09 de julho de 2026
Geral

Água mineral: 77% têm excesso de flúor

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 3 min

Cerca de 77% das marcas de água mineral comercializadas em Bauru têm concentração de flúor maior do que a estipulada no rótulo do produto, de acordo com uma pesquisa realizada pela pós-graduanda em odontologia Inês Ramires. O trabalho foi orientado pela professora Marília Afonso Rabelo Buzalaf, da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP).

Essa diferença pode facilitar a ocorrência de fluoroses, defeito no desenvolvimento do esmalte (tecido externo que recobre o dente) devido ao excesso de ingestão de flúor. O fator afeta principalmente crianças de 11 meses a 7 anos, faixa etária em que ocorre a formação dentária.

Como atinge a parte externa dos dentes, a fluorose não causa grandes complicações, mas interfere na formação estética. “A manifestação clínica depende do nível de exposição que a pessoa teve ao flúor. Nos casos mais suaves, aparecem pequenas linhas esbranquiçadas no esmalte. Nos casos mais severos, se formam áreas brancas”, destaca Buzalaf.

A pesquisa foi realizada em 2001 e analisou a qualidade da água ingerida em 1.000 residências da cidade. O resultados das amostras analisadas no departamento de bioquímica da FOB indicaram que 29,7% da população de Bauru consome água mineral, e o restante ingere água de abastecimento público. “A pesquisa mostrou que 77,8% das águas minerais tinham uma concentração de flúor maior do que a estipulada no rótulo, diz Buzalaf. No total, foram pesquisadas 29 marcas e 19 fontes de água.

Prejuízo

Se os índices forem comprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a população pode estar comprando água mineral com problemas de qualidade. De acordo com a assessoria de imprensa da agência, o rótulo deve obrigatoriamente conter informações quando a água tem mais de um miligrama de flúor. No caso da água ter mais de dois miligramas de flúor, o fabricante deve divulgar no rótulo que o produto não é indicado para crianças de até 7 anos e também que ele não é adequado para consumo diário.

Essas determinações constam de uma resolução da Anvisa em vigor desde junho de 2000. Embora indique normas, o órgão não é responsável pela fiscalização dos setores de industrialização e distribuição de água mineral. Esse controle é feito em âmbito municipal. A médica Maria Helena Abreu, diretora do Departamento de Saúde Coletiva (DSC) - que abrange o Departamento de Vigilância Sanitária da cidade - não foi localizada para comentar o assunto.

Leite em pó

Segundo Buzalaf, as chances de ocorrência de fluorose dentária são maiores quando a água mineral com excesso de flúor é usada para diluição de leite ou sucos em pó e alguns alimentos reconstituídos. “Para o preparo do leite em pó, recomenda-se que as pessoas usem água não-fluoretada ou com baixa concentração de flúor. Como toda a água de abastecimento público é fluoretada, a opção seria o uso de água mineral”, aponta Buzalaf.

Essa prática é adotada pela cabeleireira Andréa Corrêa Figueiredo. Mãe das gêmeas Helena e Alexia, de 1 ano e 3 meses, e de Alexandre, 3 anos, ela conta que ao dissolver o leite em pó, só utiliza água mineral. “Mas eu não sabia que nem essa água não é tão segura”, espanta-se. “Acho que isso deveria ser melhor fiscalizado”, aponta.

O presidente da Associação de Distribuidoras de Água Mineral de Bauru e Região (Adambar), Osmar Guerreiro Nunes, afirma que se os dados apontados na pesquisa forem comprovados, o órgão poderá pedir um estudo da Associação das Indústrias de Água Mineral. “Para isso, preciso primeiro verificar os itens levantados na pesquisa”, diz.

Apesar de, em uma primeira análise não concordar com as diferenças descritas nas amostras feitas pela FOB, Nunes destaca que nem sempre a água tem a mesma composição no lençol freático o ano inteiro. Segundo ele, o fato, porém, não justificaria as diferenças na qualidade do produto.