Passei dos 60 anos. O que poderia ser uma alegria transformou-se em pesadelo. Não pela idade ou pelos anos passados, mas pelos que ainda virão caso não morra antes. Sucessivos planos econômicos, reformas no sistema previdenciário, índices de reajustes desiguais entre os da ativa com os inativos e falsos transformaram o que deveria ser uma aposentadoria digna em algo aviltante, depois de permanecer com 40 anos de trabalho. Anos de experiência, dando o melhor de minha juventude, acumulando conhecimentos que hoje, graças ao perverso e carrasco sistema de relações trabalhistas, não valem nada, pois sou considerado ultrapassado ou vagabundo, expressão usada pelo ex-presidente e famigerado Fernando Henrique Cardoso que está aposentado desde 38 anos de idade. Administradores, especialistas e RHs determinaram que a vida útil de um trabalhador só vai até aos 40 anos. E o governo estabeleceu o limite de 65 anos para aposentar-se. Porém, quem lhe garante trabalho até lá? A Previdência está desmontada e com imensos rombos. A saúde pública é um caos. A classe de trabalhadores públicos ou privados não reúne condições para pagar um plano alternativo de saúde. O nosso médico é um benzedor e o nosso remédio é o chá de ervas indicado pelo benzedor. E a educação é luxo para poucos. Ao final, chego à conclusão de que aos homens acima de 40 anos resta escolher a carreira de político. Não é preciso experiência, não há restrições de idade, não é necessário curso superior. Basta ser ladino, bom de promessas e cara-de-pau. Para proteção quem tem mais de 60 anos foi criado pelo governo o Estatuto do Idoso, que na prática não passa de um Estatuto de Indigente. Que Deus me dê uma boa morte. (Francisco Macegoza - RG 4.860.818)