09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O autoritarismo revistado


| Tempo de leitura: 2 min

Sempre é tempo de rememorarmos nossa vida, nossa história. Neste ano, podemos destacar os 182 anos da Independência do Brasil, os 100 anos da Revolta da Vacina, os 40 anos do Golpe Militar, os 50 anos do suicídio de Getúlio Vargas e estamos assistindo ao filme sobre a vida da alemã Olga Benário Prestes, companheira de Luiz Carlos Prestes, morta em 1942 no campo de concentração de Bernburg após estar grávida e ser extraditada pelo governo de Vargas em 1936.

Desde a colonização, o Brasil foi construído através de relações sociais autoritárias e na expansão da dominação, a violência se tornou legítima e necessária, voltada para a maioria da população. Assim, a mentalidade autoritária perpassa diferentes tempos e organizações sociais, tendo longa duração na prática social e no registro da memória histórica. No século 20, o desenvolvimento capitalista brasileiro ocorreu sob um Estado intervencionista e repressivo, que garantiu a modernização conservadora e o aprendizado do autoritarismo nas práticas sociais, mesmo com a resistência de vários setores da sociedade.

O presente coloca outras questões à história. Desde 1988 estamos no processo de construção de um Estado democrático e convivemos com a mentalidade e situações autoritárias. A democratização da sociedade e da política-institucional não ocorrem ao mesmo tempo, pois é necessária a prática democrática cotidiana ao longo do tempo, um aprendizado variado em diferentes espaços e instituições. Então, o que diremos da grande parte da população brasileira excluída desse processo, imersa no cotidiano da violência? Essa população tem alguma experiência democrática no seu dia-a-dia ou na busca de soluções para seus problemas? Constrói a cidadania ou sobrevive no apartheid social?

No processo de construção da cidadania temos meios e instituições que são seus divulgadores e estimuladores, como a escola, a imprensa, as organizações não-governamentais e os movimentos populares, mas que não alcançam a todos igualmente. A exclusão econômica e intelectual reproduzem realidades que negam a dignidade a milhões de brasileiros. Mesmo no contexto da globalização, precisamos encontrar caminhos de inclusão e ampliar o conceito de democracia para provocar mudanças econômicas, políticas e sociais. Nesse sentido, e para além das ideologias, há necessidade da democratização dos meios de comunicação de massa. A comunicação é uma necessidade e um direito, por isso tais meios têm grande importância pelo espaço que podem dedicar à difusão da produção do saber, ao debate e à democratização das informações, sendo veículos de cidadania-participação e, conseqüentemente, de mudanças culturais.

Não podemos perder a noção global da sociedade sob o risco de sermos tolerantes com os privilégios, o autoritarismo, o individualismo e a exclusão.

Rosane Maria Pimentel - professora de História - RG 17.115.815