08 de julho de 2026
Economia & Negócios

Greve termina com revolta e tristeza

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Um misto de revolta e tristeza tomou conta dos servidores do Judiciário na volta ao trabalho depois de 87 dias de greve em Bauru. Sem definição sobre o reajuste salarial e ameaçados pelo Tribunal de Justiça (TJ) de sofrer processos administrativos, os 400 funcionários do Fórum começaram ontem a colocar em dia os cerca de 100 mil processos acumulados. A estimativa é de que somente dentro de seis meses o calendário de atividades volte ao normal.

O retorno ao trabalho foi a certeza de que não há justiça, disse ontem o servidor Benedito José de Almeida Falcão, do comando de greve. Para ele, os funcionários retornaram ao trabalho com a sensação de injustiça. “Sabemos que estamos certos e que nossa reivindicação é justa, mas temos que engolir o errado.”

Para ele, o grande perdedor foi o Tribunal de Justiça. “Não estamos voltando ao trabalho pelas ameaças, mas pela descoberta da realidade. Não existe justiça para nós. Eles podem achar que somos perdedores, mas foram eles que perderam. Sempre fizemos o trabalho com muito amor. Hoje, nos sentimos traídos.”

Na avaliação do comando de greve, cada servidor foi um guerreiro. “Mostramos que estamos unidos e ganhamos respeito. Durante todo o período de greve, matamos um leão por dia. Hoje, temos que matar um leão dentro de nós. Essa sensação de injustiça é difícil superar.” Para a servidora Luciana Dias Duarte, que fez até greve de fome junto com Falcão, foi lamentável o fim da paralisação. Emocionalmente abalada e entre lágrimas, ela disse que a greve só terminou porque o TJ fez ameaças de demissão.

Para ela, a forma como os servidores foram tratados demonstra descaso. “A forma que o Tribunal tratou o movimento foi lamentável. O pior foi a ameaça de demissão. O presidente do TJ indicou claramente as demissões, apesar de não configurar abandono de emprego.”

A sindicalista acredita que o problema maior é que o julgamento do movimento é feito pelos próprios juristas. “Nosso caso é atípico. Vamos ser julgados pelo nosso patrão e temos a opção de recorrer ao Superior Tribunal Federal, que também é cooperativista.”

Os funcionários do turno da manhã foram receber os servidores do segundo turno ontem. No encontro, muitas lágrimas e abraços, manifestações de carinho e de força.

Desiludidos com a atitude do TJ de processá-los, eles preferiram não falar, deixando que o comando de greve se manifestasse. “Não sabemos se alguma das nossas reivindicações vão ser atendidas. Estamos cansados de esperar que eles cumpram o que falam”, disse Falcão.

Novos computadores

Para Falcão, os 233 computadores enviados pelo TJ ao Fórum de Bauru apareceram “de uma hora para outra”. “Eles vieram depois que denunciamos que o dinheiro público estava sendo mal utilizado, com a compra de sapatos de pelica, ternos de microfibra importada etc.”

O diretor do Fórum, juiz Jaime Ferreira Menino, faz questão de dizer que os computadores são fruto de uma compra que o TJ fez em 2002. “Estava prevista desde 2002 a compra de computadores. A previsão era de que Bauru recebesse entre agosto e setembro deste ano. Em agosto foram feitas as instalações, e em setembro chegaram os computadores.”

O advogado Nelson Osmar Galvão foi o primeiro a ser atendido após o retorno dos servidores do Judiciário, na manhã de ontem. Ele conseguiu a petição para juntar a um processo em andamento. “Eu aguardava a abertura do Fórum desde 5 de julho, quando houve a publicação no Diário Oficial.”