São Carlos - Isabel de Souza Tortoreli era, até alguns anos atrás, mais uma das desempregadas brasileiras com dificuldades de sobrevivência e, talvez, implorando por assistência do Estado. Hoje, com um sorriso rasgado e o orgulho no teto, afirma: “Eu sou um tipo de coordenadora, eu coordeno o pessoal todinho lá da cooperativa”. Isabel trabalha na Cooletiva, que juntamente com a Ecoativa e a Coopervida, atua na coleta seletiva urbana de São Carlos (150 quilômetros a nordeste de Bauru).
Além de colaborar para a melhoria do meio ambiente, um projeto de inclusão social, a cooperativa de coleta seletiva não visa apenas ganhos à cidade, mas também para seus cidadãos. A frase inicial de Isabel já diz tudo. Através dela, é possível perceber o quão gratificante e saudável o trabalho é, principalmente para os menos favorecidos. Não traz apenas dinheiro para o bolso, mas renova também a auto-estima da agora trabalhadora.
Primeiramente, os planos de Isabel envolviam a criação de um grupo de crocheteiras, mas comprar o maquinário e dar início à cooperativa eram passos difíceis para ela e suas companheiras, pois “o pessoal daqui é tudo pobre”.
Assim, quando tomou conhecimento das reuniões para a criação de cooperativas de coleta seletiva, Isabel logo se interessou, procurou descobrir o que era, arregaçou as mangas e, hoje, não apenas integra a Cooletiva, mas se tornou uma pessoa integrada ao processo produtivo da cidade, do Estado de São Paulo e do Brasil.
Mais do que economicamente ativa, ela desenvolve a consciência e responsabilidade com sua inserção social ao lado de outras tantas mulheres batalhadoras e que fazem do lixo qualidade de vida.
Como Isabel conta, de início não sabia o que era uma cooperativa, mas resolveu se envolver no projeto por necessidade. Com 31 anos, casada e mãe de três filhos, o marido de Isabel foi afastado do serviço por problemas de saúde e ela precisava dar a volta por cima e trazer dinheiro para casa.
E foi isso que impulsionou Isabel. Ela procurou saber, de fato, como funcionava uma cooperativa e, ao descobrir, não pensou duas vezes. “Eu descobri que, na verdade, eram várias pessoas trabalhando juntas, mas não como numa empresa, onde sempre tem aquele patrão a quem temos que obedecer e nos submeter. E era isso que eu queria. Um trabalho, sem patrão. Buscava um negócio próprio e a cooperativa é quase isso” avalia.
Depois de se integrar à Cooletiva, a vida de Isabel mudou muito. “Antes, eu me sentia muito submissa, agora, na cooperativa, me sinto livre para escolher o serviço que quero fazer”. E, mesmo observando que a convivência entre os cooperados às vezes é muito difícil, Isabel tem consciência da importância do grupo.
“Uma cooperativa não é como uma empresa, onde a gente entra, pica o cartão e vai embora. É preciso ser colega, senão o serviço não vale, de jeito nenhum. Eu aprendi a importância de fazer amizade com meus colegas e, hoje, sou amiga de todos lá dentro”, salienta.
Área atendida
Atualmente, 15 pessoas, na faixa de 21 a 70 anos, fazem parte da Cooletiva e, dessas, 13 são mulheres. A área coberta pela cooperativa corresponde aos bairros: Vila Prado, Cruzeiro do Sul, Pacaembu, Botafogo, Redenção, Boa Vista, Bela Vista e Jardim Ricetti.
Em média, por dia, coleta-se de 500 a 1.500 quilos por bairro. Não há uma divisão certa de trabalho dentro da cooperativa, pois, na opinião de Isabel, isso acabava dificultando.
Entretanto, mesmo que nem todos tenham tido o mesmo rendimento, na hora de repartir o dinheiro, a divisão é igualitária. “É preciso que a gente entenda que nem todo mundo pode fazer o mesmo tipo de serviço, como os mais velhos, por exemplo”, ressalta.
Isabel, antes desempregada e sem perspectiva, atualmente pode dizer: “As vezes meu marido até fica bravo comigo, pois estou sempre ocupada. Tenho que ir a reuniões, congressos e cuidar de tudo”.
Hoje, Isabel discursa firmemente sobre a importância da coleta seletiva e dos seus benefícios ao meio ambiente. E, inconformada, ainda completa: “A população ainda não entendeu direito o que é a coleta seletiva. Não sabe que no lixo pode ter material importante e reaproveitável e, às vezes, até sabe, mas ignora a importância de separar”.
(*) Do São Carlos News especial para o Jornal da Cidade