09 de julho de 2026
Articulistas

Vale tudo no Iraque


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O ataque sincronizado no Iraque contra várias igrejas cristãs de diferentes ritos não é uma casualidade, e sim fruto de um plano cuidadosamente orquestrado. Para os grupos da resistência iraquiana e para a plêiade de islamistas radicais que os apóiam, o objetivo da jihad (guerra santa) é diafanamente claro: trata-se, nada mais, nada menos, de fazer com que os norte-americanos e seus aliados sejam humilhados.

A resistência iraquiana, que sabe não ter condições de enfrentar diretamente os norte-americanos e que estes tampouco partirão por vontade própria no curto prazo, se vê obrigada a lançar mão da imaginação e procurar meios indiretos de enfrentamento. A forma mais óbvia de complicar a vida dos EUA é atacando as instalações petrolíferas. Desta maneira consegue-se dois objetivos. Em primeiro lugar, encarece a ocupação, porque ao ficar o Iraque privado de sua única fonte de renda, todos os gastos recaem sobre os aliados. Em segundo lugar, porque sem petróleo não há eletricidade, e se não existe eletricidade as fábricas não podem funcionar, e se não funcionam não há emprego e se existe desemprego as pessoas não estão contentes, seu humor não melhorará por não disporem tampouco de calefação ou ar condicionado... e assim sucessivamente.

A segunda maneira de complicar a vida dos norte-americanos é afastando do Iraque tudo o que soa multilateral, especialmente as Nações Unidas, pela simples razão de que só a sua presença contribui para legitimar a ocupação. Por isso, as bombas contra a ONU e as ameaças contra seus integrantes.

A terceira forma tem a ver com os aliados. Se não se pode com o mais forte do grupo, que tal tentarmos com os menores? É a estratégia que desenhava um documento da Al-Qaeda encontrado por um investigador norueguês na Internet, e que infelizmente não foi conhecido a tempo, antes dos atentados terroristas de Madri, em 11 de março. A Espanha não se retirou do Iraque devido aos atentados, mas parece óbvio que os responsáveis por eles também buscavam esse resultado. A estratégia de conseguir que deixem o território iraquiano os que acompanham os norte-americanos é a prioridade da jihad. Por isso, também, embora em outro nível, são assassinados caminhoneiros e cozinheiros nepaleses.

A quarta maneira de criar problemas para os norte-americanos é impedir a normalização política no Iraque. É o que pretendem os atentados e ataques a membros do novo governo iraquiano, às delegacias, aos centros de recrutamento, aos colaboradores estrangeiros, às empresas que fazem negócios com a nova administração e, também, aos cristãos iraquianos.

Em quinto lugar, mas de modo algum menos importante, o objetivo da jihad é criar um clima de medo, desconfiança e, em definitivo, de confrontação civil entre os próprios iraquianos muçulmanos, sejam xiitas ou sunitas. É o que o Alcorão condena como fitna, ou desordem. Esta é a intenção que está por trás dos atentados como o do aiatolá Al Khoey, que havia regressado pouco antes de seu exílio em Londres, ou do aiatolá Al Hakim, de grande prestígio intelectual, que comoveram a maioria xiita do país.

Por isso, o jovem Muqtada al Sadr leva os confrontos à cidade santa de Najaf. Toda a potência de fogo norte-americana se viu impotente diante do risco de danificar ou profanar o santuário e levar ao caos a maioria sociológica do país. Por fim, foi necessária a intervenção de outro grande aiatolá, Al Sistani, que se encontrava em tratamento médico em Londres, para ajeitar a situação. A crise acabou de maneira falsa, sem o desarmamento das milícias rebeldes, mas teve a virtude de destacar aos olhos dos iraquianos os limites do poderio norte-americano.

Por tudo isso, de modo algum nada do que ocorre é inocente, mas atende a uma estratégia bem montada.

O autor, Jorge Dezcallar, é embaixador da Espanha junto à Santa Sé