31 de maio de 2026
Articulistas

Rumo ao crescimento sustentado nacional

Claudio Vaz
| Tempo de leitura: 3 min

Estamos diante da melhor oportunidade que o Brasil já teve nos últimos quinze anos para deslanchar um ciclo de desenvolvimento sustentável e com justiça social. Se perdermos essa chance, teremos de esperar por mais outros quinze anos. O saldo da balança comercial, estimado em US$ 32 bilhões neste ano, mais os investimentos em algumas áreas, como agroindústria e telefonia, vão garantir um crescimento mínimo de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2004. Mas precisamos mais do que isso, e o ponto-chave para alcançarmos um crescimento no patamar de 6% ao ano é a ampliação do mercado interno.

O aquecimento das vendas aqui dentro é o divisor de águas, mas aí é que está o desafio: como aumentar o consumo em um País onde cerca de 50 milhões de pessoas estão excluídas do mercado por falta de renda para satisfazer suas necessidades básicas? É gerando emprego e renda para ser consumida aqui dentro. E é nesse ponto que entra o papel fundamental a ser exercido pelo empresariado industrial brasileiro, em especial através do sistema Fiesp/Ciesp.

Num País complexo como o nosso não há espaço para um projeto dominante. Trabalhadores, comércio, prestadores de serviço, a indústria, todos devemos ser parceiros, atuar em conjunto, cada um cedendo uma parte para, na frente, todos colherem os benefícios. E a grande missão da Fiesp/Ciesp no campo macroeconômico é justamente a de exercer o papel de integrar e articular os demais setores produtivos e trabalhadores para a convergência de propostas que gerem emprego e renda.

Todos sabemos que os juros altos estão na origem da contenção do mercado interno e temos de continuar lutando para reduzir as taxas primárias e aquelas pagas na ponta. Mas um aspecto pouco debatido é como gerar emprego e renda para aquecer o mercado interno. Tão importante quanto baixar os juros é ter gente comprando na loja. O emprego industrial está crescendo bem neste ano, mas o potencial que as indústrias têm de criar novos postos de trabalho fica muito aquém das nossas necessidades.

Precisamos de empregos na casa do milhão para desatar o nó do mercado interno. E neste momento, só a grande indústria da construção civil tem capacidade para dar esta resposta. Obras de saneamento básico, habitação popular, recuperação de estradas, ampliação de portos e em outras áreas de infra-estrutura poderiam receber os recursos governamentais para a geração de empregos no nível exigido para o aumento da renda e, em conseqüência, do consumo interno.

O crescimento do mercado exportador tem se mostrado amplo e bastante generalizado. Já no mercado interno, esse crescimento verificado recentemente tem caráter mais setorial. Ele é muito visível na área de bens duráveis, que está apoiada por um crédito um pouco mais alongado, mas nos itens típicos de consumo por renda esse crescimento é pouco visível. É possível que isso mude no segundo semestre, que tradicionalmente é mais forte que o primeiro. De qualquer forma, a melhoria de nosso minguado mercado interno não virá com a amplitude e a intensidade que seria possível se tivéssemos juros menores, como chegou a ser cogitado no início do ano, girando ao redor de 12% no final do ano. Agora, todo o sistema financeiro fala em juros para o final do ano entre 15% e 15,5%. Ou seja, essa diferença de 3 pontos percentuais nos juros primários, que corresponde a 7 pontos para o tomador inicial e a 10 pontos para consumidor final, poderia ser mais um fator a contribuir para o crescimento generalizado do nosso mercado interno. (O autor, Claudio Vaz, é diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e candidato à presidência da entidade)