras cidades. Essa mesma rede enfrentou uma grave crise em 2000 e o mesmo cenário se repete agora. Para Ribeiro, o quadro atual deve-se à falta de continuidade aos projetos de ampliação das últimas gestões administrativas. Uma situação que deverá exigir muito do próximo prefeito.

A população reclama das filas, de ter que “madrugar” na porta das unidades para retirar senhas, da demora no agendamento de consultas, do atendimento superficial e rápido realizado pelos médicos, do descaso com que muitas vezes são tratados.

Os médicos reclamam do déficit de profissionais que gera excesso de atendimentos, das alterações repentinas nas escalas de plantão que prejudicam outros compromissos previamente assumidos, das más condições de trabalho que podem favorecer o erro.

O Conselho Regional de Medicina (CRM) atesta que algumas unidades não têm estrutura adequada para funcionar como se propõem e recomenda a desativação de alguns serviços, mesmo sabendo que isso vai encolher ainda mais a rede pública. O argumento é que o funcionamento precário engana o cidadão e põe a vida dele em risco.

A Prefeitura Municipal de Bauru aponta várias melhorias executadas nos últimos anos. Mas essas melhorias não foram suficientes para sanar sequer a primeira crise do setor nesta administração. Muitos dos problemas anunciados pela Secretaria Municipal de Saúde no final do ano 2000, quando a morte de um estudante trouxe à tona um conjunto de deficiências do setor, ainda permanecem sem solução.