Internos da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) de Bauru mantiveram três reféns por cerca de duas horas ontem durante uma rebelião. Armados com pedaços de ferro, enxadas e pás, eles subiram para o telhado do prédio, de onde exibiam os reféns, queimavam colchões e exigiam a presença do juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer. Após a chegada do juiz e a negociação feita com a Polícia Militar (PM), por volta das 16h20, eles liberaram os reféns e se entregaram.
Na porta da Febem, a PM estava pronta para entrar e tentar libertar os reféns caso os amotinados não aceitassem a negociação e para coibir eventuais tentativas de fuga. Ao todo, cerca de 45 policiais militares entre a Força Tática, 4.ª Cia, Canil e Cavalaria permaneceram em torno da Febem enquanto durou a rebelião. O helicóptero Águia 9, da Rádio de Patrulha Aérea, inaugurada no último sábado, também foi usado na operação. Entre 10 e 15 dos 70 adolescentes da unidade participaram da rebelião.
Os três agentes de segurança feitos reféns foram liberados sem nenhum ferimento, segundo o capitão Nélson Garcia Filho, comandante da 4.ª Cia da PM. Após a rebelião, os policiais da Força Tática entram no prédio para fazer a revista e apreenderam várias armas improvisadas, que foram usadas pelos adolescentes.
O major Pedro Batista Lamoso, subcomandante do 4.º Batalhão da Polícia Militar Interior, um dos oficiais que negociou com os rebelados, conta que há dias eles estavam descontentes com o andamento de processos para progressão de pena, ou seja, transferência para unidade de semi-aberto. Os internos também reclamaram da qualidade da comida e de funcionários, que no passado teriam agredido-os.
Ubirajara Maintinguer, que ouviu as reivindicações dos amotinados, disse que vai levantar a situação de cada um dos processos para progressão de pena. “Eu concedi alguns benefícios para semi-liberdade e as unidades foram oficiadas para disponibilizar vagas, mas provavelmente esses ofícios ficaram presos em malotes ou não chegaram ao destino em razão da greve (do Judiciário)â€, diz.
Para o juiz, a espera por vaga em unidade de regime semi-aberto não prejudica os adolescentes infratores porque a maioria é de Bauru. “Ele vai aguardando a vaga e, se não sair, depois de um período, o adolescente é colocado em liberdadeâ€, explica. Ele ainda comprometeu-se a apurar a denúncia de agressão e verificar a qualidade da comida servida aos adolescentes.
Como foi
Por volta das 14h20, entre 10 e 15 dos 42 adolescentes da Unidade de Internação (UI) que estavam na quadra de esportes dominaram três agentes de segurança usando pedaços de ferro, segundo o major Lamoso. Em seguida, eles estouraram o cadeado de uma outra unidade para engrossar o movimento, entraram em uma sala de aula, onde retiraram barras de ferro de carteiras.
Em seguida, dirigiram-se para o prédio da administração, momento que os funcionários perceberam a movimentação e acionaram a Polícia Militar. Com os reféns, os amotinados subiram para o telhado, onde permaneceram até o final da rebelião. De lá, eles falavam com a direção da Febem, com a PM e com o juiz por um rádio HT usado por um agente de segurança.
Enquanto os amotinados queimavam colchões e mantinham três agentes reféns, aos poucos mais de 20 funcionários saíram da Febem. Alegando estarem impedidos pela direção da Febem de falar com a imprensa, eles não comentaram o que haviam presenciado, mas as expressões dos rostos demonstravam que estavam muito abalados.
Histórico
A última ocorrência na Febem de Bauru, localizada no Núcleo Geisel, foi uma fuga em massa, no dia 25 de agosto passado. Na ocasião, depois de renderem funcionários, 17 adolescentes saíram pelos portões da frente. Logo em seguida, um dos fugitivos foi recapturado pela Polícia Militar. Os outros 16 foram apreendidos nos dois dias seguintes.
A Febem foi inaugurada em fevereiro de 2002, mas começou a receber os adolescentes apenas três meses depois. Concebida como uma unidade-modelo, os internos seriam ressocializados com atividades multidisciplinares, equipe educativa e ausência de violência.
No entanto, diversas fugas em massa, rebeliões e tumultos já foram registrados. No final do ano passado, 46 menores escaparam da instituição em menos de dois meses.
No mesmo período, quando um tumulto também foi registrado, os adolescentes destruíram a enfermaria em um motim que só acabou com a intervenção da Polícia Militar.
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Helicóptero dá apoio
O helicóptero Águia 9 que a Polícia Militar de Bauru e região passou a contar desde o último sábado foi usado na rebelião da Febem de Bauru ontem para apoiar os policiais em terra. A aeronave sobrevoou a unidade logo no início e no final do motim.
Durante o primeiro sobrevôo, os policiais da aeronave passaram informações como o número de amotinados no telhado e o número de reféns às equipes em solo, conta o tenente Wagner José da Silva, da Base de Patrulhamento Aéreo. Após o final da rebelião, o helicóptero voltou a sobrevoar a Febem como medida de segurança.
Ainda ontem, o Águia foi acionado para dar apoio em duas investigações de roubos. Em uma delas, da aeronave os policiais observaram dois suspeitos em um terreno baldio, que foram abordados por equipes em solo.
O helicóptero também foi usado em apoio no caso de um furto de veículo em Dois Córregos. Após perseguição, o carro foi recuperado e um suspeito, detido. Em média, de acordo com Silva, a aeronave está sendo utilizada duas vezes por dia em patrulhamento preventivo e em apoio a ocorrências.