A carreira de professor já foi uma das mais importantes do País, tanto que em décadas passadas seu prestígio e salário eram compatíveis aos de um juiz ou de gerente de banco. Hoje, quem escolhe a profissão se vê obrigado, na maioria das vezes, a viver com um orçamento apertado e com a falta de reconhecimento de muitos alunos e também da sociedade.
Na data em que se comemora o Dia do Professor, essa decadência pode ser constatada por meio dos depoimentos de profissionais de três gerações diferentes.
O professor aposentado Rodolpho Pereira Lima começou a lecionar na década de 50 e se recorda com saudade daquele tempo. “Comparando o que nós ganhávamos com o que é pago hoje, a diferença é impressionanteâ€, relata.
Para Lima, a profissão começou a entrar em declínio a partir dos anos 70 e piorou ainda mais na década seguinte, época em que a professora Maria Magda Zaia Pereira passou a dar aulas. “Entrei no momento em que os professores lutavam por melhores salários e salas de aula com menos alunos, reivindicações que persistem até hojeâ€, comenta.
Segundo ela, o poder aquisitivo da categoria vem piorando cada vez mais nas últimas duas décadas. “O professor foi muito desvalorizado ao longo desse tempo. É preciso lembrar, porém, que todas as pessoas precisam passar pelas nossas mãos para exercer qualquer profissãoâ€, destaca.
Apesar das reclamações dos colegas, a falta de reconhecimento parece não intimidar Anderlaine Mereide da Silva Furquim, que leciona na rede municipal de ensino há pouco mais de um ano. Ela conta que prefere olhar a profissão por outro ângulo. “A grande conquista é você ver uma criança chegando à escola sem saber nada e, depois disso, aprender a ler. É uma vitóriaâ€, argumenta.
Anderlaine reconhece, no entanto, que a carreira já não tem o mesmo glamour do passado. “Se antigamente dava para trocar de carro todo ano, hoje isso não é mais possível. Eu tenho um Escort 95â€, declara.
Desistência
A diretora do Centro do Professorado Paulista (CPP) em Bauru, Vera Lúcia Durand da Silva, afirma que a queda do poder aquisitivo dos professores também pode ser medida por outro parâmetro. “Temos muitos associados que estão cancelando o nosso plano de saúde porque não têm mais condições de arcar com as mensalidadesâ€, revela.
Silva destaca que a desvalorização do professor acaba interferindo decisivamente na qualidade do ensino. “Além disso, a aprovação automática nos deixou sem autoridade. O aluno diz que não adianta exigir dele, porque sabe que vai passar de ano de qualquer jeito. Ele não percebe que na escola da vida isso fará diferençaâ€, analisa.
A educadora Vera Casério acredita que essa situação só será revertida se a categoria se unir novamente. “Quando essa desvalorização começou, os professores se reuniam para reivindicar, mas hoje em dia cada vez menos se nota essa posturaâ€, opina.
Com a experiência de quem atuou 29 anos na rede pública e atualmente coordena as atividades acadêmicas de uma instituição de ensino superior, Casério destaca que o próprio professor precisa aprender a se valorizar. “Isso irá ocorrer quando ele descobrir que merece ser respeitado. Também é importante que ele continue estudando, porque a formação acadêmica não é suficienteâ€, diz.
Apesar das dificuldades que marcam a carreira atualmente, ela se mostra otimista em relação ao futuro. “Se tivermos investimentos e a valorização do profissional, a escola pública tem condições de ser até melhor do que já foi um diaâ€, projeta. É o que esperam, ansiosos, os professores de todas as gerações.
• Anos 50
' A aposentadoria virou um castigo'
O professor Rodolpho Pereira Lima, 74 anos, se aposentou em 1983, época em que a profissão estava entrando definitivamente em declínio. Ele se lembra dos tempos em que até mesmo os profissionais recém-formados ganhavam bem.
Lima conta que ele e a esposa, também professora, se mudaram para Bauru em 1958, no início de carreira. “Alugamos uma casa no Centro com telefone e ainda compramos uma perua Kombi. Hoje em dia, um casal de professores que está começando jamais teria condições de fazer issoâ€, declara.
Para ele, a culpa dessa decadência profissional está na fusão dos antigos primário e ginásio, no início dos anos 70. “A intenção do governo foi promover a democratização do ensino e a escolaridade aumentou, é verdade, mas não se esperava que o padrão fosse cair tantoâ€, comenta.
Segundo Lima, os professores que optam por encerrar a carreira encontram ainda mais dificuldades para manter seu padrão de vida. “Sempre se falou que a aposentadoria era um prêmio, mas hoje ela é um castigoâ€, critica.
• Anos 80
' Deveria ter cursado odontologia'
Quando a professora Maria Magda Zaia Pereira, 47 anos, começou a lecionar, em 1985, a profissão de professor já não estava mais no apogeu. “Lembro de uma vizinha que havia se aposentado e que falava que quando ela trabalhava ganhava o mesmo que um juizâ€, relata. Mesmo assim, Pereira conta que há duas décadas vivia com mais tranqüilidade ao lado do marido, também professor. “Para assistir a uma peça de teatro, por exemplo, era muito mais fácilâ€, compara.
Após dar aulas durante 19 anos, ela se mostra um tanto quanto insatisfeita com a profissão. “Eu deveria ter cursado odontologia. Fui aprovada no vestibular em Marília, mas não tive condições financeiras para começar o cursoâ€, lamenta.
Pereira conta que as dificuldades enfrentadas na profissão por ela e pelo marido parecem ter contagiado os três filhos adolescentes. “Principalmente a minha filha, que sempre repete que nunca vai querer ser professoraâ€, relata. Para ela, a desvalorização do profissional é um caminho sem volta. “Os próprios pais de alunos hoje em dia já não nos respeitam mais como antesâ€, declara.
• Anos 2000
' A falta de disciplina é uma decepção'
A professora Anderlaine Mereide da Silva Furquim, 25 anos, ingressou na rede municipal de ensino em setembro do ano passado. Ela revela que encarou dificuldades no início. “A falta de disciplina é uma decepção. Temos a expectativa que vamos chegar na sala de aula e todos vão ficar quietos ouvindo o que a gente tem para falar, mas não é isso que aconteceâ€, relata.
Furquim diz que precisou adaptar sua maneira de agir para conquistar os alunos. “Aprendi a manter a calma sempre. Eu era muito explosiva no começo, só que quanto mais tranqüilidade você passar para os alunos, mais coisas obteráâ€, opina.
Formada em matemática, ela diz que está feliz com o que recebe atualmente. “Sempre queremos melhorar, mas por outro lado há pessoas que vivem com apenas um salário mínimo. Perto disso, o que ganha um professor permite que ele se mantenhaâ€, argumenta.
Furquim conta, ainda, que não se arrependeu da profissão que escolheu. “Tanto que fui convidada para entregar um currículo em um banco e não quisâ€, revela.
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Perfil do docente brasileiro é jovem
Os dados preliminares do Censo do Professor, realizado em 2003 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostra que 74,4% dos professores que atuam na educação básica têm até 44 anos de idade. Desse total, 35,8% estão na faixa etária de 35 a 44 anos, 31,4% têm de 25 a 34 anos e 7,6% estão na faixa de 18 a 24 anos.
Cerca de 1,7 milhão de docentes de todo o País responderam à sondagem, que apontou ainda a presença de 84,1% de mulheres no comando das salas de aula. Os números completos do levantamento serão divulgados na segunda quinzena de novembro.
Da Redação