09 de julho de 2026
Geral

Criador revela segredos para um pássaro tornar-se campeão

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Canto clássico, livre, goiano, alta mogiana, flauta. Para leigos, é difícil acreditar que estas são algumas das modalidades de canto de pássaros competidores. Ontem, estiveram em Bauru cerca de dois mil deles, que participaram da etapa local do 32.º Torneio Brasileiro de Curió, Bicudo, Trinca-Ferro, Canário-da-Terra e Coleira.

Criar pássaros competidores geralmente é uma paixão e uma ciência. Muitos segredos estão por trás do canto “perfeito” - como dizem os criadores.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, João Paulo Saggioro, criador de bicudos, revelou alguns. O primeiro deles é o amor à atividade. “Se não gostar, não tiver jeito e aptidão para a coisa, dura pouco. Mas quando nasceu para aquilo, praticamente morre com aquilo”, sentencia.

Ele explica que os criadores de pássaros de canto geralmente começam com filhotes puros (de boa linhagem), que ainda não têm vícios e, portanto, teriam mais chances de desenvolver todas as notas do seu tipo de canto.

“Pássaro perfeito é aquele que tem qualidade de canto completa. Ele tem que ter uma seqüência de notas, todas colocadas no local certo, com a melodia correta”, diz.

O primeiro obstáculo para um canto “perfeito” é a convivência dos pássaros. A proximidade com animais que tenham outro tipo de canto ou que não emitam todas as notas pode lhes prejudicar a melodia. “Pássaros aprendem cantos bons ou ruins. Hoje é muito difícil ter um pássaro perfeito”, conta Saggioro.

O bicudo é um pássaro silvestre que está próximo à extinção e que tem os seguintes tipos de canto - goiano, originário da região de Goiânia; canto alta mogiana, da região de Ribeirão Preto (SP), e canto flauta - porque assemelha-se ao som emitido pelo instrumento musical.

“Há 30 ou 40 anos, quando eles ainda eram encontrados soltos, pássaros da mesma espécie variavam o canto dependendo da região do Brasil”, diz o criador.

Saggioro cria um bicudo de canto alta mogiana chamado Brioso. Ele foi vice-campeão brasileiro em 2003 na categoria canto.

Cada pássaro aprende apenas um tipo de canto. “O que é muito comum acontecer é o pássaro mudar o canto no decorrer do tempo. Isso se dá por influência de outros pássaros ou por um processo natural. A luta dos criadores que mexem com canto é fazer o pássaro manter o canto. É um desafio”, destaca.

Por esse motivo, para ser criador de passarinho é preciso ter bons ouvidos. “Quando você cria, vêm os filhotinhos. Alguns aprendem o canto com o pai, outros não. É preciso ter bom ouvido e observar direitinho para separá-los. Não deixar que os que estão bem encaminhados ouçam o canto errado”, explica.

Outro detalhe é que apenas os machos são pássaros de competição porque só eles são capazes de emitir um canto completo. “O canto da fêmea é estridente, talvez só para demarcar o território dela em época de reprodução”, afirma Saggioro.

Nesse período, a fêmea acaba sendo outra ameaça ao canto do macho. “Às vezes, a fêmea começa a cantar na época da criação e pode atrapalhar os passarinhos de canto. Tem que observar. É uma ciência, existem algumas técnicas”, salienta.

É difícil conciliar criação de pássaros e treinamento de pássaros de canto. Os pássaros-mestres, de canto perfeito, devem ficar a uma distância mínima de 20 metros dos demais.

Outro segredo é gravar o canto de um pássaro perfeito e tocá-lo para o animal algumas vezes durante o dia. “O CD é para o pássaro manter a linha de canto dele. E também ajuda a ensinar os filhotes. Mas o passarinho não precisa ouvir o dia todo. Senão ele estressa”, adverte.

No dia-a-dia, são imprescindíveis os mesmos cuidados dispensados a qualquer outro animal de estimação, como higiene e boa alimentação. Saggioro tem cerca de 30 bicudos. Ele acorda cedo para cuidar dos animais, aos quais dedica cerca de uma hora por dia.

“Eu crio bicudos há 18 anos, mas eu sempre tive passarinho. Eu comecei cedo porque meu pai tinha”, conta.

Embora seja um hobby, ele admite que o trabalho é difícil e exige sacrifícios. No caso dele, o tempo e a atenção diários são divididos entre os pássaros e o trabalho na sua empresa de consultoria em informática.

“Tenho de acordar mais cedo, muitas vezes deixar de fazer algumas coisas do dia-a-dia para me dedicar aos pássaros. No mínimo, gasta-se uma hora por dia. E tem que estar vigilante, prestando atenção em todas as notas do passarinho. Tem que estar sempre atento”, frisa.

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Fibra

No torneio realizado pela Sociedade Ornitológica Regional de Bauru, através da Federação Brasileira de Criadores de Pássaros, além do canto, existe também a modalidade fibra.

Nesse tipo de competição, não importa a qualidade do canto. Vence o pássaro que cantar mais. “Ele tem que cantar o máximo possível, enfrentar os outros que estão próximos e agüentar o quanto puder. São vencedores os que chegam ao fim cantando mais”, diz o criador João Paulo Saggioro.

Ele garante que os animais não sofrem durante a competição. “São pássaros preparados e treinados para isso. Eu diria que não é sofrimento. Até porque quando ele tem a fibra ele quer mesmo enfrentar os outros. Se ele estivesse solto, ele estaria brigando com outros pássaros. É da natureza dele. Por isso mesmo não é qualquer animal que pode participar”, explica.