08 de julho de 2026
Geral

Professor vive decadência da profissão

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 6 min

A carreira de professor já foi uma das mais importantes do País, tanto que em décadas passadas seu prestígio e salário eram compatíveis aos de um juiz ou de gerente de banco. Hoje, quem escolhe a profissão se vê obrigado, na maioria das vezes, a viver com um orçamento apertado e com a falta de reconhecimento de muitos alunos e também da sociedade.

Na data em que se comemora o Dia do Professor, essa decadência pode ser constatada por meio dos depoimentos de profissionais de três gerações diferentes.

O professor aposentado Rodolpho Pereira Lima começou a lecionar na década de 50 e se recorda com saudade daquele tempo. “Comparando o que nós ganhávamos com o que é pago hoje, a diferença é impressionante”, relata.

Para Lima, a profissão começou a entrar em declínio a partir dos anos 70 e piorou ainda mais na década seguinte, época em que a professora Maria Magda Zaia Pereira passou a dar aulas. “Entrei no momento em que os professores lutavam por melhores salários e salas de aula com menos alunos, reivindicações que persistem até hoje”, comenta.

Segundo ela, o poder aquisitivo da categoria vem piorando cada vez mais nas últimas duas décadas. “O professor foi muito desvalorizado ao longo desse tempo. É preciso lembrar, porém, que todas as pessoas precisam passar pelas nossas mãos para exercer qualquer profissão”, destaca.

Apesar das reclamações dos colegas, a falta de reconhecimento parece não intimidar Anderlaine Mereide da Silva Furquim, que leciona na rede municipal de ensino há pouco mais de um ano. Ela conta que prefere olhar a profissão por outro ângulo. “A grande conquista é você ver uma criança chegando à escola sem saber nada e, depois disso, aprender a ler. É uma vitória”, argumenta.

Anderlaine reconhece, no entanto, que a carreira já não tem o mesmo glamour do passado. “Se antigamente dava para trocar de carro todo ano, hoje isso não é mais possível. Eu tenho um Escort 95”, declara.

Desistência

A diretora do Centro do Professorado Paulista (CPP) em Bauru, Vera Lúcia Durand da Silva, afirma que a queda do poder aquisitivo dos professores também pode ser medida por outro parâmetro. “Temos muitos associados que estão cancelando o nosso plano de saúde porque não têm mais condições de arcar com as mensalidades”, revela.

Silva destaca que a desvalorização do professor acaba interferindo decisivamente na qualidade do ensino. “Além disso, a aprovação automática nos deixou sem autoridade. O aluno diz que não adianta exigir dele, porque sabe que vai passar de ano de qualquer jeito. Ele não percebe que na escola da vida isso fará diferença”, analisa.

A educadora Vera Casério acredita que essa situação só será revertida se a categoria se unir novamente. “Quando essa desvalorização começou, os professores se reuniam para reivindicar, mas hoje em dia cada vez menos se nota essa postura”, opina.

Com a experiência de quem atuou 29 anos na rede pública e atualmente coordena as atividades acadêmicas de uma instituição de ensino superior, Casério destaca que o próprio professor precisa aprender a se valorizar. “Isso irá ocorrer quando ele descobrir que merece ser respeitado. Também é importante que ele continue estudando, porque a formação acadêmica não é suficiente”, diz.

Apesar das dificuldades que marcam a carreira atualmente, ela se mostra otimista em relação ao futuro. “Se tivermos investimentos e a valorização do profissional, a escola pública tem condições de ser até melhor do que já foi um dia”, projeta. É o que esperam, ansiosos, os professores de todas as gerações.

• Anos 50

' A aposentadoria virou um castigo'

O professor Rodolpho Pereira Lima, 74 anos, se aposentou em 1983, época em que a profissão estava entrando definitivamente em declínio. Ele se lembra dos tempos em que até mesmo os profissionais recém-formados ganhavam bem.

Lima conta que ele e a esposa, também professora, se mudaram para Bauru em 1958, no início de carreira. “Alugamos uma casa no Centro com telefone e ainda compramos uma perua Kombi. Hoje em dia, um casal de professores que está começando jamais teria condições de fazer isso”, declara.

Para ele, a culpa dessa decadência profissional está na fusão dos antigos primário e ginásio, no início dos anos 70. “A intenção do governo foi promover a democratização do ensino e a escolaridade aumentou, é verdade, mas não se esperava que o padrão fosse cair tanto”, comenta.

Segundo Lima, os professores que optam por encerrar a carreira encontram ainda mais dificuldades para manter seu padrão de vida. “Sempre se falou que a aposentadoria era um prêmio, mas hoje ela é um castigo”, critica.

• Anos 80

' Deveria ter cursado odontologia'

Quando a professora Maria Magda Zaia Pereira, 47 anos, começou a lecionar, em 1985, a profissão de professor já não estava mais no apogeu. “Lembro de uma vizinha que havia se aposentado e que falava que quando ela trabalhava ganhava o mesmo que um juiz”, relata. Mesmo assim, Pereira conta que há duas décadas vivia com mais tranqüilidade ao lado do marido, também professor. “Para assistir a uma peça de teatro, por exemplo, era muito mais fácil”, compara.

Após dar aulas durante 19 anos, ela se mostra um tanto quanto insatisfeita com a profissão. “Eu deveria ter cursado odontologia. Fui aprovada no vestibular em Marília, mas não tive condições financeiras para começar o curso”, lamenta.

Pereira conta que as dificuldades enfrentadas na profissão por ela e pelo marido parecem ter contagiado os três filhos adolescentes. “Principalmente a minha filha, que sempre repete que nunca vai querer ser professora”, relata. Para ela, a desvalorização do profissional é um caminho sem volta. “Os próprios pais de alunos hoje em dia já não nos respeitam mais como antes”, declara.

• Anos 2000

' A falta de disciplina é uma decepção'

A professora Anderlaine Mereide da Silva Furquim, 25 anos, ingressou na rede municipal de ensino em setembro do ano passado. Ela revela que encarou dificuldades no início. “A falta de disciplina é uma decepção. Temos a expectativa que vamos chegar na sala de aula e todos vão ficar quietos ouvindo o que a gente tem para falar, mas não é isso que acontece”, relata.

Furquim diz que precisou adaptar sua maneira de agir para conquistar os alunos. “Aprendi a manter a calma sempre. Eu era muito explosiva no começo, só que quanto mais tranqüilidade você passar para os alunos, mais coisas obterá”, opina.

Formada em matemática, ela diz que está feliz com o que recebe atualmente. “Sempre queremos melhorar, mas por outro lado há pessoas que vivem com apenas um salário mínimo. Perto disso, o que ganha um professor permite que ele se mantenha”, argumenta.

Furquim conta, ainda, que não se arrependeu da profissão que escolheu. “Tanto que fui convidada para entregar um currículo em um banco e não quis”, revela.

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Perfil do docente brasileiro é jovem

Os dados preliminares do Censo do Professor, realizado em 2003 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), mostra que 74,4% dos professores que atuam na educação básica têm até 44 anos de idade. Desse total, 35,8% estão na faixa etária de 35 a 44 anos, 31,4% têm de 25 a 34 anos e 7,6% estão na faixa de 18 a 24 anos.

Cerca de 1,7 milhão de docentes de todo o País responderam à sondagem, que apontou ainda a presença de 84,1% de mulheres no comando das salas de aula. Os números completos do levantamento serão divulgados na segunda quinzena de novembro.

Da Redação