08 de julho de 2026
Geral

Para antropólogos, indíos resistem

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 2 min

“Um índio jamais deixará de sê-lo apenas por vestir roupas ou usar objetos e utensílios de não-índios. Um índio e toda a sociedade indígena constroem sua identidade étnica e social através de elementos de e exclusão próprios de cada cultura. Entendê-la e respeitá-la é nossa obrigação”.

Essas foram as principais considerações dos professores Giovani José da Silva e José Luiz de Souza ao destacarem os objetivos da oficina de antropologia indígena, durante o dia de ontem em Bauru, no Garden Plaza Hotel, pela Fundação para o Desenvolvimento Humano Douglas Andreani.

Giovani, que é historiador e antropólogo, e José Luiz, especialista em geografia humana, comandaram a oficina e transmitiram aos presentes a rica experiência adquirida após desenvolver trabalhos, durante mais de cinco anos, entre as comunidades dos kadiwéu e kinikinau, que habitam uma reserva no município de Porto Murtinho, no Mato Grosso do Sul.

“Foi quando aprendemos, na prática, como se manifestam essas diferenças. Os kadiwéu diferem dos kinikinau não apenas pela língua e costumes, mas pela visão de mundo que carregam consigo e com a qual explicam-se a si mesmo e aos outros, índios e não-índios”, destaca Giovani.

Segundo o historiador, a respeito das sociedades indígenas da atualidade há poucas e contraditórias informações.

“Muitos têm idéia do que são os índios de hoje, mas os que não sabem carregam noções erradas, como pensar que eles são preguiçosos e têm uma série de dificuldades. Na verdade, a dificuldade é nossa de entender essas diferenças”, ressalta. Para ele, cultivar a tolerância é difícil e trata-se de um fenômeno mundial.

Para Giovani, nem mesmo a globalização foi suficiente para fazer as comunidades indígenas perderem suas identidades culturais, familiares e religiosas. “Na verdade, ela exacerbou essas diferenças, à medida que muitas comunidades revitalizaram suas línguas em um esforço para mostrar que não querem ser iguais aos outros”, sustenta.

Ressurgimento

A prova disso, conforme José Luiz, seria o ressurgimento de grupos considerados quase extintos, como os pankararus e tupinambás, no Nordeste brasileiro.

“Outro exemplo é que, há 50 anos, os índios não ultrapassavam 200 mil no País. Hoje, esse número saltou para 750 mil”, enfatiza.

“Eles não querem ser assim porque são exóticos ou bonitos. Simplesmente, querem ser o que são”, acrescenta Giovani.

Para o antropólogo, conhecer e aprender a respeitar a diversidade cultural, como a dos indígenas é o cerne da humanidade. “Esses são os índios do século 21 e temos de nos acostumar com essa realidade”, frisa.