08 de julho de 2026
Geral

Preso da P2 tem leishmaniose cutânea

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Um detento de 46 anos da Penitenciária Dr. Eduardo de Oliveira Viana (P2) não tem companheiros de cela. A privacidade, no entanto, não é comemorada por ele, mantido isolado por estar com leishmaniose cutânea (tegumentar). A doença, menos perigosa que a visceral, teria sido contraída em Campo Limpo Paulista.

Em Bauru, o último registro de contaminação foi no ano passado, quando dois casos foram notificados. Neste ano, ninguém foi infectado no município, informa a diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC), órgão da Secretaria Municipal de Saúde, Maria Helena Abreu. “Não há risco de transmissão da leishmaniose entre pessoas, ou seja, por contato pessoal”, ressalta.

A direção da P2 confirma o posicionamento e justifica o isolamento numa cela da enfermaria como medida de higiene e precaução. “O tratamento é orientado e acompanhado pelo Instituto Lauro de Souza Lima e pelo DSC. Está na fase final e não é transmissível”, reitera o diretor-substituto da P2, Amauri Cassio Prudente.

De acordo com ele, o preso já havia cumprido pena lá, mas saiu em liberdade plena em janeiro de 1997, ano em que teria contraído a doença em Campo Limpo Paulista. Quando voltou para a unidade, em agosto do ano passado, já estava com a leishmaniose cutânea diagnosticada.

As primeiras feridas despontaram na face e no tornozelo. A última, ainda em tratamento, acometeu o pênis. Por causa das lesões, ele foi encaminhado ao Instituto Lauro de Souza Lima, onde recebeu os primeiros cuidados no início deste ano. Porém, em agosto ele tornou a receber o medicamento contra a doença, que deve ter sido reativada.

Normalmente, as feridas cicatrizam até três meses após o início do tratamento, informa o dermatologista do instituto Somei Ura. Mesmo assim, o controle periódico, feito a cada três meses, é mantido por pelo menos dois anos, como ocorre com a leishmaniose visceral.

“Dependendo da resistência do protozoário ou da resposta do paciente, o tratamento deve ser repetido”, informa Ura. Segundo ele, o local da pele onde a ferida aparece não se restabelece completamente. A pele volta a crescer, mas sem pêlo, mais lisa e brilhante.

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‘Úlcera de Bauru’ gerou polêmica

Botão do Oriente, botão de Alepo, botão de Biskra, ferida braba, botão da Bahia, úlcera de nariz. Nomes populares não faltaram para identificar a leishmaniose cutânea (tegumentar) no início do século passado. No entanto, a denominação “úlcera de Bauru” foi a mais polêmica e rendeu até um editorial mau humorado no jornal “O Bauru”.

Datado de julho de 1916 e sob o título “É desaforo”, o jornal criticou a alcunha da doença atribuída em outras cidades do Estado de São Paulo, que também recebiam para tratamento funcionários da Ferrovia Noroeste do Brasil contaminados pela leishmaniose tegumentar.

“Ali, (os médicos) indagavam a procedência dos doentes e estes respondiam que procediam de Bauru (...). Os médicos tiravam a conclusão que tais feridas eram originárias desta cidade (...). Achamos injusto o vergonhoso batismo aplicado a uma moléstia que não tem sua origem nesta cidade e soa muito mal aos ouvidos dos bauruenses”, diz um trecho do texto.

No artigo também é possível observar uma outra constatação registrada 18 anos depois pelo periódico “Ouro Verde”: os pacientes consideravam o tratamento longo e cansativo. No entanto, os procedimentos médicos adotados eram os mesmos em todo o Estado.

Na época (década de 50), já se sabia de casos da leishmaniose tegumentar em Salvador (BA) e que ocorrências da visceral haviam sido notificadas na Ásia, África, em vários estados do Brasil, Argentina e Paraguai.

Porém, a preocupação com a incidência da moléstia foi despertada muito tempo antes. Em 1908, os cientistas brasileiros Emílio Ribas e Adolpho Lutz vieram juntos para Bauru para pesquisar a leishmaniose, informa o coordenador do Núcleo de Pesquisa e Documentação Histórica da Universidade do Sagrado Coração (USC), Gabriel Ruiz Pelegrina.

“Eles vieram para cá e ficaram no hotel Dix, na quadra 8 da rua Araújo Leite. Eles preferiram não declarar nada”, comenta Pelegrina.

De acordo com o trecho do jornal O Bauru que Pelegrina mostrou à reportagem, os cientistas examinaram pessoas, pesquisaram moscas que, assim como quatro macacos inoculados, foram enviados para São Paulo.