“É uma boa casa, mas ela foge um pouco da nossa cultura. Nós somos índios e perdemos muitas coisas importantes, como a nossa floresta”, disse o índio Davi Henrique da Silva Pereira, 17 anos, enquanto assistia à solenidade de entrega de 30 residências aos moradores da reserva indígena Araribá, em Avaí (39 quilômetros a noroeste de Bauru), pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).
Desde ontem, mais de 130 índios que vivem nas aldeias Ekeruá, Kopenoty, Pyhau, Nimuendaju e Tereguá trocaram suas antigas casas feitas de sapê ou barro por residências de alvenaria. Com 63,24 metros quadrados de área, essas residências possuem dois dormitórios, sala, cozinha com fogão a lenha e chaminé, banheiro, área de serviço e varanda coberta.
A infra-estrutura proporcionada pelas novas casas agrada aos índios, mas também divide opiniões na tribo Ekeruá. Alguns moradores se mostram preocupados em perder sua identidade cultural, que tem como um dos traços a moradia em ambientes rústicos. “As casas que ganhamos saem um pouco de nossas características. É bom ter conforto, mas temos nossa raiz e não queremos perder isso”, diz o vice-cacique Júlio César Pio, 38 anos.
O índio Lourenço de Camilo, 29 anos, concorda, mas ressalta que a tribo precisa acompanhar a evolução da sociedade. “A gente não tem mais capacidade de desenvolver tudo na aldeia. Hoje é diferente. Temos que acompanhar o tempo”, aponta. A esposa do cacique da aldeia Ekeruá, Clementina Luiz, 63 anos, discorda. “A casa é muito boa. E não vamos perder nossa cultura nunca”, afirma.
Durante a cerimônia de entrega das chaves, um grupo de índios de Araribá apresentou a dança da chuva. Vestidos com saias e cocares típicos, eles entoaram canções na língua terena e provaram que a identidade cultural indígena mantém sua força natural. “Continuaremos a preservar nossos costumes”, destaca Lourenço, que é coordenador cultural da aldeia Ekeruá.
Alckmin enfatiza que alguns detalhes colocados nas residências, como o fogão de lenha e áreas para colocação de redes, promete manter as raízes indígena. “As moradias preservam a identidade cultural, dentro da aldeia. É um resgate histórico importante”, diz.
Escolas
As casas entregues aos índios de Araribá são frutos de um investimento de R$ 705,2 mil. Os imóveis foram viabilizados pelo programa Pró-Lar Moradias Indígenas, realizado pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) em parceria com a cidade de Avaí, Fundação Nacional do Índio (Funai) e Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
Ontem, foram inauguradas duas escolas estaduais para os índios: a Aldeia Nimuendaju e a Aldeia Indígena Kopenoti. Com custo aproximado de R$ 200 mil, as unidades possuem duas salas de aula, salas administrativas e área de vivência.
“Essas escolas preservam a nação indígena”, destaca Alckmin. O prefeito de Avaí, Reinaldo Rocha (PSDB), tem a mesma opinião. “As crianças têm, hoje, professores se sua língua. Isso é nada mais do que o resgate da dignidade da população indígena”, aponta.
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