Não faz muito tempo, discutir política dentro de uma igreja católica era proibido. E ponto final. O assunto era restrito aos leigos, os chamados fiéis. Os padres, com raras exceções, acompanhavam a movimentação dos bastidores à distância. Os tempos mudaram. A Igreja evoluiu. Surge a Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB), que decide se posicionar sobre questões econômicas e políticas na busca daquilo que os católicos mais pregam: a justiça social.
O Papa João Paulo II publica, em 1988, a Exortação Apostólica Christifidelis Laici, e convoca os fiéis católicos a se inserirem no mundo político. “Para animar de forma cristã a ordem temporal, no sentido de servir a pessoa e a sociedade, vocês não podem absolutamente abdicar da participação na políticaâ€, escreveu o papa mais popular da história da Igreja.
João Paulo II não se contenta com as poucas linhas acima e segue: “As acusações de arrivismos, idolatria do poder, egoísmo e corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento, da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam nem o ceticismo nem o absenteísmo dos cristãos pela coisa pública.â€
A convocação de João Paulo II se tornou um desafio, afinal, aniquilar o conservadorismo de uma instituição que está na história do homem há 20 séculos não é coisa que se faça da noite para o dia. A tarefa inicial para movimentar a engrenagem rumo à participação dos católicos no mundo político coube aos Conselhos Diocesanos de Leigos e Leigas, comandados por fiéis. Mas a contaminação - no bom sentido da palavra - chegou ao clero.
Sem partido
O bispo da Diocese de Bauru, dom Luiz Antonio Guedes, reforça a convocação do papa. “Os católicos devem ter maior participação no mundo político. Não devemos ficar somente dentro da igrejaâ€, afirma. Ele esclarece, porém, que a função política cabe aos leigos e leigas por meio do Conselho Pastoral.
“O conselho tem como proposta que as comunidades reflitam sobre as pessoas que desejam se candidatarâ€, observa, completando que não cabe ao clero se inscrever em partidos políticos para disputar cargos eletivos. A posição de dom Luiz é levada a sério pelos padres das paróquias católicas instaladas em Bauru.
“A participação dos católicos na política é uma coisa muito boa e necessária. O católico deve concorrer também, como os demais, para os cargos políticos. De vereador até prefeito. O que nos interessa é que os princípios morais, religiosos e de fé da Igreja Católica também possam ser defendidos perante a sociedadeâ€, explica o padre Alberto Oselin, da Paróquia Nossa Senhora das Graças (Casa do Garoto).
Ele é um dos seis padres que assinaram uma carta de apoio à candidatura de um católico à Câmara Municipal, Francisco Carlos de Góes (o Carlão do Gás), confirmando a inserção do clero na orientação e discussão com os fiéis sobre a participação na política.
Essa situação - pioneira no mundo católico de Bauru - deixa satisfeito o comando do Conselho Diocesano de Leigos e Leigas, fomentador e incentivador da participação democrática dos fiéis na discussão do processo eleitoral municipal, extensivo também às esferas estadual e federal. “O que nós, do conselho e da comunidade, queremos é inverter o processo que hoje vivemos. Como é hoje: o cidadão se candidata e procura a comunidade. O que propomos: a comunidade discute nomes e escolhe umâ€, explica Cláudio Zanata, integrante do Conselho Diocesano de Leigos e Leigas.
Ele acrescenta que a intenção é eleger um católico que terá um mandato comunitário. “A comunidade assume compromisso com ele e ele também assume compromisso com a comunidade. Se eleito, ele será cobrado e terá que prestar contasâ€, avisa.
Para Zanata, a comunidade católica tem o direito de escolher e trabalhar por um candidato. “Mas quero deixar bem claro que não estamos trabalhando contra outros candidatosâ€, garante.
O integrante do conselho diz que Bauru está dividida em cinco regiões pastorais, das quais três se movimentaram com intensidade no atual processo eleitoral para agendar debates e discutir com os candidatos que se declaram católicos. Embora reconheça que o ideal seria que cada comunidade escolhesse apenas um candidato, Zanata sabe que isso é difícil de contornar.
A região pastoral que mais tem candidatos é a que engloba as igrejas de Santo Antonio (Jardim Bela Vista) e São Benedito (Vila Falcão). No total, 11 católicos disputam os votos dos fiéis. Na seqüência, a região pastoral que tem como igrejas mais conhecidas a Santa Rita, São Judas e Divino Espírito Santo.
Sete candidatos se apresentam para a disputa. A Paróquia Nossa Senhora das Graças foi a única que antecipou o processo há mais de um ano e decidiu escolher apenas um candidato.