08 de julho de 2026
Polícia

Homem morre em confronto com a PM

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Um homem ainda não identificado, de aproximadamente 25 anos, morreu ontem pela manhã em confronto com policiais militares num descampado no bairro Santa Fé. Antes de ser alvejado por projéteis, o rapaz teria disparado três vezes contra uma equipe da Base Comunitária de Segurança Noroeste, que se deslocou até a quadra 14 da rua Juvenal Bastos para coibir um furto à residência.

Quando os três policiais chegaram ao local indicado pelo Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), o rapaz tentava fugir com quatro panelas (uma delas com arroz cozido dentro), três tampas, duas assadeiras, duas marmitas e um liqüidificador, envoltos num saco plástico vermelho.

“Os policiais desceram da viatura (em frente à casa furtada) e saíram ao encalço gritando para que ele parasse. Mas ele correu pelo descampado (nos fundos do Cemitério Cristo Rei), virou para os policiais e efetuou um disparo na direção deles. Os policiais revidaram e ele mais uma vez tentou evadir-se. Depois, virou para trás e fez outros dois disparos”, explica o comandante da Base Comunitária Noroeste, tenente Samuel Gomes.

De acordo com ele, os PMs reagiram com quatro tiros, que teriam provocado duas perfurações no tórax e uma no abdômen do rapaz. “Ele foi desarmado e socorrido pelos policiais ao Pronto-Socorro Central (PSC), onde chegou com vida”, diz. No entanto, o rapaz não sobreviveu aos ferimentos.

Até o fechamento desta edição, ele ainda não havia sido identificado, mas a PM acredita que ele seja membro de uma família conhecida do meio policial por praticar crimes contra o patrimônio, como furtos e roubos.

A arma que ele portava, um revólver calibre 38 com cinco cartuchos, sendo que dois estavam intactos, foi apreendida pelo delegado do 1º Distrito Policial (DP), Elizeu de Freitas Costa, que a encaminhará à perícia. O mesmo procedimento foi adotado com as armas dos policiais. Também foram apreendidos um facão e um pedaço de ferro, supostamente utilizados pelo rapaz para entrar na casa.

“Achamos no quarto um facão, que a vítima (proprietária da residência) diz não ser dela. Deve ter sido usado para abrir a janela por onde ele entrou. Localizamos ainda uma cantoneira. Ele também tentou entrar na casa pela janela da cozinha”, informa Costa.

Ao entrar na residência, o rapaz deve ter se ferido, pois havia pequenas marcas de sangue na geladeira e nos armários da cozinha. Ele teria comido e tomado refrigerante antes de deixar a casa. Na saída, ao entrar no descampado situado em frente ao endereço da vítima, ele encontrou na rua com Alzenir Pereira Santiago, que acionou o Copom.

“Eu estava vindo da padaria e da rua ouvi um barulho na janela (da casa furtada). Fiquei com medo e entrei na casa de um vizinho. De lá liguei para a polícia. Depois, voltei para o portão para ver quem era. Olhei para a cara dele, mas não o reconheci. Ele apontou a arma para mim e pediu para eu entrar”, conta a moça de 24 anos, que é filha de Maria do Carmo Lemes Moraes, proprietária da casa furtada.

Alzenir, que mora a duas casas da mãe, permaneceu na rua até a chegada da viatura policial. Com um gesto, ela teria indicado aos policiais o responsável pelo furto andando pelo descampado. Após presenciar o primeiro disparo que teria sido desferido pelo rapaz, ela correu para o fundo da casa e garante não ter ouvido mais nada. “Fiquei muito nervosa”, afirma.

Horas mais tarde, continuava ansiosa Maria do Carmo Moraes, que soube do furto no local de trabalho, através de um telefonema da filha. “Aquele arroz era para o meu cachorro”, comenta. Ela esteve no 1º DP, onde a ocorrência foi registrada como furto e resistência seguida de morte. Um inquérito policial foi instaurado.

“Vamos apurar em que circunstâncias e condições ocorreu a morte. Segundo as provas que eventualmente foram colhidas, os policiais teriam agido em legítima defesa e no cumprimento do dever, haja vista que o autor do furto não obedeceu a ordem de parada dos policiais e ainda revidou com a arma que portava. Pedi o exame residuográfico da mão dos policiais e do autor”, conclui Costa.

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Caso é o sexto no ano

As ocorrências policiais que resultam em morte durante confronto com a PM deixaram de ser esporádicas em Bauru. Em um ano, cinco outros casos foram registrados, sem incluir o de ontem. Todos se concentram em áreas próximas, como o Jardim Primavera, o Parque Jaraguá e o Núcleo Habitacional Leão XIII.

Por causa de ocorrências da mesma natureza, o Comando de Policiamento do Interior-4 (CPI-4) vem tentando reforçar para os policiais que eles devem zelar, em primeiro lugar, pela preservação da vida. Para tanto, o titular da Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo, Itajiba Farias Cravo, esteve em Bauru em abril.

Ontem, Cravo cumpriu um compromisso externo e não foi localizado pelo JC para comentar as possíveis razões dos confrontos. Já o comandante da 3ª Companhia da PM, Flávio Jun Kitazume, aponta a precariedade social e de infra-estrutura da área como um dos fatores responsáveis pelas ocorrências. De acordo com ele, estatísticas indicam a região como a maior em incidência de crimes contra o patrimônio.

“Esta região, do ponto de vista da infra-estrutura, é carente. Falta pavimentação e iluminação. Esse é só um dos aspectos. Lá também falta emprego, tem a proximidade com as unidades prisionais. Foge no nosso alcance (a resolução dessas carências), mas acaba estourando na mão da polícia”, conclui Kitazume.