09 de julho de 2026
Geral

Pequeno investidor descobre a Bolsa

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 9 min

Num cenário econômico estável, as pessoas conseguem planejar melhor seus gastos e decidir o que fazer com suas economias. Um dos reflexos disso é que o mercado de ações está se popularizando no Brasil e sendo projetado como uma nova opção de investimento para quem busca liquidez sem medo de se arriscar. Com isso, é cada vez maior a participação de pequenos e novos investidores na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que vem desenvolvendo programas específicos para atrair esse público, como “A Bovespa vai até você”.

Nos próximos dias 24, 25 e 26, o analista e presidente da Associação Nacional dos Analistas Técnicos (Anat), Fausto de Arruda Botelho, estará em Bauru para ministrar um curso sobre aplicações no mercado de ações. Confirmando a tendência de popularização rápida, ele diz que foi convidado para vir à cidade por um grupo de pessoas interessadas em saber mais sobre Bolsa de Valores.

“A Bolsa tem despertado um interesse enorme nas pessoas físicas. Hoje em dia, muitos pais estão abrindo uma conta corrente para o filho numa corretora de valores em vez de comprar um videogame ou outro presente qualquer. Com R$ 500,00, é possível começar a operar no mercado de ações. Com o advento da Internet, ficou muito mais fácil chegar à Bolsa de Valores”, afirma Botelho.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida à reportagem.

Jornal da Cidade - O mercado de ações tem se mostrado mais acessível aos pequenos investidores. De que forma isso está acontecendo?

Fausto de Arruda Botelho - Antes do advento da Internet, os pequenos investidores eram mal atendidos. As corretoras não tinham uma quantidade suficiente de operadores para atender os pequenos. Mas agora a realidade é totalmente diferente. Na minha opinião, no futuro vão dizer que a Bolsa brasileira de ações teve o período antes e depois da Internet, porque com ela (Internet) todos os sites financeiros passaram a trabalhar para o pequeno investidor. Nesses sites existe todo o tipo de análise (do mercado) que você possa imaginar, tem cultura, área educacional, recomendação de livros, gráficos, enfim, tudo ficou muito mais fácil para os pequenos. Além disso tudo, criou-se a possibilidade de que esse investidor opere via Internet. Como isso não exige a contratação de um operador, as corretoras diminuíram muito o valor mínimo aceito para fazer uma aplicação na Bolsa. Hoje, se a pessoa tiver R$ 500,00, pode abrir uma conta numa corretora e começar a operar. E mais: a Bolsa de Valores está despertando um enorme interesse nas pessoas físicas em todo o Brasil. Há uma quantidade cada vez maior de estudantes, inclusive menores de idade, investindo na Bolsa. Muitos pais têm deixado de lado o videogame como presente e trocado por uma conta corrente numa operadora da Bolsa.

JC - Isso quer dizer que existe uma tendência de popularização dos investimentos em Bolsa no Brasil?

Botelho - Existe, sem dúvida nenhuma. Eu acho que nós temos de tirar o chapéu para o presidente da Bolsa Valores de São Paulo (Bovespa), Raimundo Mariano, porque ele está trabalhando de forma altamente eficaz para popularizar a Bolsa com diversos projetos. A Bovespa está comemorando 114 anos. O pai dele já havia presidido a Bovespa e tinha o sonho de torná-la popular. Agora, ele está realizando este sonho. Com o programa “A Bovespa vai até você”, ele tem apresentado o mercado de ações nos lugares mais inusitados. Ele levou a Bolsa para fábricas, escolas, shoppings, universidades, até para a praia. Agora, iniciou um projeto que consiste em deixar a Bovespa aberta para visitação aos sábados e domingos. As pessoas estão vendo que no mercado de ações podem conseguir rendimentos maiores do que os bancos oferecem, com as modalidades de aplicação financeira, como poupança, fundos de renda fixa, etc.

JC - Na sua opinião, o que mais poderia ser feito para estimular as pessoas e atingir o objetivo da popularização do mercado de ações?

Botelho - Eu acredito que o que pode ser feito já está sendo executado. Esses programas da Bovespa são ótimos. Além disso, como o interesse das pessoas pelo assunto tem aumentado, eu tenho sido chamado para ir a vários lugares e cidades ministrar cursos sobre o mercado de ações. O convite para o curso que vou dar em Bauru partiu de um médico que me disse haver um grupo interessado em saber mais sobre a Bolsa, mas que aí na cidade não há cursos sobre isso.

JC - Você é um analista técnico. O que exatamente significa isso?

