30 de maio de 2026
Articulistas

Paz construída na luta


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A vida do médico brasileiro não tem sido das mais fáceis nas últimas décadas. Enfrentamos problemas de toda a sorte, tanto no sistema público quanto no privado. Faltam condições adequadas para a assistência no SUS; investe-se muito pouco em saúde, no Brasil; operadoras de capital interferem no exercício da Medicina, não disponibilizam boa parte dos avanços científicos, custam muito caro e remuneram mal; a proliferação irresponsável de escolas médicas ainda não foi totalmente vencida; a violência é crescente na periferia das grandes cidades; a profissão carece de regulamentação clara e objetiva; e por aí vai.

Seria o caso de entrar em desespero? A resposta é não. Muito ao contrário. Neste ano de 2004, a classe médica vem fazendo a história com as próprias mãos. E essa atitude nos enche de esperança para o porvir de dias melhores. Os profissionais de medicina de todo o Brasil merecem parabéns, por exemplo, pela determinação com a qual vêm lutando pela implantação da Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM) na saúde suplementar. O movimento já se expandiu para 19 Estados. São Paulo é um deles.

Tenho certeza de que essa cruzada resgata a auto-estima de todos os médicos. Afinal, não é fácil ser alvo das pressões de certas empresas, que, todos sabemos, são pesadíssimas. Mas os colegas estão resistindo e, a cada dia que passa, o nosso basta ecoa em novas cidades, em novos Estados. O País nos ouve e nos dá razão. A sociedade sabe que brigamos para exercer a medicina com dignidade e para servi-la da melhor maneira possível, afinal o direito à saúde é pétreo.

Enfim, paramos de esperar que as soluções caiam do céu e passamos a combater unidos, pela dignidade, pela valoração do nosso trabalho, pela ética e por condições adequadas para a boa prática da medicina. A organização dos médicos, a disposição de luta e a unidade entre as entidades representativas, universidades, órgãos de defesa do consumidor, é hoje o saldo vitorioso deste movimento. Não há preço que pague a satisfação de chegar em casa exausto, mas de cabeça erguida, olhar para a família com a paz interior daqueles que buscam condições melhores para o exercício da profissão e o benefício da sociedade.

O movimento pela CBHPM, do qual São Paulo participa em diversas frentes, na Capital e em tantas outras cidades e regiões, é apenas um dos sinalizadores de que podemos ser vitoriosos sempre, desde que trabalhemos coesos. Atualmente, estamos conseguindo frear a abertura de algumas escolas médicas. O projeto de lei do Ato Médico caminha de forma mais segura no Congresso Nacional e outros avanços surgem no horizonte.

2004, estou convicto, é um ano que ficará na história por conta dessa movimentação. Lado a lado com a sociedade, os profissionais de medicina estão perseguindo com obstinação mudanças essenciais à melhoria da assistência à saúde dos brasileiros. Conquistar o respeito dos planos de saúde para médicos e pacientes, zelar para que o aparelho formador realmente ofereça um ensino de qualidade para aquele que irá atender aos cidadãos amanhã e trabalhar sempre com a consciência de que não há patrimônio mais valioso do que a saúde de cada um de nós são a base para um sistema digno e para um Brasil melhor.

O autor, Clóvis Francisco Constantino, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo