10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Jornal em classe dá nova cara ao ensino

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 9 min

Em 1996, o jornalista, cineasta e historiador Gilberto Martins coordenou a implantação do programa socioeducativo do jornal ValeParaibano, de São José dos Campos. O objetivo era levar a mídia impressa para a sala de aula como subsídio pedagógico. A iniciativa acabou dando certo e inspirou a criação de um modelo de capacitação de professores que começou a ser implantado este ano.

A exemplo do ValeParaibano, outras empresas jornalísticas que integram a Associação Paulista de Jornais (APJ) também seguiram a receita dos programas socioeducativos, entre elas o Jornal da Cidade, que criou há dois anos o projeto JC na Escola.

No total, cerca de 400 mil alunos em todo o Estado já utilizam o meio de comunicação impresso durante o seu aprendizado nas instituições de ensino. “Nossa meta para o próximo ano é atingir 1 milhão, porque o jornal em sala de aula é uma ferramenta fundamental”, destaca Martins, que também que é coordenador do Núcleo de Educação da APJ.

Para atingir essa meta, ele conta com o curso de capacitação AulaCom: Jornal, desenvolvido em parceria com o Centro de Apoio Didático e Pedagógico da Fundação Imprensa. No último mês, cerca de 1,3 mil professores de Presidente Prudente tiveram a oportunidade de ter contato com o modelo, que deve ser levado para outras cidades no próximo ano. Martins esteve em Bauru participando, na última quinta-feira, do 1.º Seminário da APJ. Antes do evento, ele conversou com a reportagem do JC. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Como surgiu a idéia de desenvolver um programa que estimulasse o professor a trabalhar com o jornal em sala de aula?

Gilberto Martins - O jornal na educação não é uma idéia nova e, muito menos, uma idéia brasileira. A primeira pessoa na história a usar o jornal na sala de aula que se tem notícia foi Maria Montessori (educadora italiana), há quase 150 anos atrás. Ela percebeu que se usasse o cotidiano interdisciplinarmente, com geografia, história e ciências, teria a adesão dos estudantes. Isso significava tê-los à disposição para conversar e a conversação ainda é um fato, dentro da escola, muito difícil. O professor ainda acha que só ele é quem deve falar. Esse monólogo, no entanto, às vezes é muito cansativo e menos informativo. Com a diversidade das mídias que temos hoje, o estudante acaba levando mais informação para a sala de aula do que o próprio professor. Ele, estudante, que assistiu ao ‘Jornal Nacional’ e leu dois ou três jornais no dia anterior, tem mais elementos para discutir um assunto sobre ciências do que a própria professora que, por falta de tempo, não teve oportunidade de ter aqueles outros elementos suplementares de informação. O jornal faz isso na sala de aula, ou seja, no primeiro momento cria a conversação, em que todos podem se entender. No segundo momento, gera uma atuação isolada, que é a leitura. O jornal proporciona isso para o estudante, porque apresenta textos pequenos. Um texto de 30 ou 40 linhas, por exemplo, já divulga um fato com começo, meio e fim. A facilidade do jornal como elemento de leitura começa aí para o não leitor. Além disso, há jornais que usam, em média, 300 ou 400 palavras em seu vocabulário. No mês passado, quando o Lula visitou um porta-aviões, eu estava vindo de Araçatuba e parei em um posto de gasolina. Peguei um jornal e estava lá: ‘Presidente visita o navio aeródromo’. Ao lado, outro trazia: ‘Presidente visita porta-aviões’. Por um lado, você cria um bloqueio ao usar ‘aeródromo’, mas por outro lado incentiva a pessoa a ir até o dicionário, hábito que não temos, tanto que o apelidamos de ‘pai dos burros’. Isso é um absurdo. Vejo que, até mesmo nas redações, as pessoas ficam constrangidas para consultá-lo e deveria ser exatamente o contrário.

JC - E qual a importância do curso AulaCom:Jornal dentro desse processo?

Martins - Eu não diria que é massificar, porque massificar é uma palavra voltada para o consumo. Massificar lembra ‘Danone’, marca de iogurte que se transformou em sujeito, assim como falamos ‘Nescau’ quando vamos comprar um achocolatado. Quando a gente pensa como marqueteiro, acaba ficando um pouco constrangido. Mas, voltando à questão, o jornal nos ajuda a ter uma amplitude maior sobre nossas próprias dúvidas. Somos consumidores ou consumistas? Deveríamos ser apenas consumidores, ou seja, comprar apenas o que consumimos. No entanto, a mídia de certa forma nos induz a comprar até mesmo aquilo que normalmente não compraríamos. Daí a razão de, às vezes, a gente invadir as geladeiras à noite. Discutimos isso na sala de aula, porque faz parte do nosso cotidiano e o jornal leva esse cotidiano até a sala de aula. Podemos discutir a sexualidade na aula de geografia, com uma fotografia da praia na primeira página do jornal. Também levamos o aluno a discutir saúde e higiene e debater o porquê daquelas pessoas serem tão bonitas, nadarem tantos metros e por aí adiante. Isso nada mais é do que o cotidiano, e o jornal tem essa propriedade. Tradicionalmente, os programas socioeducativos eram muito pequenos. Isso acontece com todos os jornais, porque a capacitação é um pouco difícil em razão de não termos, volto a afirmar, a conversação em sala de aula e o professor-leitor. A questão operacional também é um pouco complicada, porque nós distribuímos jornais novos. Não distribuímos os que ficam encalhados. Para tentar contornar isso, o Núcleo de Educação da APJ desenvolveu uma metodologia nova, que é proporcionar a massificação desse curso. Não fizemos nada de novo. Apenas colocamos a didática, que é a técnica de ensino, ao lado da pedagogia, que é a política do ensino. Se conhecemos bem as duas, por que não usá-las juntas? É o que nós estamos fazendo. Com a Fundação Imprensa, presidida pelo Renato Zaiden (diretor administrativo e de marketing do JC), desenvolvemos nos últimos quatro anos uma metodologia e uma linguagem de ensino que nos proporciona capacitar em uma semana mil professores. E todos saem muito satisfeitos com o que vêem, porque de certa forma mostramos a eles o óbvio. A nossa vida contemporânea está nos afastando um pouco do óbvio. Recebemos tanta informação que as coisas ficam um pouco nebulosas para o nosso lado. A gente não olha mais com tanta clareza como deveria olhar. Falta de leitura? Certamente, porque você não raciocina mais aquele volume de informação que chega pela mídia eletrônica. O importante é que você pode perfeitamente sintetizar todos esses fatos por intermédio da mídia impressa, no caso, o jornal.

JC - Como está o cronograma de implantação do curso?

Martins - Ele já foi implantado em Presidente Prudente. O jornal O Imparcial não tinha programa socioeducativo, mas decidiu criá-lo e ele já nasceu grande. Nós capacitamos, em quatro dias, 1.383 professores. O resultado foi excelente. Gastamos na elaboração desse curso 30% em pesquisa. Quando o professor chega na sala de aula, responde um questionário. Quando ele sai, responde outro. Com esses dois questionários, podemos ver as expectativas dele antes de chegar na sala de aula e as perspectivas ao sair. Temos, então, um perfil do professor. Vamos agora para Araçatuba, no próximo mês, e depois para Araraquara, no próximo ano, com uma abrangência maior.

JC - Depois de trabalhar oito anos com os programas socioeducativos, o senhor diria que o jornal é hoje fundamental em sala de aula?

Martins - O jornal na sala de aula é fundamental desde o tempo em que eu era criança na terra do Jeca Tatu, que é Taubaté. Eu fui para a sala de aula em 1951 e lia o Estadão, o Globo e o Jornal do Brasil. Desde 1870, como eu já disse, se usa jornal na sala de aula, mas empiricamente, ou seja, cada qual a seu modo. Por que não reunir todo mundo e desenvolver uma metodologia? Foi o que fizemos. Por incrível que pareça é uma idéia simples. Você olha e pergunta se é mesmo só aquilo. É o óbvio. Nós simplificamos a atitude do professor em relação ao seu estudante. Ele incorpora, como coadjuvante, o estudante na apresentação da disciplina e leva consigo a temática transversal. O jornal fica sendo o elo entre a disciplina, seja ela qual for, e a temática transversal, seja ela ética, consumo ou trabalho. Com isso, você discute matemática com o caderno Classificados, porque ali tem valor de prestações, preço do carro, juros. O mesmo ocorre com a botânica, a química e a física. Quando você vende um refrigerador, por exemplo, pode refletir sobre os efeitos que ele terá na camada de ozônio. O jornal também permite que o professor seja mais criativo. A aula ideal é uma autêntica aventura como as do Indiana Jones, que por sinal é um professor. Se você está dando uma aula sobre o Napoleão Bonaparte e tem ao lado um jornal que traz a matéria do cavalo do quitandeiro da esquina que morde a mão do dono da mesma maneira que ocorria com o cavalo do Napoleão, e daí o fato dele escondê-la dentro da casaca, você humaniza a aula. O aprendizado é isso. Ele não é tão específico quanto se julga ser. O Dalai Lama, quando esteve no Brasil, falou para o presidente Fernando Henrique Cardoso que a escola calcula demais e, por isso, se desumanizou. Devemos nos afastar de tantos cálculos estruturais e hidráulicos.

JC - Ainda há resistência de parte dos professores em aceitar o jornal como subsídio pedagógico?

Martins - Sim, e por um momento muito simples: a falta de leitura, embora o jornal seja um elemento adequado e fácil de ser lido. A cada 40 linhas, você entende um fato. Mesmo assim, falta leitura. Infelizmente, nós não somos mais um País leitor e sim um País ouvinte de rádio e telespectador de televisão.

JC - Como mudar esse quadro?

Martins - Nas escolas, aprendemos que o jornalismo deve ter um bom noticiário e a prestação de serviços. Acho que o jornalismo atual se afasta, porém, um pouco disso, principalmente da prestação de serviços. O que temos hoje como fórmula de venda de livro é a aventura e a auto-ajuda. Se pegarmos essa fórmula e a levarmos para o jornalismo, será melhor. O noticiário, de certa forma, é um aventura. A auto-ajuda, por sua vez, é uma prestação de serviços.

JC - O JC criou há dois anos o programa JC na Escola e, no ano passado, implantou o projeto Praças de Leitura, que cria um espaço diferenciado dentro das escolas para que os alunos e a comunidade possam ter acesso ao jornal. Como o senhor avalia essas duas iniciativas?

Martins - O programa socioeducativo do JC também começou grande. Na época, em 2002, quando ajudamos na implantação do programa, esse novo modelo do curso AulaCom:Jornal ainda estava no meio. O JC nos ajudou a desenvolver parte da pesquisa e da elaboração do uso da didática e da pedagogia simultaneamente. Já as praças de leitura são importantes porque recuperam o hábito da leitura que, como todo hábito, precisa ser praticado.