30 de maio de 2026
Articulistas

Promessa é dúvida


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Diz a lenda que os aliados venceram a II Guerra Mundial porque conseguiram desvendar um código secreto considerado indecifrável pelos nazistas, sem que eles soubessem disso. Além disso, também criaram e aprimoraram seus próprios códigos, transformando a criptografia numa ciência respeitada: a ciência do engodo.

A necessidade de iludir os inimigos não ficou só por aí: idiomas e dialetos desconhecidos também foram utilizados com o mesmo propósito. Assim, o sucesso no embate direto era obtido fazendo o adversário não entender nada do que estava sendo planejado ou entender tudo errado. Às vezes, nem embate havia... A única forma de evitar ser ludibriado vinha da espionagem, treinada ou cooptada, esta última também conhecida como traição.

Bom, alguém me decifre o discurso político, por gentileza! O apelo se justifica por vários motivos. Primeiro: todos os candidatos fazem discursos extremamente parecidos, mesmo os que afirmam estar, ideologicamente, em extremos opostos. Segundo: depois da posse, com raríssimas exceções, eles esquecem os compromissos assumidos com os eleitores, mas nunca admitem isso. Terceiro: diante das câmeras e microfones afirmam uma coisa, mas nas votações fazem o contrário, sem perder a pose. Quarto: depois de fazerem o oposto do que prometeram, voltam a pedir votos, com o mesmo discurso; tripudiando com o eleitor ao afirmar: “Você me conhece!”.

Será que política é algo claro ou é mais uma linguagem cifrada da criptografia do engodo? Promessa política é dívida ou dúvida? Digo isso porque duvido que algum eleitor vote num candidato que prometa apoiar o aumento de alíquotas de tributos ou a criação de novos. Não vota, tampouco, naqueles que falam de austeridade financeira, para nós; mas aumentam, sem o menor escrúpulo, seus próprios proventos, ou só de quem interessa (...)

Será que os políticos não se incomodam com a nódoa de “balcão de negócios” que circunda as casas de leis do País? Será que acreditam de fato que estão representando e cumprindo a vontade do povo? Ou será que já assumiram a criptografia como linguagem formal: dizer uma coisa pensando noutra? Se a última opção for a correta, então o povo, que ainda não entende essa linguagem cifrada, esse dialeto político, precisa de mecanismos mais efetivos e diretos, para controlar seus eleitos durante os mandatos. Se não for pelo decoro e coerência - que é facultada a eles próprios - que seja por outros dispositivos disponíveis na Constituição. Assim, se matéria orçamentária - incluídos os aspectos tributários - só pode viger para o exercício seguinte, que propostas de taxas, tarifas e tributos sejam objeto de plebiscito!

O quê? Como isso vai ser impossível governar? Os políticos eleitos já são legítimos representantes do povo? Mas que legitimidade é essa? Apenas do voto, sem representatividade ou coerência efetivas? O atual momento democrático tem mostrado que, se a eleição é legítima, o exercício do mandato raramente é coerente. Prova disso é o nível abissal da credibilidade da classe política brasileira. Os plebiscitos e referendos são instrumentos democráticos, embora caros, em princípio; mas nada impede que sejam associados a processos eleitorais regulares, reduzindo os custos.

A maior rejeição a essa proposta virá, obviamente, de membros da própria classe política, que não apreciarão ver sua influência reduzida ou desautorizada, pelo exercício direto da democracia; mas, quem sabe essa luz sobre a sombra acabe com esse dialeto incompreensível, que distorce e adultera os anseios populares. Talvez, afinal, esses dispositivos nem sejam necessários, desde que essa casta renitente de políticos volúveis deixe de ser mera atravessadora e cambista, para ser, efetivamente, porta-voz dos eleitores. E alguém disse, há muito tempo: “O poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido!”.

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro, professor universitário e articulista