Ora empregado, ora não, Carlos Roberto Figueiredo levou 13 anos para construir sua moradia ainda inacabada no Alto do Pousada 2, em Bauru. Apesar do esforço, ele sente vergonha em receber os amigos em casa por causa de um descampado em frente, que transformou-se num depósito de lixo. O constrangimento é ainda pior por causa da ameaça de leishmaniose, motivo pelo qual ele pediu providências ao poder público.
Por causa de reclamações como a dele, 555 munícipes foram notificados pela Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) a limpar e capinar terrenos só no mês passado. O número é 236% maior que o registrado no mesmo período do ano passado, quando foram notificados 165 proprietários.
“Eu trouxe o pessoal da Regional São Geraldo para ver, mas ninguém veio limpar. Quando vem gente aqui (em casa) cai a cara da gente no chão. Dá vergonha. Mas o que mais tenho é medo da leishmaniose”, diz Figueiredo, que é presidente da Associação de Moradores do Alto da Pousada.
Ele sabe que a doença é transmitida a animais e homens através da picada do mosquito palha, que procria-se em material em decomposição.
Ela atinge preferencialmente o fígado, o baço, os gânglios e a medula óssea, provocando processo infeccioso e anemia, que pode reduzir as chances de vida do paciente. Neste ano, 15 pessoas foram infectadas e três morreram.
“Daqui a pouco vai aparecer gente doente por aqui. O pessoal joga cachorro, gato, galinha mortos no terreno. Se olhar, você acha fralda, calcinha, absorvente. É insuportável. O cheiro de carniça embrulha o estômago. Também jogam sofá, sanitário, pneu, pinha de cozinha”, conta.
O problema não é exclusivo do Alto do Pousada 2, na Vila Dutra, onde a incidência de casos de leishmaniose em animais e humanos é grande, vários terrenos também se transformam numa espécie de lixão.
“Aqui o lixeiro passa às 9h e às 9h30 tem vizinho saindo com saquinho na mão para jogar às margens da rodovia Bauru-Jaú (Comandante João Ribeiro de Barros). Cansei de enterrar animais mortos. Você vai falar com eles (os vizinhos), mas eles não têm educação. Dá vergonha quando chegam parentes. Ontem vieram (a prefeitura) limpar”, conta o morador da Vila Dutra Dirceu Marques.
Ele não acredita que o terreno permaneça limpo por muito tempo, assim como Figueiredo. “Eu coloquei placa de que é proibido jogar lixo num dia e no outro tiraram. Agora eu vou vigiar para pegar em flagrante quem joga o lixo. É gente da rua mesmo”, afirma o presidente da associação de moradores, que mora na quadra 1 da rua Renato Rossi Vieira.
____________________
Multas
O secretário municipal de Planejamento (Seplan), Silvio Osni Bianconcini, atribui ao medo da leishmaniose a disparada no número de notificações para capinação e limpeza de terrenos.
Por essa razão, ele pediu atenção especial no atendimento dessas solicitações aos fiscais da Seplan.Quando uma denúncia chega até eles, ela é confirmada. Em caso positivo, o proprietário é localizado e notificado a limpar o terreno num prazo estimado de dez dias.
Transcorrido o período, os ficais retornam ao local e, se a limpeza não foi providenciada, são emitidos um auto de infração e uma multa, cujo valor varia de 6% a 10% do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). Em caso de reincidência normalmente o valor dobra, informa Bianconcini.
“Após executado o serviço, cabe ao proprietário comunicar a prefeitura. Se não avisar, a multa vai caminhar normalmente. Recentemente, a prefeitura publicou (no Diário Oficial do Município) um decreto autorizando a prefeitura a executar a limpeza em áreas particulares”, informa o titular da Seplan.
Graças à iniciativa, a Secretaria das Administrações Regionais (Sear) removeu 500 caminhões de lixo entre agosto e no início deste mês.