Quando Sílvia (nome fictício) foi assaltada, não imaginava que o episódio poderia lhe causar tantos transtornos, como de fato ocorreu meses depois. No ano passado, ela dirigia pela rua Antônio Alves quando foi abordada por um homem armado em um semáforo. Ele entrou no carro e a ameaçou. Depois de rodar por mais de uma hora, ela foi obrigada a entregar dinheiro, cartões de crédito, relógio e telefone celular, e o assaltante saiu do carro, próximo ao Jardim Ouro Verde.
“Durante o assalto, eu estava tensa. Depois, fiquei com raiva daquilo, mas passou. Duas semanas depois, comecei a ter medo de ficar em casa, medo de sair de casa, medo de andar de carro. Minha vida quase parou”, conta a vítima que desenvolveu o Transtorno de Estresse Pós-Traumático (Tept), um problema que vem sendo observado com grande freqüência nos consultórios de psicólogos e terapeutas.
O Tept é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento, desencadeia alterações físicas, emocionais e mentais. A psicoterapeuta Maria Claudina Gisbert Argilés Cury explica que pode ser considerado como trauma qualquer situação que altera a vida de uma pessoa de forma inesperada, como uma doença grave, uma demissão, a perda de uma pessoa querida, assaltos, seqüestro, um acidente ou, em casos mais extremos, uma guerra ou atentado terrorista.
“Depois de algumas semanas ou meses, a pessoa começa a perceber realmente o que aconteceu, que ela foi impotente em relação àquele evento e desenvolve uma série de patologias como, por exemplo, insônia, ansiedade e estresse”, destaca Cury.
A vítima do trauma passa a ter recordações vivas e involuntárias do evento, assim como pesadelos e a sensação de que aquilo pode acontecer novamente a qualquer momento. Na maioria dos casos, a pessoa se afasta do convívio social, evita assuntos, sensações ou indivíduos que a lembrem do ocorrido e perde em qualidade de vida. “Tudo isso mexe com a parte química do organismo, que contribui para desenvolver depressão, ansiedade e até doenças mais graves”, aponta a psicoterapeuta.
Sílvia comenta que procurou ajuda profissional e conseguiu curar-se do transtorno no momento em que a doença já havia se transformado em depressão. “Eu me sentia insegura, paranóica e revoltada com aquilo o tempo todo. Comecei a perceber que estava doente quando nem meus filhos conseguiam me animar”, relembra.
De acordo com Cury, as vítimas de trauma que desenvolvem Tept precisam tomar consciência de que o evento inesperado pode acontecer de novo. “A pessoa perde a serenidade da certeza, e o grande trabalho na terapia é fazer o paciente se sentir seguro e tranqüilo com a incerteza. Isso é difícil, mas sem encarar de frente, a pessoa acaba com sua qualidade de vida”, afirma.
Perda repentina
A psicoterapeuta relata que já foi vítima de Tept há alguns anos, quando perdeu seu filho adolescente. “Você perde repentinamente alguém que não esperava. É diferente de perder alguém que está doente ou de idade avançada”, ressalta Cury. Logo após a morte do filho, ela comenta que procurou entender o motivo do que havia acontecido.
“Você tenta dar uma de corajoso, pensando que vai superar, ‘fé em Deus’. E começa a buscar o porquê daquilo nas filosofias e religiões e não encontra. Então, você começa a tapear a dor fazendo muitas coisas e se jogando no trabalho, mas percebe que nada substitui a sua perda”, comenta.
Na opinião de Cury, as vítimas dos traumas inesperados devem procurar ajuda justamente para tentar recuperar seu ritmo de vida normal. “Em alguns casos, a pessoa supera sozinha. É diferente no caso de perder alguém, pois muitas situações vão lembrando a pessoa pelo resto da vida e também é preciso aprender a lidar com isso. A dor não desaparece, mas a vida continua”, finaliza.
Transtorno já era diagnosticado no século 19
Desde o século 19, psiquiatras e neurologistas já reconheciam os sintomas característicos do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (Tept). Em 1920, Freud definiu o conceito de “Trauma Psíquico” sofrido por ex-combatentes de guerra, e após a Segunda Guerra Mundial ressurge o interesse pelo transtorno, que passa a ser conhecido como “neurose traumática ou de guerra”. Apenas em 1980, a American Psychiatric Association acrescentou o Tept à sua terceira edição do Manual de Estatística e Diagnóstico de Distúrbios Mentais.
Uma matéria publicada pela Agência Fapesp em abril deste ano informa que cerca de 40% dos funcionários do quartel general do Departamento de Defesa norte-americano, o Pentágono, examinados nos quatro meses seguintes aos atentados de 11 de setembro de 2001, apresentaram distúrbios mentais.
Além disso, um estudo promovido com 8 mil crianças de 94 escolas de Nova York demonstrou que 87% delas demonstraram sintomas de Tept, como depressão e pesadelos crônicos. Segundo uma reportagem da BBC Brasil, muitas desenvolveram agorafobia, medo de espaços abertos, após o atentado contra o World Trade Center.