Em uma tarde de agosto, saíram para uma pescaria no rio Kuluene, no Alto Xingu, MT, a dupla Ezequiel Theodoro da Silva, coordenador geral do site Pescarte, escritor, editor, pesquisador e professor colaborador-voluntário da Unicamp e esta jornalista. A aventura, além de muito piscosa, pois foram capturados matrinxãs, corvinas, cacharas, piranhas e jurupensens, rendeu uma matéria sobre o 1.º Concurso Nacional de Causos de Pescador, promovido pela Revista Virtual Pescarte.
Curiosamente, a pescaria foi registrada de uma forma bastante diferente, pois a dupla não estava com máquina fotográfica e gravou cada fisgada - e não foram poucas - em áudio. Entre uma pinchada e outra, uma isca roubada e muitas risadas, foi possível saber um pouco mais sobre esse gênero literário nacional e encontrar subsídios para um genuíno causo de pescador, como o leitor poderá conferir.
Segundo Ezequiel Silva, o causo é um gênero literário tipicamente brasileiro: “Muito mais que a ‘short story’ norte-americana, pois não é conto, não é novela, mas se constitui em um tipo específico que é chamado causo”, explica o professor.
Pensando na importância do gênero literário, que hoje corre o risco de desaparecer, a Revista Virtual Pescarte decidiu coordenar o concurso. “Hoje, na verdade, principalmente por causa da televisão, da própria diminuição da pesca no País, da pesca predatória, o causo do pescador, a mentira do pescador, tende a se reduzir e tudo o que se reduz, tende a desaparecer. A nossa tentativa é exatamente a preservação dos causos”, explica Silva.
“Existem os causos clássicos, que na verdade estão no imaginário popular, e existem os causos que são feitos, são tecidos ao sabor dos acontecimentos da própria pesca. Esta pesca que estamos fazendo aqui no Xingu certamente vai gerar muitos causos e boas histórias. Porque aconteceram coisas que a gente depois aumenta, principalmente pela figura do aumento do objeto”, exemplica.
O concurso pretende fortalecer ainda mais a identidade dos causos e, de certa forma, revelar algumas pessoas que tenham essa capacidade, não só de contar oralmente, como geralmente ocorre com os causos, como por escrito. Uma forma de preservar essa memória do causo. “Esta é a tentativa maior do nosso concurso, reconhecer o potencial dos grandes contadores de causos, preservar isso e fortalecer um gênero que é tipicamente nacional.”
Pela sua origem oral, são poucos os registros literários dos causos de pescador. O concurso, que prevê outras edições futuras, preocupa-se com esse registro histórico.
Novas premiações
O Concurso Nacional de Causos de Pescador tem alcançado novas fronteiras e ampliado suas premiações. Para o primeiro colocado, além de equipamentos para pesca, assinaturas de revista e uma viagem para o Xingu, no Rancho Xingu, com todas as despesas pagas (aproximadamente R$ 2 mil), os 15 primeiros colocados terão seu causo editado para a televisão.
“Apresentamos uma proposta para a Amazon Sat, uma rede muito forte de televisão do Norte brasileiro, mas hoje ela entra através de satélite em todos os lares nacionais. Eles vão pegar os 15 melhores causos e vão filmar. A Amazon Sat vai dar uma vida própria em vídeo, em filme, para os causos vencedores. Isso, na verdade, projeta muito o próprio concurso. Vamos ter dois tipos de veiculação do causo, o escrito e o visual. A história vai ser transformada em personagem, com ação, com enredo”, explica o coordenador do concurso.
Os cinco melhores causos serão publicados pela Revista Pesca Esportiva e os vencedores, inclusive, vão ganhar uma assinatura de seis meses da revista. E também na Revista Virtual Pescarte. “A gente previu uma publicação em livro, mas não é certo que ocorra, pois a gente espera encontrar um editor que queira fazer o investimento.”
Um velho projeto do site Pescarte é fazer um áudio dos causos: “Você poderia ter um CD em áudio, contado por um bom contador, que saiba ler expressivamente, recontar o causo de uma maneira dinâmica, expressiva”.
Taxa de inscrição
A taxa de inscrição para o concurso, que tem suas inscrições encerradas no dia 15 de setembro deste ano, é de R$ 20,00. “É até importante divulgar que estamos cobrando R$ 20,00 pela inscrição não porque a gente queira lucrar com isso. Esses R$ 20,00 que a pessoa está pagando já está antecipando uma assinatura da Revista Virtual Pescarte para 2005, ele ganha uma assinatura grátis da revista. Esses R$ 20,00 não vão para o caixa da revista, mas sim para um júri de críticos literários da própria Unicamp, Universidade de Campinas, para fazer um trabalho analítico, que premie aquele que realmente tenha um bom enredo, que seja bem composto em termos de linguagem.”
Mas o que um causo para que seja bem composto em termos de linguagem precisa ter? “Eu acho que é o inusitado que ele traz. É o enredo que faz a história. O trabalho de fantasia que ele vai tecer de uma determinada forma. Eu acho até que o conteúdo, às vezes, ganha da forma. Mesmo uma forma um pouco mais precária, mas não sou eu a dizer isso. É uma opinião pessoal. Eu acho realmente que o assunto, aquele cerne, aquele enredo, que o causo consegue tecer. E aí tem vários exemplos clássicos de causos que mostram exatamente a imaginação que o cara traz, daquilo que a fantasia dele, a partir de um fato que acontece, ele consegue compôr, escrever, estruturar, produzir.”
Falando em como nascem os causos, Ezequiel Silva dá exemplos ocorridos recentemente no Xingu. “A gente tá falando de coisas que acontecem na pesca e não acontecem em lugar nenhum. Nenhum outro ponto de sua vida. Ontem (12 de agosto) aqui pescando, um colega nosso, o Toto, de Piraí do Sul - RS, pescou um tracajá pela perna dianteira. O anzol se enroscou na perna dianteira do tracajá. Um coisa que você nunca vai esperar que aconteça, pegar um cágado, um tracajá pela pata. E ontem ele pegou, tiramos fotografia, tudo. Você conta essas coisas para as pessoas e elas não querem acreditar. Outro fato ocorrido, foi com o Adilson Caramello. Ele tava pescando com uma isca muito pequena, leve, inesperadamente pegou um peixe muito grande, um trairão, de aproximadamente 15 quilos. Ele jamais tiraria aquele peixe, mas só o fato de você viver a adrenalina de pescar nesse sentido, já é uma coisa fabulosa. Então, eu acho que é aquilo que acontece e o modo como a fantasia do escritor mexe com aquele inusitado que aconteceu. Acho que é isso que faz um bom causo...”
E durante a entrevista, nosso entrevistado começa a gritar, com um “baita” peixão na linha. “Tá nadando para cá, e é grande para caramba! Ai, meu Deus! E não vai dar para tirar fotografia”, resmunga. “Nossa, é uma cachara?” “Não é um pintado, e tá forte... E fica registrado para o Jornal da Cidade de Bauru, os gritos do pescador, e a sensação que é numa pescaria onde tudo pode acontecer. Inclusive no meio de uma entrevista, um pintado de aproximadamente 23 quilos lá na ponta”, grita o pescador Ezequiel, que depois, esportivamente, devolve o peixe para o rio Kuluene.
Causos publicados
O causo deve ser inédito, mas muitos colaboradores mandam ao Jornal da Cidade seus causos que são publicados no jornal. Ele pode recontar? “Sem dúvida, pois deve ser inédito em termos de publicação em livros, em editoriais mais permanentes. O jornal vale por um dia, é próprio do veículo. Sem dúvida, que histórias publicadas no jornal podem participar. Pode recuperar, tem que ser as melhores”, acrescenta. Bauru e região possui tradição de contadores de histórias. São muitos, criativos e bem-humorados.
Tem um tamanho mínimo ou máximo? “A gente não estabelece, mas achamos que um causo tem que ser objetivo, tem que ir ao ponto. Então, um negócio muito prolixo, do tamanho de um livro, acho difícil você convencer o próprio leitor. O causo não pode ser muito longo. Tem que ser curto, objetivo e a gente não estabelece quantas páginas tem que ter. O enredo se faz. A gente espera que depois desse concurso, é o primeiro concurso, venha o segundo, o terceiro, etc. Para ir cultivando. Você vai alimentando o próprio site, as revistas, com um negócio mais apurado. Porque também tem o cara que se mete a fazer causo e não sabe nada de causo e fica cansativo. Não tem aquele ‘tchan’ de fazer o causo ficar atraente, bonito e gostoso de ler.”
Se a pessoa não é pescadora? “O causo, na verdade, tem o chamado reconto do causo. Um causo que eu te conto. Outro dia me ligou uma mulher querendo saber se ela poderia participar. Lógico que a senhora pode, porque todas as histórias que seu marido conta, você pode recontar. Não estamos pedindo nenhuma carteirinha de pescador. Tem que ser apenas maior de idade. Os prêmios são para pessoas adultas. Uma viagem daqui para o Xingu. Às vezes, você precisa que assine autorização para publicar. Esse é o sentido maior de nosso concurso. A gente tem umas 15 inscrições até o momento, mas a gente sabe que o brasileiro deixa tudo para a última hora”, explica.
Quem quiser informações mais detalhadas, é só acessar o site da Revista Virtual Pescarte (www.pescarte. com.br) e fazer a sua inscrição até o dia 15 de setembro. Os envelopes devem ser lacrados. A comissão julgadora abrirá os envelopes. “A gente não está querendo um perfeccionismo lingüístico. A gente quer uma boa história fantástica”, finaliza o idealizador do concurso.