24 de maio de 2026
Geral

Contabilistas não querem ser ‘guarda-livros’

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

O profissional de contabilidade atua em uma fase de transição em que tenta se desvencilhar da definição de “guarda-livros” e passa a encarar a atividade como um importante instrumento para o regular funcionamento das empresas nacionais, gerando segurança para o controle das contas e a conseqüente contribuição para a arrecadação de impostos. Esta é a avaliação da profissional Telma Tibério Gouveia, coordenadora do curso de ciências contábeis da Universidade Monte Serrat (Unimonte), em Santos (SP).

Telma Gouveia participou como palestrante da 83ª Jornada Técnica, Cultural e Contábil de Bauru e Região, que se encerrou no último sábado no Hotel Obeid Plaza. Ela falou sobre “o contador da atualidade e a auditoria”, no evento organizado pela Federação dos Contabilistas do Estado de São Paulo (Fecontesp) juntamente com o Sindicato dos Contabilistas de Bauru e Região. Leia os principais pontos da entretrechos concedida ao JC:

Jornal da Cidade - Por que o contador ficou conhecido como o “guarda-livro”?

Telma Tibério Gouveia - Acredito que ele tenha ficado conhecido como o guarda-livro porque normalmente a gente faz a escrituração de livros contábeis. Quer dizer, os livros principais da empresa sempre eram realizados pelos contabilistas, sendo o contador a nível superior e o técnico de contabilidade. A gente era responsável pela guarda dessa documentação, pela guarda desses livros. Então tudo o que você fazia e ainda hoje se faz em termos escrituração contábil, fiscal, se transforma em livros que você tem que guardar durante alguns anos. E veio essa imagem, porque a escrita era feita sempre a mão. E a gente sempre trabalhou voltado para o fisco.

JC - O profissional dá guia das receitas públicas?

Telma - Os empresários ainda acreditam que nós somos o mal necessário, aquele que preenche guias para pagamentos de impostos, o profissional que diz quanto o fisco tem a receber. A imagem está mudando. A gente vê isso de uma forma gradativa. Mas sempre acabamos levando ao cliente uma lista de pagamentos, guias para recolhimento de INSS, PIS, Cofins, todos os tributos. ficou essa imagem que está sendo mudada.

JC - É mais difícil lidar com os dados, os números ou a legislação?

Telma - Lidar com a legislação é mais difícil, porque ela muda constantemente no País. Com os números até que é fácil. As regras mudam muito e as alterações ocorrem dependendo do caixa do governo. Se ele precisa de mais ou de menos recursos, as alterações ocorrem. E nós acabamos sendo prejudicados em termos de volume de trabalho. As informações hoje são muito rápidas. Você recolhe hoje o INSS no segundo dia do mês, ou o primeiro dia útil. Mas a empresa tem o direito de pagar os seus funcionários até o quinto dia útil. Mas a empresa tem a data anterior para recolher. Isso gera, por exemplo, dificuldades para quem recolhe.

JC - Os órgãos oficiais ainda guardam uma visão de preconceito em relação ao contador?

Telma - Acho, em uma posição pessoal, que os órgãos públicos acreditam que os contabilistas colaboram com uma série de problemas que acontecem. Nós ainda somos conhecidos como aqueles que sempre dão um jeitinho nos problemas contábeis. O empresário realmente ainda procura a gente para dar um jeitinho e é uma imagem negativa. Fora do Brasil o contador é muito valorizado, mas aqui está começando ainda a mudar essa imagem. Temos que trabalhar com os dois lados. O empresário tendo a consciência que tem que pagar corretamente seus tributos e o contador prestando o serviço de acordo com a legislação.

JC - Então ainda é muito presente a teoria do jeitinho para não se pagar contas?

Telma - Lamentavelmente ainda há essa mentalidade, seja porque temos uma carga de obrigações muito grande, ou por uma questão de cultura mesmo na atividade. Mas os órgãos estão se sofisticando na fiscalização. A Receita Federal é um órgão, por exemplo, totalmente informatizado. Eles cruzam informações e não precisam mais enviar fiscais na empresa para verificar os dados. A Receita hoje tem condições de fiscalizar bem dentro do seu próprio local de trabalho. Essa maneira de ver a realidade é que o empresário está mudando aos poucos.