26 de maio de 2026
Saúde

Treino facilita assimilação de dados

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

Estudos realizados nos últimos anos indicam cada vez mais que o cérebro humano precisa tanto de exercícios quanto os músculos e articulações do corpo. Autor do livro “Aprenda a usar a memória” (Publifolha), Dominic O’Brien concorda. Ele conta que foi com muito treino que conseguiu transformar uma deficiência que o fez abandonar os estudos aos 16 anos em uma ferramenta que lhe daria, mais tarde, oito títulos de campeão mundial de memorização.

“Na infância, fui diagnosticado como disléxico. E diziam que eu era incapaz de me concentrar e me lembrar do que os professores falavam. O resultado foi que não me destaquei e abandonei os estudos (...) Em 1988, presenciei um fato que mudou minha vida: vi um homem memorizar, em apenas três minutos, um baralho inteiro disposto aleatoriamente”, lembra.

Movido pelo desejo incontrolável de descobrir o segredo daquele homem, ele pegou um baralho e começou a fazer experiências com a própria capacidade de memorização. “Inadvertidamente, estava descobrindo a arte de memorizar e as técnicas de memorização como eram praticadas pelos gregos (e romanos) da Antigüidade, há mais de 2 mil anos”, afirma.

A partir de suas experiências, O’Brien resgatou e desenvolveu uma série de exercícios capazes, segundo ele, de aprimorar em qualquer pessoa a capacidade de reter dados na mente. Ele garante que o estímulo faz melhorar todas as faculdades mentais do ser humano, mas precisam ser estímulos constantes.

“Passe 15 minutos por dia aprimorando sua capacidade de lembrar acontecimentos simples. Como última medida da noite, procure recordar a ordem das coisas que fez durante o dia. Examine de perto conversas específicas, o ambiente e até o que estava pensando ou sentindo em cada situação”, sugere.

“Com a prática, quando você começar a retomar e a se concentrar nas ocorrências do dia, os detalhes devem vir à tona mais facilmente”, afirma. Segundo ele, a lembrança favorece a observação.

A imaginação é outro recurso essencial, na opinião do autor, para facilitar a retenção de informações na mente. Prova disso são os contos de fadas que transmitem valores sociais de geração a geração, como a idéia de que não se deve mentir, presente no famoso conto “Pinóquio”. Nesse sentido, um recurso muito útil para guardar informações desconexas é reuni-las numa história.

Outra técnica de memorização, chamada mnemônica, utiliza a associação entre coisas diferentes. O’Brien cita os versinhos inventados para ajudar a lembrar o número de dias de cada mês: “Trinta dias tem novembro, abril junho e setembro. Vinte e oito tem só um, todos os mais trinta e um”.

A escolha dos recursos de memorização depende do volume de informações a ser armazenada. Para situações em que há uma lista muito grande de coisas, O’Brien indica a técnica do trajeto, que requer imaginação e associação.

“Esse método se baseia num percurso mental fixo, bem planejado, ao longo do qual há umnúmero estabelecido de etapas que funcionam como âncoras para dados que precisamos memorizar (...) E como escolher o trajeto? Qualquer percurso conhecido serve - o importante é que as etapas (ou marcos) sejam diferenciadas para a memória”, explica.

Segundo O’Brien, com o tempo, a própria pessoa percebe que o número de informações que consegue reter aumentou e isso a estimula a continuar.

____________________

Para experimentar

Quantos dígitos você é capaz de experimentar?

Este exercício, conhecido como teste de repetição de dígitos (digit span), revela quantos dados você é capaz de reter na memória de curta duração antes que ela seja substituída.

1. Numa folha de papel pautado, escreva na linha de cima uma seqüência de quatro números, como 5, 8, 3, 7. Nas linhas abaixo, escreva mais duas seqüências de quatro dígitos. Na quarta, quinta e sexta linhas, escreva seqüências de cinco dígitos. Nas três linhas sequintes, seqüências de seis dígitos, e continue até chegar às seqüências de dez dígitos nas últimas três linhas.

2. Agora, leia a seqüência de números da primeira linha num ritmo pausado. Depois, esconda essa seqüência com outra folha de papel e tente se lembrar dos números na mesma ordem. Retire o papel que está por cima e observe se lembrou ou não dos números na seqüência correta. Se lembrou, passe para a próxima seqüência maior de números. Se não lembrou, tente a próxima seqüência com a mesma quantidade de números.

3. Continue se testando até chegar à seqüência da qual não consegue repetir corretamente os números em nenhuma das três tentativas. Sua capacidade de memorizar números é dada pela quantidade de dígitos da seqüência mais longa de que conseguir se lembrar.

Como pintar uma obra-prima de memória

A imaginação nos permite evocar fantasias surrealistas e memorizáveis. Neste exercício, treinamos esse aspecto da memorização “pintando” um quadro mental expressivo de um item da lista de compras. O processo pressupõe a “morfose” do item - modificar sua aparência com os olhos da mente, de modo a fixar uma mpressão mais firme, que será mais fácil lembrar.

1. Imagine uma maça com todos os detalhes possíveis. Ela é vermelha ou verde? Grande ou pequena? Está perfeita ou machucada? Está madura ou não? Enquanto decide, imagine um quadro que mostre a maça com detalhes realistas.

2. Contemple seu quadro mental terminado. É possível modificar a maçã para torná-la mais especial? Você pode imaginar que ela é gigantesca. Se tivesse o tamanho de uma bola de futebol, você a iria chutando até sua casa? Se tivesse traços humanos, de quem seriam? Talvez de um amigo muito saudável ou de alguém com bochechas coradas?

3. Pegue outro item da lista de compras, como um ovo, e o exagere ou embeleze desse mesmo jeito. Faça isso com cinco itens diferentes. Na próxima vez que for às compras, veja se consegue se lembrar da “lista de compras virtual”, usando essas imagens como disparadores. Depois, na vez seguinte, aumente a lista para dez itens. Experimente com variações deste exercício.

Percepção de detalhes

Aguçar sua capacidade de observação é muito bom para a memorização e as lembranças. Use este exercício para reduzir a “filtragem perceptiva” que ocorre quando você observa algo. Assim, o que está ali será de fato o que você vê.

1. Pegue lápis e papel e escolha um vaso de flores ou outro objeto para desenhar. Suas habilidades artísticas não têm nenhuma importância - o único propósito é aprender a obervar uma cena e recriá-la para o olho da mente com todos os detalhes possíveis.

2. Gaste cinco minutos para observar todas as características do vaso e das flores. O vaso tem algum padrão? Quantas pétalas têm as flores? Elas desabrocharam? Que aparência têm os veios das folhas? Não caia na armadilha de não prestar atenção em coisas óbvias (cor, formato, número, etc.) ao observar os detalhes.

3. Desvie o olhar e desenhe o vaso. Anote no desenho as indicações de cor e de outros detalhes que não conseguir desenhar. Volte a olhar o vaso e compare-o a seu esboço. Sua observação em relação a cores, formatos e proporção foi exata? O que você deixou escapar? Repita o exercício com regularidade, usando objetos diferentes, para aguçar sua capacidade de observação.

Encadeamento de lembranças

Use este exercício para treinar a mente a fazer ligações que funcionam. A aptidão que você adquire o ajudará a aproveitar ao máximo o método de contar histórias.

1. Veja esta lista de palavras: manteiga, crocodilo, telefone, petróleo, tesoura, calça, neve, gato, piano, maleta. Pense numa ligação entre manteiga e crocodilo. Não se esqueça de usar a palavras cortadas, se achar mais fácil (talvez seja mais memorizável pensar em manteiga espalhada numa torrada crocante do que num crocodilo comendo manteiga).

2. Depois de fazer essa ligação, pense no contexto em que você a colocou. Qual é o cenário? Se ligou manteiga com torrada crocante, deve ter imaginado a cena na cozinha. Ao manter a localização igual para os demais itens, as ligações serão mais memorizáveis por causa do laço comum do lugar.

3. Continue a ligar cada palavra à seguinte. Se for difícil visualizar algum item no contexto, pense nos detalhes da cena. Por exemplo: a “neve” pode estar num cartão-postal preso à geladeira; ou o freezer pode se encher de gelo “nevado”.

4. Quando terminar de formar as ligações, aguarde meia hora. Depois, sem olhar para esta página, tente lembrar todos os itens usando apenas as ligações que você fez. Anote-os num papel e, então, verifique a lista para ver quantas palavras acertou.

Fonte: “Aprenda a usar a memória”, de Dominic O’Brien