Com o objetivo de buscar parcerias junto às universidades locais para capacitar pessoas que possam atuar em projetos diferenciados de inclusão social para a população carente, será apresentado em Bauru o projeto Economia Popular Solidária. Segundo Rosa Maria Morceli, uma das organizadoras do evento, entre os objetivos do projeto está a utilização do trabalho como oportunidade de resgate da dignidade.
Segundo Morceli, o projeto já é aplicado no Rio Grande do Sul (RS) há 25 anos, bem como em outras localidades, como Paraná, no Norte e Nordeste do País. Trata-se de uma iniciativa das pastorais sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Cáritas Brasileira. Em Bauru, o evento - que será no próximo dia 22, na Instituição Toledo de Ensino (ITE) - será promovido pela Cáritas e Mutirão para Superação da Miséria e da Fome, núcleo da Diocese local coordenado por Rosa Morceli.
“Na região de Bauru, a maioria dos projetos sociais tem uma vertente muito assistencial. O objetivo do Economia Popular Solidária é mudar isso e trabalhar com o associativismo, fazendo com que grupos de estudantes, empresários e pessoas da comunidade em geral participem do desenvolvimento de ações sociais que possam resgatar a dignidade das pessoas carentes. É preciso mudar a visão capitalista de lidar com projetos dessa áreaâ€, diz Morceli.
O ponto alto do encontro em Bauru será a palestra de Wagner Augusto Gonçalves, presidente da Associação Nacional de Trabalhadores em Empresas Auto-Gestionárias (Anteag). Como membro do Fórum Estadual de Economia Solidária, ele vai apresentar casos de sucesso a partir da implantação do projeto, como em São Paulo, Campinas, Araraquara e várias cidades do Rio Grande do Sul.
“A partir do encontro do dia 22, nós pretendemos formar um grupo de estudos com pessoas favoráveis ao trabalho associativista para elaborar e executar projetos de inclusão social. Esses grupos poderão envolver estudantes dos mais variados cursos universitários de Bauru, além de empresários e demais pessoas interessadas. A grande meta é gerar trabalho e renda para as famílias carentes por meio da união de esforços. Não adianta nada, por exemplo, ter uma cooperativa produzindo com uma visão capitalista. É preciso mudar essa culturaâ€, observa Morceli.
Reinaldo Cafeo, vice-diretor da faculdade de economia da ITE, observa que o presidente da Anteag também vai falar sobre uma nova forma de gestão econômica das empresas, em que o resultado financeiro é repartido igualmente em três partes: um terço fica para a empresa, um terço para os funcionários e colaboradores internos e um terço vai para a comunidade.
â€œÉ uma filosofia que transcende a responsabilidade social, que se limita a ter alguns projetos sociais desenvolvidos pela empresa. Esta filosofia é no sentido de distribuir renda, ou seja, o empresário capitalista abre mão de dois terços do seu lucro para favorecer seus colaboradores e a comunidade, por meio de projetos sociais que a própria empresa pode acompanhar. Esperamos estimular o empresariado localâ€, destaca Cafeo.
O empresário Claudemir Misquiati pondera que será uma tarefa difícil convencer a classe empresarial a utilizar essa filosofia. Para ele, seria necessário haver uma série de mudanças, como a redução da carga tributária e uma legislação trabalhista adequada ao cenário atual, para que isso possa ser feito.
“Temos uma carga tributária pesadíssima que recai sobre as empresas, uma das mais altas do mundo. Os empresários já participam de várias formas, tanto com os funcionários quanto com a comunidade. A construção do hangar para abrigar o helicóptero da Polícia Militar, por exemplo, está sendo possível com doações de empresários. É claro que muito mais pode ser feito, mas com a atual legislação trabalhista ficamos engessados em muitos casosâ€, avalia.