09 de julho de 2026
Bairros

Alunos falam sobre dificuldades

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Pegar ônibus, fazer compras no mercado, ler a Bíblia, assistir a um filme e conduzir um veículo são atividades que fazem parte do cotidiano de muita gente. Para analfabetos, entretanto, estas geralmente são tarefas difíceis que podem exigir o auxílio de outra pessoa.

Os obstáculos enfrentados cotidianamente por aqueles que não sabem ou têm dificuldade para ler e escrever são fatores que motivam a busca por um curso de alfabetização de adultos. A vergonha que muitos têm de voltar à escola é deixada de lado quando a meta a ser alcançada fala mais alto.

Lourdes Custódio Florinda da Silva, 46 anos, mora no Ferradura Mirim e não sabe ler nem escrever. Ela é casada, tem quatro filhos e eventualmente sai às ruas para recolher materiais recicláveis e complementar a renda da casa, já que o marido está desempregado e vive de bicos.

Há poucos dias, ela passou a freqüentar as aulas de um curso de alfabetização ministrado no próprio bairro em parceria entre a Polícia Militar (PM) e a prefeitura. Trata-se do projeto “Auxílio Comunitário Ferradura Mirim”.

Lourdes conta que morou durante muitos anos em um sítio na zona rural e só teve oportunidade de cursar o primeiro ano do ensino fundamental. “Estou começando a aprender agora, mas está difícil. Eu estudava quando estava com 15 anos. Agora cansei de ficar só cuidando de casa. O jeito é estudar um pouco e tentar aprender alguma coisa depois de velha”, diz.

A moradora do Ferradura Mirim revela que gostaria de ler os folhetos distribuídos pelos supermercados, por exemplo. “Eu não consigo ir ao mercado fazer compra sozinha porque eu não sei o preço das coisas. Tenho de levar meu marido junto. Ao banco também. Eu não sei fazer nada sozinha. Nem pegar ônibus”, lamenta.

Depois de alfabetizada, Lourdes pretende procurar um emprego. “Estou animada, por enquanto. Esse negócio de catar papel não dá em nada”, salienta.

Antônio Jardelino de Souza, 51 anos, também está tentando vencer dificuldades. Ele estudou até a terceira série do ensino fundamental e lê e escreve com dificuldade. Há cerca de dois meses, retomou os estudos na Escola do Serviço Social da Indústria (Sesi) localizada no Parque Triagem.

“Eu não tive oportunidade de estudar antes porque tive de trabalhar. A gente sente falta do estudo e passa por dificuldades por não saber ler e escrever corretamente. Eu sei pouco. Tudo torna-se difícil”, destaca.

Antônio, que trabalhou durante anos como motorista, conta que já perdeu algumas oportunidades de emprego por não saber ler e escrever. Outra dificuldade é ler placas de trânsito. “Se eu vir uma placa e eu não passar devagar, eu não consigo ler. A minha leitura é lerda, não é bater o olho e ler”, explica.

Pelo mesmo motivo, ele á desistiu de assistir a filmes legendados. “Eu nem assisto porque não adianta. Eu fico nervoso. Quando estou lendo uma parte, já vem uma nova frase. Não dá tempo”, frisa.

Maria Célia de Souza, 63 anos, também voltou recentemente aos bancos escolares. Ela lê e escreve com dificuldade e sente falta da fluidez na leitura quando está na igreja. “Quando a gente vai lá na frente ler, a gente engasga. Não sai nada. Mas agora estou melhorando”, afirma.

A cozinheira Cleusa Vieira da Silva, 43 anos, retomou os estudos por incentivo da família e afirma que em apenas dois meses sua vida mudou.

“Eu chegava do trabalho e ficava no sofá a noite toda assistindo à televisão. Agora não. Eu tomo um banho e vou para a escola. Minha vida mudou completamente. Eu me sinto mais animada e a depressão que eu estava começando a sentir foi embora”, salienta.

“Eu percebi que o estudo é tudo. É muito importante”, acrescenta a aluna.

Maria Francisca da Silva Oliveira tem 48 anos e ainda não sabe ler. Com dificuldade, ela escreve o nome. Devido à insistência do filho, matriculou-se na Escola do Sesi paraumcurso de alfabetização.

“Eu não queria vir à escola porque tenho um pouco de vergonha. Eu fico triste porque eu faço esforço para aprender e não consigo. Mas estou gostando”, diz.

“O estudo faz falta para a gente. Eu sinto falta de ler para tirar carteira de habilitação, para ler a Bíblia, o jornal, um livro e para pegar o ônibus”, conta.

Já Aparecido Cesário da Silva, 32 anos, está matriculado em um curso de alfabetização desde 2002. Nesse período, ele aprendeu a ler e a escrever. “Eu não sabia tomar um ônibus. Agora eu sei. Eu não sabia ir à cidade sozinho. Agora eu sei. Mudou muita coisa na minha vida. Eu me sinto melhor hoje”, confessa.