Abro hoje estas linhas com uma expressão de JL Borges. É trivial, diz ele, e fortuita a circunstância de que você seja o leitor deste escrito e eu seu redator. Ele quer dizer que tanto faz você estar lendo o que ele escreve como ele estar aí, sentando em seu lugar e lendo o que você poderia estar escrevendo. É simplesmente uma questão de oportunidade ou de tempo: por um simples acaso, eu me sentei aqui neste computador, antes de todos, e pus-me a escrever estas linhas que bem poderiam ter sido escritas por você.
Sei que não somos nada. Que nossas essências são as mesmas, e por isso mesmo, deixo-me ferir quando alguém, numa atitude arrogante, assume a dianteira de qualquer evento, de qualquer acontecimento, de qualquer ato, como por exemplo o plantio de qualquer semente, conclamando para si glórias e incensos que não apenas um, mas uma maioria semeou, regou a terra, esperou a plantinha romper as barreiras que a sufocavam e apontar seu primeiro rebento verde para os raios de sol. Essa a etapa mais difícil: a da criação de uma idéia, o carinho dado-lhe, a fim de que não feneça e, finalmente, o desabrochar, em toda sua plenitude, de um pensamento amadurecido a duras penas que venha a iluminar rotas e sinalizar os perigos.
E já viram quantos no mundo existem, roubando o mérito alheio, fazendo-se de sonsos, pegando carona nas caravanas alheias e pondo com as próprias mãos a coroa sobre as próprias cabeças? Cabeças coroadas, sim. Coroadas, entretanto, pela vaidade do coroado.
Não me permito, nesta oportunidade, ser mais clara, mesmo porque não tenho procuração de quem, envolvido em projetos difíceis e complexos, tenha sido disfarçadamente usurpado, deixando-se passar para trás com humildade e até mesmo com uma certa leniência que só faz mesmo o gênero dos beatificados.
“Nossos nadas pouco diferem”, eu sei. Nem por isso, entretanto, vou me sentar em seu trono, só porque sua brandura o deixa sempre desocupado. Sei que em seu lugar, poderia estar eu, mas um simples acaso colocou-o aí, antes de mim. Então vou respeitar o acaso, a oportunidade, o tempo que o soergueu primeiro e, simplesmente, aguardarei a minha vez. Se ela chegar, muito bem. Se não chegar não vai fazer diferença nenhuma porque não é o brilho que faz o sábio, não é o fulgor que faz o bom cidadão. Creio que foi Humberto de Campos quem, uma vez, escreveu: “A natureza é sábia e justa.
O vento sacode as árvores para que todas as folhas tenham o seu momento de ver o sol.” E há várias maneiras de ver-se o sol. Ver é relativo. Pode-se ver, realmente, olhando para a claridade de seus raios e deixando-se emoldurar pelo dourado de sua cintilação; porém, mais feliz é aquele que nem precisa vê-lo para sentir o quanto ele aquece, acalora e entusiasma.
Dra. Maria da Glória De Rosa - mgderosa@bol.com.br