09 de julho de 2026
Articulistas

Tributo ao nosso Zico


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A história da Aviação Brasileira ganhou capítulo novo a partir de 1948, quando dois jovens de Bauru, Ozires Silva e Benedicto César, passaram a se interessar pelo mercado aeronáutico e fabricação de aviões. Benedicto César (o Zico), Ozires Silva e eu queríamos ser aviadores. A cidade, marco inicial do desenvolvimento da Noroeste do Brasil, propiciava condições para esse tipo de aspiração. O aeroclube oferecia treinamento inicial em aviões. Nesse distante ano de 1948, nos empenhamos, os três, em ingressar na Escola de Aeronáutica dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Seríamos pilotos militares da FAB

Cumpríamos, todos os dias, a mesma rotina: ginásio de manhã, vôo à vela de tarde, e preparação para o exame de admissão. Na época dos exames, viajamos, de trem, para o Rio, e ficamos alojados na própria Escola de Aeronáutica. Ozires e Zico lograram êxito em todas as provas. Eu me perdi na de Português. Mas não me distanciei dos meus dois amigos de infância e de juventude. Semanalmente nos encontrávamos e muito tagarelávamos sobre o êxitos ou insucessos de cada um. Inclusive no terreno movediço do amor.

Em 1951, os dois cadetes-do-ar de Bauru concluíram o curso e receberam as insígnias de Aspirante-a-Oficial da Força Aérea Brasileira. Ozires foi servir na Base Aérea de Belém do Pará. Zico foi lotado na Base Aérea de Santa Cruz, ninho e celeiro do grupamento da Aviação de Caça do Brasil. Era um aviador competente. Amava a aviação. Em especial a de caça. Morávamos em Copacabana, mas ele saía, todos os dias, em seu pequeno mas valente Citroen, praticamente de madrugada, para cumprir, com pontualidade castrense, sua jornada de trabalho.

Magro, elegante e muito inteligente, o Tenente Benedicto César devotava a Bauru, sua cidade natal, particular estima. Sempre que podia se mandava do Rio de Janeiro para passar algumas horas em sua terra. Voava em qualquer avião disponível, inclusive no Fairchild, PT-19, de treinamento primário. Mais de uma vez o acompanhei nessa proeza pelos céus do Brasil rumo à Capital da Terra Branca. Matemático, divertia-se criando situações antinômicas, mas originais e interessantes. É dele o teorema “Quem come muito come pouco”, proposição que demonstrava por absurdo.

Solteiro, tinha algumas namoradas. Nada sério. Uma delas, porém, despertou o lado mais romântico e sentimental dele. Era uma moça magrinha, branquinha, bonitinha, suave, muito delicada, com jeito de ninfa, que o Zico apelidou de “Raio de Luar”. Até hoje não sei o nome dela. Casou-se com um Oficial do Exército, mas não se esqueceu jamais do seu charmoso e cordial cadete-do-ar.

Soldado, na acepção mais genuína do vocábulo, o Tenente César não abriu mão jamais de qualquer dos predicados ideológicos que informavam e lastreavam o estado de direito e os princípios da cidadania. Era calmo. Tinha uma postura digna. Não buscava fortuna. Cultivava os amigos. Protegia e defendia os companheiros. E ajudava a família, em especial um sobrinho, por quem nutria paternal afeição.

Um dia, sem demonstrar mais do que surpresa, revelou haver antevisto que ele ou o Ozires morreria em desastre de avião. O sobrevivente levaria o corpo do outro para Bauru. O acidente ocorreu no dia 18 de março de 1955, na base aérea de Santa Cruz ao aterrissar com o Gloster Meteor que pilotava. O sonho se cumpriu. Quem levou o corpo do Zico para Bauru foi Ozires Silva.

Bauru está em débito para com este ilustre conterrâneo, autêntico pioneiro na obra de dotar o Brasil de uma promissora indústria e de uma risonha mentalidade aeronáutica, merecedoras, ambas, do aplauso e do respeito universais.

O autor, Edísio Gomes de Matos, é advogado e professor emérito da Universidade de Brasília