Quantas vezes não ouvimos de nossas professoras nos bancos escolares, desde o primário, que nós tínhamos que estudar pois inevitavelmente seríamos os futuros governantes da nação? Nós, aquelas criaturas imberbes, já éramos incitados a dar rumo ao desenvolvimento do País, talvez na primeira aula sobre política recebida.
Com o passar do tempo - falo principalmente da minha geração - fomos percebendo uma conotação pejorativa na palavra “política” no Brasil, com adjetivos nada agradáveis acoplados a essa instituição, sendo o retrato pintado tão feio, que muitos de nós retiraram esta luz do nosso prisma, como se isto fosse possível.
Sem contar com o naco histórico da ditadura, quando nada de política saudável era falado ou ouvido sem passar pelas tesouras viciadas da censura. Após a redemocratização do País é que, infelizmente, uma atrás da outra as mazelas e desfalques de nossos políticos, associadas a uma situação econômica insustentável, nos deram com todas as tintas, a verdadeira face do político. Então, na mente do cidadão brasileiro sedimentou-se esta máxima: “Todo político e seus derivados são desonestos”.
Devido a esta verdadeira síndrome política, hoje em dia, quando alguém revela vontade de ser representante do povo em qualquer cargo eletivo, além dos familiares e amigos que tentam demovê-lo desta “perigosa” idéia, ele próprio, pelos mesmos motivos, fica receoso ao raciocinar que está se metendo num meio malvisto por todos, pondo em risco sua reputação. E aí, na maioria das vezes, joga no lixo esta intenção, por puro preconceito e pela danosa generalização.
Acredito que o melhor lugar para se exercer um mandato eletivo é o município, a cidade onde moramos. Aqui não é preciso abandonar seu trabalho como faz um deputado em São Paulo ou em Brasília. Qual de nós poderia, elegendo-se senador ou deputado, permanecer em outra cidade que não a nossa, sem ter prejuízo, por exemplo, quando do término do mandato. Só pessoas com grande poderio econômico é que podem enfrentar esta situação de exercer cargos alhures. O prefeito e o vereador são pessoas da própria comunidade e não devem ser incluídos no rol dos políticos profissionais, que ao abandonarem seus redutos nos deixam preocupados com suas atuações, sem nenhuma fiscalização, e todos nós sabemos que os meios de cooptação possuem tentáculos longos e eficazes. É aí que eu quero chegar. Os cargos eletivos de uma cidade e os seus postulantes, bem como os eleitos, são aqueles onde o preconceito deve ser repensado, para que tenhamos uma melhoria no nível destes elementos que compõem esta categoria.
Uma pessoa que queira se candidatar a um cargo no município não pode receber a odiosa pecha de oportunista só por causa desta decisão, penosamente tomada. No município é diferente. Os desonestos logo aparecem e o povo já não é mais aquela massa de manobra facilmente manipulável.
Se ao menos na esfera municipal este preconceito contra o político for se dissipando, teremos num futuro próximo menos candidatos oportunistas e mais pessoas bem intencionadas tentarão se eleger sem correr o risco de serem pré-avaliadas por um preconceito fatal à democracia.
Se pessoas de bem forem maioria entre os candidatos numa eleição, o nível se eleva, as baixarias diminuem, os ataques pessoais arrefecem e após terminado o pleito, vencedores e vencidos se abraçam e as perseguições políticas - outro câncer na municipalidade - também deixarão de existir.
É um trabalho de purificação democrática que inclui outros tópicos coadjuvantes que envolvem eleitores e candidatos, na tentativa de aperfeiçoar um fato político importante numa comunidade, que são as eleições municipais. (O autor, Marcondes Serotini Filho, é ortodontista, cronista e autor dos livros “O Sonho: Crônicas Escolhidas” e “Os caçadores de Tisrisco”)