A retomada da atividade econômica hoje se mostra presente em todos os segmentos de mercado, em alguns se nota uma maior intensidade, como nos exportadores e de bens duráveis.
Para a consolidação da retomada é necessário sim redução dos impostos, acesso a crédito mais barato, melhor infra-estrutura, contudo, há também um imenso trabalho a ser feito dentro dos portões e portas das empresas.
Nestes últimos anos, os planos anuais das empresas têm sido elaborados tomando-se como base o passado, acrescentando-se um crescimento da ordem de 5% a 10%. O mercado tem um jargão para esse comportamento que diz: “Projetar o futuro com base no passado é como dirigir um carro olhando pelo retrovisor.”
Para muitos segmentos, onde a retomada se mostra presente com taxas de crescimento substanciais, as empresas terão que partir de uma base zero e analisar suas possibilidades de crescimento com base no novo cenário como forma de desenvolver seus planos econômicos e financeiros anuais.
Por que isso ? O crescimento de uma empresa muda sua estrutura de custos fixos, o nível de utilização de sua capacidade produtiva, a sua produtividade, o valor do custo unitário de seus produtos, os canais de vendas, os custos de distribuição, os gastos com promoção, a necessidade de capital de giro, as fontes e formas de financiamento, muda efetivamente o jeito de fazer negócios.
A história empresarial mostra que a falta de entendimento dessas mudanças é tem que levado empresas a fracassar exatamente nos momentos em que a economia começa a mostrar sinais de crescimento extremamente positivos.
A imagem que o mercado faz dessa situação é a do proprietário de um filhote de leão que ao crescer o devora.
As empresas exportadoras, aquelas que enfrentaram o leão da globalização e aprenderam a domá-lo, hoje são extremamente competitivas no âmbito internacional e principalmente no mercado interno, pois se preocuparam com a formação de mão-de-obra técnica qualificando suas equipes, com o desenvolvimento tecnológico, com a forma de desenvolver os trabalhos em todos os setores da empresa obtendo uma melhor qualidade de gestão .
No nosso mercado ainda há espaço para todo tipo de produto, desde os mais avançados tecnologicamente até os mais simples, portanto há espaço para muitas empresas crescerem, mesmo que no momento não disponham de capital para uma renovação tecnológica. Evidentemente que essas empresas no âmbito internacional terão enormes dificuldades caso queriam exportar.
Para competir essas empresas terão que explorar nichos específicos de mercado, com o produto certo, no momento certo, especializando-se, portanto. A empresa terá que vigiar sua eficácia. Sua competitividade terá que ser consolidada pela sua eficiência, com a utilização correta dos recursos que dispõem, com o menor desperdício possível.
A empresa terá que desenvolver uma cultura que a diferencie das demais. A empresa terá que ter como diferencial atenção especial com o seu mercado e agilidade em atender sua demanda. A empresa terá que colocar a cadeia de fornecedores a seu serviço e colocar sua empresa a serviço do mercado, portanto qualidade de atendimento deverá ser um grande diferencial. Para muitas empresas isso necessariamente gerará um choque de cultura.
Esse novo comportamento só será possível com intercâmbio de informações, com treinamento, aconselhamento e debates. Esse choque de cultura só será obtido além das portas e dos portões da empresa. Essa lição as empresas exportadoras aprenderam, muitas a duras penas.
Ouvi muitas vezes, de muitos empresários, a seguinte frase: “Com exportação ficamos mais sábios do que ricos”. O que na verdade essas pessoas tentavam me dizer é que ainda não estavam preparadas para enfrentar um mercado mais competitivo que o nosso. Esse mesmo dilema enfrentarão muitas empresas neste momento de retomada econômica, mesmo não exportando e competindo apenas no mercado interno.
O mercado brasileiro ofertando crédito mais barato, aprimorando a infra-estrutura, melhorando o nível de renda da população permitirá ao empreendedor melhores condições mercadológicas e de sucesso empresarial, mas também trará ao mercado novas empresas, novos investidores e uma concorrência feroz. No âmbito internacional todo produto brasileiro que passar a incomodar sofrerá, inevitavelmente, ataques mais duros dos concorrentes, enfrentará mais barreiras, isso não é novidade para quem exporta carnes, frango, soja, café, laranja etc. Isso é lei de mercado.
Temos que nos fazer uma pergunta : o desenvolvimento econômico vai nos levar a nos aprimorarmos como fabricantes de produtos tecnologicamente avançados e nos tornarmos exportadores ou venderemos nossas empresas para empreendedores estrangeiros que verão oportunidades imensas em nosso território?
Isso dependerá basicamente da capacidade de adaptação, da capacidade de absorção de conhecimento de nossas empresas frente a velocidade com que a globalização desenvolve os negócios no mundo. Uma mudança de comportamento, de conceitos de gestão e cultura numa empresa pode demandar em média dois anos de investimento e treinamento, contudo no mundo globalizado isso acontece referencialmente em questão de minutos.
Muitas de nossas empresas ainda apresentam um caráter emocional de gestão, com centralização de poder e pouca participação decisorial de seus gerentes, muitos dos quais atuam mais como supervisores.
Criar espaço para debates, incentiva-los, criar regras, procedimentos e efetivamente seguí-los, potencializar as vocações da empresa, explorar as oportunidades de mercado é o que demanda a nova economia. Alguma novidade nesse discurso? Aparentemente não, mas devemos ter atenção a uns pequenos detalhes: “A velocidade com que as coisas acontecem e o porte e especialização de nossos concorrentes”.
Quem bate na porta de nosso melhor cliente não é mais o concorrente da cidade vizinha, aquele com quem fazíamos acordos comerciais verbais os quais nenhum de nós respeitava, mas um empreendedor que tem seu negócio instalado do outro lado do mundo.
O autor, Ivan Postigo, é economista, contador e consultor de empresas.