O tom principal da palestra que o ministro-chefe da Casa Civil do governo federal, José Dirceu (PT), fez ontem à tarde, no pátio do Buffet Márcia & Marô, em Bauru, foi o de que o País está na rota da retomada definitiva do desenvolvimento sustentado, sem o qual, segundo seu próprio diagnóstico, não há como sair do trilho da recessão.
Para José Dirceu, o País tem, neste momento, uma oportunidade histórica para crescer de forma sustentada, sem dependência do capital especulativo internacional. “No hemisfério sul, somos o único País com maior oportunidade de crescimento auto-sustentável pelos próximos dez anos. Construímos e consolidamos a democracia. Agora vamos para o crescimento econômico”, discursou.
O ministro destacou alguns pontos da ação de governo Lula para o ciclo do crescimento. “Vamos avançar no campo tecnológico e de pesquisa. Temos a agroindústria mais moderna do mundo. O governo Lula vai fortalecer a Embrapa, que está tendo seus recursos ampliados. O governo também saneou as finanças do setor energético e vamos avançar nessa matriz com o gasoduto”, citou.
Entretanto, para Dirceu o País tem que correr contra o tempo para eliminar os nós do crescimento. “Temos uma péssima infra-estrutura rodoviária, problemas na área portuária e grandes complicações no setor ferroviário. Estamos trabalhando para uma composição com a Novoeste e Ferroban para a recuperação da ferrovia”, comentou.
Sem investimento nesses setores, o País ficará estrangulado para expandir a exportação, segundo o ministro. “Infelizmente a dívida pública dobrou em dez anos e estamos criando uma situação favorável para a queda nos juros. Mas precisamos de confiança dos poupadores brasileiros. O poder público não investe mais que 0,75% do produto interno. O País tem pressa para crescer”, continuou.
Entre as principais ações para abrir caminho para o crescimento, o ministro citou a aprovação da lei da Parceria Público Privada (PPP) e a nova legislação das agências reguladoras. “Essas modificações na legislação levam a um ambiente seguro para o investidor. O BNDES vai financiar R$ 57 bilhões em 2005 e o Banco do Brasil vai investir até R$ 8 bilhões neste ano em projetos de infra-estrutura”, contou Dirceu.
Ele pediu que os empresários participem desse esforço a partir da redução das alíquotas de impostos de produtos da cesta básica pelo governo. “A dívida pública só permite investimentos se os juros caírem a 6%. Mas isso não se consegue agora, porque pagamos uma taxa de risco muito alta lá fora. Se não criarmos um mercado de poupança sólido, a longo prazo, não vamos ampliar os investimentos”, advertiu.
Entre os desafios deste governo, José Dirceu citou os investimentos em infra-estrutura. Ele lembrou que o País não recuperou estradas e nem realizou duplicações nos últimos anos. “Também precisamos atuar em educação, incorporar 5 milhões de jovens na área técnica profissional nos próximos anos, fazer reforma nas universidades”, elencou.
Mas o ministro cobrou que as universidades públicas precisam “falar a mesma língua” da iniciativa privada no setor. “Vamos atuar para ampliar o financiamento, reduzindo as entranhas para abrir caminho para novas linhas de crédito. Temos uma posição de destaque na Organização Mundial do Comércio (OMC) e queremos ter um papel maior junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)”, disse.
Além de investir em logística - portuária, ferroviária e rodoviária -, Dirceu contou que o governo estará atuando na área de habitação popular. “O BNDES deve aprovar ainda neste mês uma linha de R$ 8,5 bilhões para arranjos produtivos locais, para o médio e pequeno produtor brasileiro”, informou.
No final de sua palestra, José Dirceu concluiu que o País abre grande perspectiva para o crescimento. “Temos desafios e grandes problemas a enfrentar e estamos agindo com responsabilidade”, pontuou.
Antes de tecer comentários sobre as ações de governo e fazer uma espécie de diagnóstico do País, Dirceu disse que tem laços afetivos com Bauru desde os anos 60. Lembrou que o ex-prefeito Nicola Avalone Júnior (Nicolinha) lhe ofereceu a primeira oportunidade de trabalho, como office-boy.
Em seguida, lembrou-se da antiga pujança da ferrovia e o que ela já significou e pode representar para o transporte de carga, defendendo que o País precisa investir na recuperação de sua malha ferroviária para escoar toda a produção nacional, de Norte a Sul do País e para o Exterior.
O ministro falou, olhando para universitários da Instituição Toledo de Ensino (ITE), que tudo que a vida já lhe ofereceu se deve muito ao movimento estudantil. Ele foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE).