09 de julho de 2026
Cultura

O novo teatro brasileiro

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

O diretor e professor de teatro Paulo Neves liderar pela primeira vez o júri do 11º Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente (Fentepp), o quarto maior do País e único entre os grandes que é realizado apenas com grupos nacionais. O evento, realizado no final de agosto, reuniu mais de 50 peças de 15 Estados do Brasil, sendo que sete delas, na mostra competitiva julgada por Neves e mais sete convidados. Doze universidades levaram seus grupos.

Para o diretor bauruense, que atualmente trabalha com seus alunos na montagem de “Trate-me Leão”, de Hamilton Vaz Pereira, que consagrou o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone no final dos anos 70, a experiência foi uma agradável surpresa que o levou além da discussão sobre teorias. Neves concedeu uma entrevista ao JC na qual comenta o “choque” que o fez perceber em Prudente como está evoluindo o teatro no Brasil. A seguir, os principais trechos.

Jornal da Cidade - Você já havia sido jurado no festival. Como foi ser presidente?

Paulo Neves - Quando eu fui jurado, em 1999, o júri eram três pessoas, o Roberto Vinhati, José Rubens Siqueira e eu. Agora foram sete jurados e mais o presidente. Os sete membros do júri são componentes dos sete grupos que foram classificados para competir. Achei isso um avanço, nunca tinha visto isso em festival. Cada um dos jurados tinha que ter uma ligação com o grupo mas também um currículo de qualidade, uma escola de teatro. Foi muito interessante, no dia que o grupo de um deles estava se apresentando o respectivo representante ouvia os outros seis. Eu ficava como mediador. O representante não votou no próprio grupo. Foi muito bom porque discutimos muito o teatro... e o teatro brasileiro. Saiu um pouco o glamour de São Paulo porque participaram grupos de Fortaleza, da Bahia. Comecei a ver como está o teatro no País.

JC - O que você percebeu?

Neves - É impressionante a modificação desse País quando você fala de teatro, de cultura. Você vai discutir Brecht em Crateús? Não dá. O grupo de lá levou um espetáculo chamado “Deus Danado”, que conta a história de dois nordestinos, na miséria, discutindo a vida deles. Isso é Brasil, o público nordestino vai ver essa realidade sem o celofane. “Deus Danado” é épico no Nordeste e a gente nem conhece. O que eles respeitam em São Paulo? O teatro do Latão, que é sério, o Tapa, o Antunes Filho. Os que fazem trabalhos sérios, que não saem de São Paulo também. O “comercialzão” eles nem conhecem, o via global. Esse tipo de teatro chega em Fortaleza por R$ 60,00, aí o povo vai ver “Lesados”, a peça que ganhou o festival, por R$ 10,00, R$ 5,00. Eles tão fazendo o teatro do absurdo. Eu perguntei sobre Beckett e eles disseram: “professor, estou lendo histórias em quadrinhos e focalizei isso”. Qual o diálogo que se tem no meio do sertão? É: “Oi”, “Sol, hein?”, “É”. Isso pra mim foi um choque porque a gente conhece o “comercialzão” de São Paulo, mas não conhece o teatro brasileiro. Quando se pega um texto de Florianópolis, vê que há uma pesquisa por trás. Todos estão fazendo pesquisa dentro das universidades. A gente não vê isso aqui.

JC - O festival de Prudente é o quarto maior do Brasil

Neves - É, atrás de Rio Preto, Londrina e Curitiba, que são internacionais. Isso é importante porque são diferentes linguagens. Esse é único nacional que continua mantendo uma raiz. E eles não pretendem abrir mão disso. Quando você vê tantos grupos de diferentes lugares do País desenvolvendo um trabalho seríssimo de pesquisa, as universidades também, se pergunta: e São Paulo? A gente não vê isso aqui. Quando eu digo que a gente não vê, é porque, quando você pega escolas de teatro em São Paulo, pela própria organicidade da escola, eles têm que fazer um final do ano um exame, pela lógica, por exemplo, que se apresentou no festival foi a faculdade Anhembi Morumbi. Mas eles fizeram o espetáculo dentro da aula da diretora e acabou. Aí tem a situação de Salvador. As teses são em cima de teatro, eles estão trabalhando com isso e querem colocar esse povo voltado para o teatro. É o Brasil que está ávido por cultura. Eles não abrem mão das tradições regionais como nós aqui em São Paulo. Só temos focos regionais.

JC - Você acredita que essa filosofia em relação à cultura é maior em todo o estado, como no caso, o Ceará ou a Bahia?

Neves - Eu percebi que o estado se movimenta. Eu perguntei sobre “Deus Danado”, por exemplo e eles disseram que iam ficar uma semana em Salvador, depois, a Secretaria de Cultura ia levá-los para o Interior da Bahia. Fortaleza a mesma coisa. Eu achei isso lindo. Eles até disseram: “O senhor precisa conhecer o Sesc de Crateús”. Eles têm uma ligação muito boa com o Sesc. Isso é importante porque a nossa Lei de Incentivo à Cultura fica no “Sul maravilha”. Ela não entra no Interior. Ela não leva um Edson Celulari, uma Fernanda Montenegro para Juazeiro. E aí você vê um movimento próprio nascer em Juazeiro.