Fogueiras para reivindicar luz elétrica. Foi assim que cerca de 50 moradores da favela do Jardim Vitória protestaram ontem à tarde contra o corte de uma ligação clandestina de rede, popularmente conhecida como “gato”, responsável pelo abastecimento de aproximadamente 80 casas.
O corte de energia foi feito pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), comunicada do problema pela Polícia Militar (PM). Com a medida legal, a situação já precária da comunidade transformou-se em revolta.
“Faz sete anos que vivemos com “gato” porque a prefeitura não providencia a rede (de extensão de energia). A gente pede para colocar iluminação e nada. Eu estou com a geladeira cheia de leite para os meus filhos. O que eu fazer agora?”, questiona Susi Mari Pinheiro Reis, moradora da quadra 24 da rua Valter Belian, mãe de quatro crianças.
As críticas dela se somam com a de outros moradores, que também alegam dificuldade financeira para arcar com a cobrança da CPFL. Uma mulher, que preferiu não se identificar, ressaltou o fato de sobreviver com R$ 120,00, valor obtido por meio da ajuda do governo federal e das faxinas que realiza.
Para atender cidadãos em situação semelhante, a CPFL disponibiliza um programa para a população de baixa renda, desde que a rede esteja instalada (veja quadros nesta página). A medida não foi suficiente para amenizar a indignação dos manifestantes. Eles questionaram a iniciativa da PM, considerada rara inclusive pela CPFL.
“A CPFL cortou o cabo, que entrava no meio da favela. Ele foi entregue à polícia. O eletricista falou que algumas pessoas assistiram (a operação)”, explica o engenheiro líder do serviço de campo da empresa, Luiz Antonio Tesser. Ele não soube estimar quantas pessoas se beneficiavam da ligação clandestina.
No entanto, os moradores garantem que cerca de 80 casas ficaram sem energia elétrica, pois apenas três ou quatro residências dispõem do abastecimento regular. Os números coincidem com o total de moradias na favela informadas pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes).
“Orientamos a população a cobrar a prefeitura. Quando a PM observa algo ilegal ela tem o dever legal de comunicar o órgão competente. Para a PM é melhor que as ruas sejam iluminadas e pavimentadas. A falta de asfalto, por exemplo, é um fator que contribui para o desgaste da viatura”, explica o comandante da Base Comunitária Oeste, tenente Paulo César Valentin.
A prefeitura não se manifestou sobre o assunto, portanto não confirmou a necessidade nem a solicitação de ampliação de rede elétrica que teria sido feita pelos moradores da favela.
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Impasse
Se a favela do Jardim Vitória realmente depender da ampliação da rede para receber energia elétrica, o bairro permanecerá no escuro por tempo indeterminado. É que a CPFL não aumentará os pontos de iluminação pública até que seja julgada a ação cível pública referente à dívida que a administração municipal tem com a empresa.
Em julho, a Justiça suspendeu o contrato que permitia à CPFL receber da prefeitura dívida de R$ 14,7 milhões em 36 parcelas. O pedido de anulação do acordo, assinado sem contrato pelo prefeito Nilson Costa (sem partido), foi feito pelo promotor de Cidadania e Patrimônio Público, Fernando Masseli Helene, obtido por meio de liminar.