O diálogo foi a arma utilizada por funcionários da Fundação para Bem-Estar do Menor (Febem) para evitar que sete internos fugissem da unidade de Bauru ontem à noite. Persuadidos, os adolescentes desistiram da ação sem deixar feridos ou provocar destruição. Eles aproveitaram o fim de um culto religioso para tentar escapar.
“O culto acabou por volta das 21h15 na unidade de internação provisória (UIP). Uns sete não participaram. Quando eu fui sair, eles vieram correndo num monte. Diziam para eu sair da fita que era fuga no pedaço”, conta o pastor Roberto Lima.
De acordo com ele, os internos entraram num corredor que leva à saída de serviço e, munidos com objetos (supostamente armas fabricadas dentro da instituição), pressionaram os funcionários para sair. Enquanto isso, outros 14 menores que permaneceram, arremessavam cadeiras de plástico pelas grades da UIP, unidade que teria capacidade para 24 adolescentes.
“Os funcionários, bem preparados, conversaram. Eles foram persuadidos a voltar. Daí perceberam a presença da polícia e retornaram”, relembra o religioso. O ruído das sirenes ajudou a convencê-los: foram deslocadas até a Febem cinco viaturas do Tático da Polícia Militar (PM), duas da Base Comunitária Sudeste e uma do comando da Força Patrulha. No total, 24 policiais estiveram na ocorrência.
Dois deles permaneciam na unidade até o fechamento dessa edição. De acordo com os policiais, apenas um funcionário foi chutado na panturrilha. Não informaram quantos servidores estavam trabalhando no momento da tentativa de fuga.
“Temos que enaltecer o trabalho deles (funcionários). Mesmo correndo risco, eles colocaram todo mundo no pátio. Falta vontade política para resolver a situação da Febem”, diz Lima
Segundo ele, alguns funcionários cumprem jornada de 12 horas, período que permanecem sem se alimentar. Mas os problemas apontados pelo pastor não se limitam aos servidores, que há uma semana encerraram uma greve por melhores salários e condições de trabalho. Ele também cita como prejudicial o fato de internarem na mesma unidade adolescentes que “roubaram uma bolacha com aqueles que mataram um homem”.
____________________
Histórico
A Febem foi inaugurada em Bauru no Núcleo Habitacional Presidente Geisel, em fevereiro de 2002, mas começou a receber os adolescentes apenas três meses depois. Concebida como uma unidade-modelo, ela foi palco de diversas fugas em massa, rebeliões e tumultos já foram registrados.
No final do ano passado, 46 menores escaparam da instituição em menos de dois meses. No mesmo período, quando um tumulto também foi registrado, os adolescentes destruíram a enfermaria em um motim que só acabou com a intervenção da Polícia Militar.
Os problemas começaram já na gestão da professora Edinéa Sita Cucci, a primeira diretora da unidade, que foi exonerada em abril de 2003 sob acusação de ter cometido irregularidades administrativas. Na ocasião, Maria Aparecida Cavalheiro Bien assumiu o cargo no qual ficou por sete meses. Em outubro de 2003, o psicólogo Paulo Orti assumiu a direção da unidade. Ele permaneceu menos de quatro meses no cargo, sendo exonerado em janeiro.
No mês seguinte, assumiu a entidade a professora Celi Aparecida Martins Perpétuo, que apontou como meta o acompanhamento e o gerenciamento mais firme dos funcionário para evitar que ocorrências como fugas e rebelião fosse registradas.
Porém, no dia 11 do mês passado, três menores fugiram e foram recapturados na seqüência. Doze dias depois, outros 17 conseguiram escapar. Após dois dias, todos já haviam voltado à unidade.