Eu e meu primo Jorge estávamos esperando nossa tia-avó na ferroviária de Pirajuí, para ajudá-la com as malas. Não exatamente porque éramos bons meninos, mas de olho nuns trocadinhos que ela sempre nos contemplava.
— Olha, é uma “tataluga”! Eu “zá” vi um monte de “tataluga” aqui em “Pilazuí” – meu primo Jorge apontou um casco se mexendo na outra plataforma, do outro lado das duas linhas dos trens.
Eu tinha oito anos, meu primo Jorge ainda não e também ainda não havia aprendido a lidar com erres e jotas. Meu primo Jorge sempre foi meio lerdinho.
— Vamos lá! – comandei, já pulando os trilhos.
(Se meu pai ou meu avô me vissem...)
— Quem “selá” o dono dela?
— Eu – e já pisei no casco do bicho.
— Mas eu vi “plimelo”.
— Jorge, nem falar direito você sabe. Como vai cuidar de uma tartaruga? Ela vai fugir. Sente em cima dela até eu voltar! – meti-lhe um croque e outra vez atravessei irregularmente os dois trilhos.
O jornaleiro me arrumou uma caixa de papelão de tamanho excelente, meu primo Jorge não teria qualquer problema em acomodar minha tartaruga.
O trem que traria titia apitou na curva, atravessei correndo para a outra plataforma pela passagem subterrânea, “ponha ela aí dentro e vá me encontrar com a titia, mas não corra!”, instruí meu primo Jorge e voltei a tempo de receber titia.
— Primo Jorge achou uma tartaruga e foi pegá-la para mim, titia. Mas eu ajudo a senhora sozinho – e, sozinho, ganhei alguns trocados.
Titia quase deu um grito quando viu o bicho. Na casa de Jorge, minha tartaruga não fez o sucesso que devia, apesar de eu garantir que Jorge a achara e eu tive de agarrá-la pelo pescoço quando quis morder primo Jorge.
Minha tia disse que a cabeça parecia de cobra. Meu tio falou que não era tartaruga, e sim um jabuti, e que jabuti não prestava para comer ensopado. Minha mãe torceu o nariz, não queria Clarisse (o nome que escolhi) no quintal, mas ouviu de meu pai que o jabuti era macho (virou Carlão), e ele, meu pai, faria um cercado porque presente de primo não se recusa. Menos ainda de primo Jorge. Primo que eu cuidava por ser menor e também gostava muito.
Ah, meu pai...
Meu tio ainda disse que, quando mordia, o jabuti só largava a presa se escutasse trovoada, podiam cortar-lhe a cabeça. Comentário que fez meu primo Jorge chorar de encher bacia e correr ao banheiro.
Meu primo Jorge sempre foi muito sentimental.
Isso já tem uns quarenta anos e Carlão, ao lado de sua Clarice (fêmea que meu irmão arranjou), vive nababescamente no quintal da casa de meus pais.
— Só falta lhe darem comida na boca... – até hoje primo Jorge visita o que chama de “nosso” jabuti.
Diorindo Lopes Júnior, é jornalista e autor de “O sol em Capricórnio” e “Cesta de 3”