Botelho - A análise técnica tem muito a ver com o pequeno investidor, e é importante que ele saiba que existem várias opções para se manter vivo no mercado de ações. Existem duas escolhas que podem ser feitas para tentar prever o comportamento futuro dos preços: a escola fundamental e a escola técnica. A fundamental estuda como os fatores fundamentais vão influenciar a massa de indivíduos que atua no mercado. Já a análise técnica estuda o comportamento dos indivíduos que atuam no mercado. É importante ressaltar que a massa é a média das opiniões de todos os participantes do mercado, ponderada em função do poder de fogo de cada participante. Um exemplo: se dez lambaris acham que a cotação vai subir e um tubarão acha que vai cair, acaba caindo mesmo. Por quê? Porque o tubarão tem mais poder de fogo do que os dez lambaris. A análise fundamental é muito ruim no timming. O analista pega uma ação para avaliar e, ao ver que ela está cotada a 40 (número para referência), chega à conclusão que ela deve estar cotada a 60. Aí, solta a recomendação para compra a 60. O problema é que, enquanto a massa não chegar à brilhante conclusão que este analista chegou, aquela ação não vai subir para 60. Já na análise técnica, o timming é muito bom, porque analisamos o comportamento da massa.

JC - Mas quem comanda a oscilação de preços no pregão?

Botelho - É a massa. E para estudar o comportamento da massa nós usamos o artifício dos gráficos. Então, quando um analista técnico olha os gráficos, ele está procurando analisar e interpretar o comportamento da massa. Ou seja, os gráficos são uma ferramenta com a qual nós interagimos visualmente com o comportamento da massa. Muitas vezes, essa observação nos dá indicações absolutamente precisas sobre o comportamento futuro da massa. Essa análise também serve para observar as forças do mercado ou os exércitos que estão constantemente em guerra no mercado. Existem os exércitos dos comprados e dos vendidos. Para exemplificar: o índice futuro é negociado na BM&F (Bolsa de Mercadorias e Futuros). No dia 8 de setembro havia 49.800 contratos em aberto, o que significava US$ 15,44 milhões. Naquele dia, a guerra travada na Bolsa era por esses milhões de dólares. Os analistas técnicos estão sempre de olho nos comprados e nos vendidos.

Em relação às avaliações a longo prazo, os analistas fundamentais dizem que na Bolsa não há erro no longo prazo. É mentira. Tem erro, sim. Por isso é que o pequeno investidor se dá bem com a análise técnica, pois essa escola observa o comportamento da massa num prazo muito mais razoável, mais curto. E para situações difíceis, é sempre preciso ter um plano B, que é a ferramenta da ordem de stop (ordem de parar). Ela vai limitar os prejuízos da operação. O que o investidor deve fazer sempre em Bolsa de Valores é limitar seus riscos, seus prejuízos, e não seus lucros. Por isso existe a ordem de stop.

JC - O que os investimentos feitos no mercado de ações significam para o País?

Botelho - Em primeiro lugar significa que está aumentando o volume de negociações na Bovespa, que por sua vez tem uma importantíssima função econômica no País, que é a de capitalizar as empresas a juros baixos. Ou seja, em vez das empresas irem ao banco pegar empréstimo, elas emitem ações e vendem um pedaço para o público. Isso tem a ver com a liquidez da Bolsa. Felizmente, temos no Brasil um mercado financeiro extremamente sofisticado, o que há de melhor no mundo. O que faltava para a Bovespa era motivar as pessoas a investir no mercado de ações, situação que agora está sendo resolvida com os programas “A Bovespa vai até você”. Esse interesse por parte do público torna muito mais atraente e mais fácil para as empresas abrir o seu capital. E é exatamente o que está acontecendo, basta ver os casos da Natura, da Gol e de outras empresas. Então, eu diria que ter um mercado de ações forte, com bastante liquidez, é um instrumento importantíssimo para o País.

JC - Entre todos os tipos de investimentos existentes, qual a principal diferença entre as modalidades oferecidas pelo sistema financeiro e as ações em Bolsa de Valores?

Botelho - A principal diferença é que, quando se fala em mercado de ações, o investimento é baseado num tripé: segurança, rentabilidade e liquidez. Quanto maior o risco da operação, maior será a rentabilidade que poderá ser proporcionada. Um alerta importante a ser feito é que não se trata de um ramo fácil. Para participar do mercado de ações, não basta seguir a dica de um amigo e ter esperança de que vai lucrar. É preciso dominar as técnicas de análise, as estratégias e táticas financeiras.

JC - As pessoas têm muitas dúvidas sobre o tema especulação no mercado de ações. Numa Bolsa de Valores, o que exatamente é especulação?

Botelho - Eu costumo dizer que todos nós somos especuladores, pois queremos ganhar o máximo possível no menor espaço de tempo possível. Mas veja só: especulação não tem nada a ver com jogo. É um processo em que se aplica táticas, conceitos e análises para tentar prever o comportamento futuro dos preços. No Brasil, a especulação tem uma conotação pejorativa porque confunde-se o especulador com o manipulador e com o atravessador. São três pessoas completamente diferentes. O manipulador é aquele que tenta maquiar os preços. Talvez, somente as grandes companhias tenham manipuladores atuando no mercado de ações, mas se tiverem eles não obtêm sucesso. O atravessador é aquele que compra barato do fazendeiro e vende caro no supermercado. O especulador, e principalmente o especulador da Bolsa - vamos usar como exemplo o mercado de café da BM&F -, é o indivíduo que pode e quer assumir riscos que o produtor de café não quer assumir. Para garantir um preço melhor, ele (o especulador) faz uma operação de hedge, que consiste em vender contrato futuro. Ou seja, o especulador é quem vai gerar a liquidez da operação.