08 de julho de 2026
Geral

Maioria desconhece posse responsável

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

Eles precisam de atenção e carinho, demandam gastos constantes e sua saúde depende da prevenção de doenças, exercícios e uma boa qualidade de vida. Não são bebês, porém, é quase como se fossem. Os animais de estimação necessitam essencialmente dos cuidados de seus donos para sobreviver, no entanto, grande parte destes desconhece o conceito de posse responsável e não cumpre os deveres assumidos ao adotar ou comprar um bichinho.

Um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e publicado no volume 5 da Revista de Educação Continuada aponta que a maioria dos proprietários de cães não toma os cuidados mínimos necessários para a promoção da saúde e do bem-estar de seus animais.

De 1.168 pessoas entrevistadas para o trabalho, 67,98% desconheciam a necessidade de aplicação de vacinas em seus animais além da anti-rábica, e somente 0,83% recolhe as fezes quando os animais defecam em vias públicas.

Além de significar atenção às necessidades dos animais e cuidados veterinários e de higiene, a posse responsável engloba também questões de saúde pública e de respeito à população. Situações como o abandono de cães na rua acabam por provocar problemas de saúde graves, como a epidemia de leishmaniose que vem ocorrendo em Bauru nos últimos meses e que já vitimou 17 pessoas, sendo quatro fatalmente.

Na opinião do veterinário José Rodrigues Gonçalves Neto, chefe de seção do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Bauru, a posse responsável de animais traduz o exercício consciente de cidadania. “Para ter um cão, um gato ou outro animal, você precisa partir do pressuposto de que terá um ambiente adequado para ele e que isso requer gastos, assim como um filho”, comenta.

Neto ressalta que muitas pessoas deixam de cuidar de seus animais e acabam procurando o CCZ para que o órgão forneça os cuidados necessários para a sobrevivência do bichinho - muitas vezes, quando já não há mais nada a fazer a não ser sacrificá-lo. “Muitas pessoas têm um desprendimento muito grande e vêm entregar cães idosos e doentes. É um absurdo! Não sei como as pessoas conseguem deixar um animal com quem convivem chegar ao estado em que eles são deixados aqui”, indigna-se o veterinário.

Ele informa que o órgão não tem função assistencialista e não pode arcar com gastos de consultas, medicamentos e alimentação. Estas são despesas de responsabilidade dos próprios donos. “O poder público é responsável por receber esses animais para evitar um mal maior, que seria de colocá-los na via pública. Mas muitas vezes, um pouco mais de atenção dedicada aos bichinhos já seria o suficiente para eles serem saudáveis e para a pessoa mantê-lo em casa”, opina.

Consciência

Há cerca de um ano, o tosador Sérgio Luiz Sarti encontrou na rua um cocker spaniel bem cuidado e que parecia ter fugido de casa. Após tentar achar seu dono, decidiu ficar com o cãozinho, batizado de Tutti. Agora, Sarti está se mudando para um apartamento e decidiu abrir mão do companheiro. “Vou ter de me desfazer dele porque ele não pode ficar sozinho. Ele ficaria latindo o tempo todo e poderia até ficar doente. Estou tentando doá-lo para seu próprio bem”, diz o tosador, consciente do conceito de posse responsável.

Apesar da dor no coração, Sarti observa que tentou encontrar uma solução que provocasse menos danos ao cãozinho. “Não sei de onde surge essa idéia do povo abandonar os bichinhos. Eu só estou tentando dar o melhor para o Tutti, encontrar um local adequado e uma família que possa cuidar bem dele.”

A artista plástica Maria Lúcia Villela é outro bom exemplo de proprietária de bichos de estimação. Além de duas cadelinhas, ela tem duas calopsitas e outros quatro pássaros. “Sou preocupadíssima com a saúde e a higiene de todos eles, e até mesmo com a parte emocional. É muito sério quando a gente se compromete a cuidar de um animal”, destaca.

Além dos gastos com alimentação e cuidados veterinários, Lúcia acaba sacrificando uma parte de sua vida em função de seus companheiros. “Eu me privo de muita coisa, até de passear porque não os deixo sozinhos por muito tempo. Só saio quando tem alguém que pode ficar com eles”, relata.

Para a escolha de um companheiro de estimação, ela recomenda que os novos proprietários conversem com donos de animais da mesma espécie e analisem o tipo de bicho que desejam. “Tem de saber escolher um animal e uma raça que agrade. Gatos, por exemplo, não gostam muito de crianças, mas tem cães que se dão bem com elas. E se você não tem espaço para um cão grande, é melhor escolher um cachorrinho pequeno, que fica dentro de casa”, indica Lúcia.

A aposentada Maria Benedita Gomes dos Santos conta que optou por morar em uma residência com quintal justamente para poder abrigar seus companheiros. Atualmente, ela tem três cães adultos e três filhotes da raça fox paulistinha. “Eu escolhi uma casa com quintal para que meus cachorros pudessem ficar à vontade”, completa.

Todos os meses, além dos 15 quilos de ração para os seis cãezinhos, ela compra também uma quantidade para alimentar os cachorros da vizinhança. “Eu levo os meus no veterinário freqüentemente, mas algumas pessoas não sabem cuidar, arrumam um cachorro e não dão atenção. Eu acabo dando ração para alguns bichinhos aqui da minha rua também, já que os donos mesmo não cuidam”, critica.

Gastos desnecessários

Além de atenção e carinho, o veterinário Paulo Roberto Zanardi destaca a necessidade da prevenção de doenças que podem acometer os animais de estimação. “A posse responsável também abrange tratar bem do animal e levá-lo ao veterinário para vaciná-lo. Isto é uma questão de saúde pública, porque um cachorro ou um gato doente pode interferir na saúde do seu vizinho”, alerta.

Segundo Zanardi, a prevenção das doenças e o acompanhamento periódico da saúde dos animais acabam saindo menos custosos do que um atendimento de emergência, no caso de uma doença. “Só metade dos clientes faz a prevenção. O restante procura um veterinário só quando o animal está doente. Entretanto, a aplicação de uma vacina teria ficado mais barata do que a consulta e os medicamentos que o dono terá de pagar, que acabam sendo gastos que poderiam ser evitados”, conclui.