09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

E por falar em sagrada família


| Tempo de leitura: 5 min

Nunca a família esteve tão desvalorizada como em nossos dias. Os pais mal têm conseguido orientar seus filhos nos princípios básicos de convivência, como o respeito ao próximo, a solidariedade e a responsabilidade.

E essa dificuldade da família traz à sociedade conseqüências terríveis: aumento alarmante dos casos de gravidez precoce em meninas de 10 a 15 anos, do consumo de drogas na infância e na adolescência, delinqüência juvenil, violência doméstica, etc.

No dia 15 de agosto último, me deparei com o artigo de um padre de Bauru mencionando que a Sagrada Família é apenas uma imagem idealizada, que a Virgem Maria era uma “mãe solteira” e que, para ser uma família, basta o vínculo afetivo, independente de como ela seja constituída, já que o modelo ideal: pai, mãe e filhos já é, digamos, ultrapassado.

Talvez fosse bom tomarmos alguns trechos do Catecismo da Igreja Católica para refletir sobre estas considerações, que algumas confusões podem trazer aos leitores, sobretudo aos que professam a fé católica: “Os protagonistas da aliança matrimonial são um homem e uma mulher batizados, livres para contrair matrimônio e que expressam livremente seu consentimento.(...)” (Catecismo da Igreja Católica – Ed.Vozes 1993, pág. 445)

A Igreja considera que, pela própria condição em que homem e mulher foram criados por Deus, a união de homossexuais fere a natureza de ambos e é contrária à vontade de Deus. A fé cristã ensina que devemos amar todos os homens, independente de raça, cor, credo ou opção sexual. Mas, ao mesmo tempo, somos chamados ao testemunho de obediência e fidelidade a Deus. Isso implica que amemos o próximo, mas não que o incentivemos ao erro.

“O exemplo e o ensinamento dos pais e da família continuam sendo o caminho privilegiado para esta preparação. O papel dos pastores e da comunidade cristã como “família de Deus” é indispensável para a transmissão de valores humanos e cristãos do matrimônio e da família.(...)” (idem, pág.446)

É dever da família empenhar-se para que seus membros - no caso, os filhos - cresçam em condições favoráveis de amor e respeito e, educados na fé, sejam capazes de, no futuro, virem a formar sua própria família. Aqui, entende-se que não somente é dever dos pais, mas dos pastores, também chamados de “sacerdotes” ou “padres”, contribuir na transmissão dos valores humanos e cristãos, cerne da família.

“A unidade do Matrimônio é também claramente confirmada pelo Senhor mediante a igual dignidade do homem e da mulher enquanto pessoas, a qual deve ser reconhecida no amor mútuo e perfeito. A poligamia é contrária a essa igual dignidade e ao amor conjugal, que é único e exclusivo.”( pág. 450)

Homem e mulher, unidos em Deus, são chamados ao amor pleno e verdadeiro, marcado pela fidelidade entre si e a Deus. “O instituto do Matrimônio e o amor dos esposos estão, por sua índole natural, ordenados à procriação e à educação dos filhos, em que culminam como uma coroa.”(...)

“A fecundidade do amor conjugal se estende aos frutos da vida moral, espiritual e sobrenatural que os pais transmitem aos seus filhos pela educação. Os pais são os principais e primeiros educadores de seus filhos. Neste sentido, a tarefa fundamental do matrimônio e da família é estar a serviço da vida.”

Os esposos a quem Deus não concedeu ter filhos, podem, no entanto, ter uma vida conjugal cheia de sentido, humana e cristã. Seu Matrimônio pode irradiar uma fecundidade de caridade, acolhimento e sacrifício.” (idem, pág. 450). Reconhecemos, nessas citações, o importante papel da família, que é essencial e indispensável, na vida de todo ser humano.

Um outro ponto que merece abordagem especial é com relação à Virgem Maria, nomeada, no artigo já citado, de “mãe solteira”. Terá, por ventura, se esquecido o autor que Jesus, o Filho de Maria, foi concebido por obra divina, ou seja, sem qualquer participação humana? Com este “adjetivo”, incorremos no grave erro de tratá-la como as demais mulheres que, por opção (com exceção de casos de estupro), desejam a ligação carnal junto a um homem e, do ato em si, vêm a conceber.

Imaginemos há 2 mil anos: se considerarmos como eram apedrejadas as mulheres consideradas adúlteras, como seria tratada uma mulher que concebesse um filho sem estar desposada?

José, percebendo a gravidez de Maria, nos relata o Evangelho, resolveu deixá-la em segredo. Segundo o costume da época, temeu o que poderia acontecer à pobre Maria.

O silêncio de José, seguido da revelação do Anjo que aquele filho que Maria esperava era o Filho de Deus, nela gerado por obra do Espírito Santo, acalmou o seu coração. Ao receber Maria como sua esposa, José dispôs-se a amparar Maria e proteger seu filho, mesmo sabendo que não existia, entre eles, laços sanguíneos. Fê-lo, sobretudo, por amor e obediência a Deus. E é certo que amou a Jesus, como a um verdadeiro filho.

“Cristo quis nascer e crescer no seio da Sagrada Família de José e Maria.” (idem, pág. 452) Jesus, feito homem, não perdeu Sua condição divina. E, como homem, nasceu e cresceu dentro de uma família, enaltecendo o importante papel que ela desempenha na vida de todo ser humano. Do contrário, Deus poderia perfeitamente ter permitido que Maria criasse sozinha o seu filho.

O fato de a Sagrada Família servir de exemplo não é uma mera imagem idealizada: ela se tornou um exemplo pela maneira como viveu a pureza, a honestidade, o trabalho, a simplicidade, a união, a obediência, a fidelidade a Deus - virtudes estas, aliás, bem escassas no mundo contemporâneo. Por desconhecer o valor destas virtudes, é comum que não se dê, à Sagrada Família, a importância que lhe é devida.

Ensina a Santa Igreja que ela é o modelo perfeito de família, criado por Deus e, se as famílias vivessem baseadas neste exemplo, com certeza, viveriam muito melhor. É certo que toda família deve estabelecer, entre seus membros, vínculos de amor. Não basta ter a família: é preciso fazer com que o amor aconteça, diariamente, nela, através do respeito, do carinho, da compreensão, do diálogo e da união.

Empenhemos nossas forças para que, cada vez mais, as famílias tenham as condições necessárias (em todos os aspectos) de exercer bem o seu papel e, assim, contribuam para uma sociedade realmente mais justa, mais solidária, verdadeiramente centrada nos princípios que dignificam o homem.

Miriam de F. P. de Oliveira - membro da Associação “Magnificat” - associação internacional de leigos católicos que atua na evangelização de famílias